Conta-se que um domador fez história. Apresentou-se em famosos picadeiros ao redor do mundo e nos programas de TV mais prestigiados. Teve fama e fortuna.
Tanta experiência não o afastava do rígido treinamento, porque acreditava que este melhorava cada vez mais a sua aptidão.
Tinha o domínio da cena e dos movimentos corporais, sabia antecipar-se a cada gesto dos animais. Encarava-os nos olhos. O chicote estalava, dando-lhe um certo ar de corajoso caçador, num cenário onde certamente os grandes felinos seriam apenas coadjuvantes.
Certa vez, enquanto viajava, viu um pequeno circo, com animais, desses que ficam à beira das estradas. A faixa anunciava que aquela seria a noite da estreia. Com isso, não resistiu e foi olhar o ambiente. Apresentou-se ao dono do circo e este lhe disse que o domador havia falecido na véspera. O viajante se ofereceu para fazer o espetáculo de estreia.
O tratador dos animais perguntou se o domador não queria conhecer os leões e tigres. Ele demonstrou interesse, mas o dono do circo riu e, com soberba, dispensou a sugestão do tratador, fazendo imensos elogios ao ilustre visitante e dizendo que os felinos são todos iguais.
Na hora do espetáculo, rufaram os tambores. A música era alta e alegre, as luzes completavam o ar de festa. As pessoas lotaram o local. O mestre de cerimônias falava das qualidades do famoso visitante.
O grande domador, então, entrou na jaula, sozinho. Com sorriso de galã hollywoodiano do passado, sentia-se mais importante ali, perto do público, diferentemente do que ocorria nos grandes palcos e programas de TV. Ocupou o seu lugar e logo as cornetas anunciaram a chegada dos tigres e leões.
No primeiro momento, um dos leões logo o atacou, levando-o à morte rápida e trágica. Em seguida, os animais fugiram e começaram a atacar a plateia, que correu apavorada, no escuro, sem entender o que ocorreu e sem ter para onde ir com segurança.
Parece que o mundo moderno estava como o domador, sentindo-se seguro e confiante pelo que já se sabia sobre os vírus e as vacinas. As plateias logo vibraram após o lockdown inicial, registrando em fotografias as milagrosas primeiras doses de vacina.
Sentindo-se autoconfiantes, as pessoas lançaram-se além do que apenas seria o início da retomada com o “novo normal”. Voltaram a se reunir normalmente, enquanto o vírus ainda rondava o ambiente e insistia em gerar nova variante e inovar no jogo. Nova dose de vacina, agora mais uma… e já se fala na 4ª dose… E o vírus veio com nova roupa e nova identidade. Da versão original, à Delta e Ômicrom, agora surge a IHU, hoje detectada na França.
O perigo de uma nova variante não é o que vemos, mas o que representa. Significa que o vírus está mudando, se adaptando. Uma versão “mais branda” pode gerar a mais letal “fúria da noite”.
Parafraseando a crise econômica dos EUA de 2008, o perigo são “os derivativos”…
O vírus finge que cede aos caprichos das vacinas e discursos políticos, viagens turísticas e aglomerações e, enquanto as pessoas estão relaxadas, descansa no canto do ringue, para depois surgir recuperado e fortalecido para mais um round.
O abismo está ali, alguns alertam para a proximidade e pedem um passo atrás, enquanto outros chegam empurrando. Pessoas se agarram na borda do abismo, outras caem sem que haja quem lhes possa socorrer. Alguns negam que alguém tenha caído. Outros vêem a aglomeração e já colocam barracas com lanche e venda de bebidas e o som faz com que corpos se movimentem involuntariamente.
Nas festas de fim de ano, milhares de vôos foram cancelados no hemisfério norte. Aqui, fogos em Copacabana, pessoas entrando no país a partir de navios com detectados casos de Covid, praias cheias e festas e aglomerações… Máscaras? Começamos a ver que pareciam ser necessárias para se “entrar” no local, mas não para se permanecer dentro de Shoppings e em outros locais fechados, como casas noturnas. A Economia não pode parar. Isso é tão evidente quanto a impossibilidade de se precificar o custo de uma vida. Quantas empresas faliram, quantos empregos foram perdidos e quantas vidas ceifadas?
Fizeram toda sorte de promessas políticas, discursos negacionistas sobre gravidade concorrendo com prudentes alertas científicos. Pessoas que não queriam alarmar a população contribuíram para o que hoje se vê, pois alimentaram uma falsa sensação de segurança. Hoje, jornais noticiam que Belo Horizonte e Recife já estão sem leitos disponíveis… Pesquisadores continuam a emitir alertas, mas parece que não são ouvidos.
Enquanto isso, o vírus segue o seu caminho biológico e faz o que lhe cabe. Com isso, transforma as nossas certezas em relatividades. O “se”, que indica evento futuro e incerto, passa a dominar a cena.
O óbvio incomoda e a ilusão é atraente. A verdade por vezes é direta, enquanto a mentira e a manipulação exigem contornos cativantes. Parece que a humanidade caminha usando antolhos – aquelas peças de couro que são colocadas ao lado dos olhos dos animais, para reduzir o seu campo de visão. Só vê o que querem que veja e, assim, olhamos com o olhar que nos permitem ter. Nos retiram a visão periférica e as múltiplas variáveis possíveis. Pretendem resumir tudo a uma dualidade, a um sim ou não, ao certo ou errado.
Não é imprópria a semelhança com filme que hoje domina as conversas. Na cena em que o coro fala para não se olhar para cima, o que sentimos é uma corrupção da nossa lógica e bom senso, diante do senso comum tão atrativo e que se mostra forte naquele discurso ritmado e erótico. Agrade-nos ou não, evidente é que, em certos momentos, o filme parece irônico e sarcástico, noutros meio comédia e até mesmo tolo. Em verdade, essas são sensações que o filme não nos dá: ele apenas é o nosso espelho e reflete a fina ironia, o sarcasmo, a obviedade e o horror ante o non sense das fúteis ações que desfilam na tela, enquanto algo incontrolável e poderosamente destrutivo se aproxima.
A ideia de se “cavalgar” um meteoro para domá-lo é tão naturalmente ilógica que, por isso mesmo, atrai tanta gente. O ilógico seduz, inspira fanatismo, amores e poesia.
No filme, parece que o planejado final feliz não ocorreu porque não se combinou as “boas” ideias com o Cometa, do mesmo jeito que aquele domador não combinou com o leão e a humanidade não combinou o fim da Pandemia com o Vírus.
Tanta coisa poderia ser evitada se a técnica científica fosse mais ouvida em seus lúcidos alertas do que vozes que parecem ecoar o Cabaretier, que se dirige ao público do Cabaré para promover entretenimento e diversão, mais preocupado com o consumo e os ingressos vendidos do que em saber como terminará a noite.