Enquanto eu esperava, sentado em um banco da praça, sob a sombra de um ipê, pela abertura do teatro, abri minha mochila e tirei o livro 101 poemas de Roberval Pereyr. Um livro que levo comigo para onde eu vou. O tempo estava meio natalino, o canto dos pássaros ditava um ritmo que harmonizava aquele período do dia. Tudo estava perfeito como se tivesse algo faltando. O canto dos pássaros, a grama verde da praça e a sombra do ipê pintavam a paisagem naquela bela tarde.
De repente, chega e se senta ao meu lado uma senhorita de aproximadamente uns 48 anos, usando óculos, vestido florido, de cabelo preso e com uma voz rouca.
- Você gosta de poesia? Perguntou a jovem moça com um belo sorriso no rosto.
- Sim, gosto e escrevo também.
- Sério?
- Meu Deus! Que legal! Eu amo poesia.
- Esse livro, você o escreveu? Indagou a jovem.
- Não, não. É de um escritor baiano, o qual eu gosto muito. É um livro repleto de belos poemas.
- Calma aí! Exclamou a bela jovem.
- É um livro de poesias ou de poemas?
- Ele é um livro de poemas repletos de poesia, respondi a ela.
- Há algumas diferenças entre os dois? Perguntou a moça.
- Há sim, bastante diferença. Poesia não se escreve, se sente. É ela que nos tira risadas, lágrimas, suspiros e vários sentimentos quando lemos um poema, assistimos a um filme, ouvimos músicas, admiramos um quadro etc.
- Poxa! Que legal! Vivendo e aprendendo.
- Quero saber mais sobre isso. Você tem um tempinho a mais? Perguntou-me a senhorita.
- Sim, ainda tenho um bom tempo para conversarmos.
Eu disse a ela: – Há muita confusão a respeito desse assunto. Olhe para nós, somos constituídos de dois corpos: Um corpo físico e outro espiritual. A parte física é a parte a qual você só pode ver ou tocar. Ela não te provoca sentimentos ou sensação alguma, mas sim o que está dentro dela ou que sai dela, o qual é tudo aquilo que quando me conheceres ou passares a conviver comigo poderá te trazer bons sentimentos e sensações ou não.
Desta forma, quando você lê um poema ou tem contato com alguma arte é muito provável que sintas algo ou que aquele momento te traga alguma coisa que mexerá contigo de alguma forma e isso quem faz é o que chamamos de poesia.
Um poema sem poesia não é poema, mas sim um escrito qualquer. - Então, posso dizer que neste momento em que olho toda essa paisagem, o cantar dos pássaros, esse vento, enfim, tudo que está me trazendo essa paz, posso dizer que é a poesia do instante? Perguntou a moça.
- Sim. Pode sim, pois toda essa sensação de satisfação que você sente, é a mesma sensação agradável que sentimos quando lemos um bom livro, um bom poema, vimos um bom quadro, um bom filme e por aí vai.
- Olhe, meu anjo, se todos olhassem a vida como um belo poema, não tenho dúvida que veríamos toda a poesia composta na vida e assim teríamos sempre sentimentos grandiosos, não obstante, aprenderíamos a lê-la de forma mais eficaz. Disse eu àquela bela e inteligente moça.
- Então, verdadeiramente, você é um poeta, pois suas palavras são cheias de poesia. Digo isso porque estou sentindo algo muito especial conversando com você.
Então, olhei para ela e continuei a falar: - Realmente os poetas escrevem sim poemas cheios de poesia, pois do contrário, não seriam poemas. Mas lembre-se que qualquer gênero literário precisa conter poesia.
- Entenda, disse eu, que a natureza: As matas, os mares, o bailar dos peixes, o cantar dos pássaros, o passear das nuvens, o enluarar da lua, o brilho do sol, assim como o frescor do vento são belos versos cheios de poesia dentro do poema chamado vida, composta por Deus, o maior de todos os poetas.
Percebi que aquela Jovem senhorita estava com os olhos cheios de lágrimas, lágrimas de alegria e admiração. Olhando fixamente para o tempo, ela me disse: - Obrigado por ajudar a regar o deserto em meus olhos.
- Uma frase bem poética, disse eu a ela com um sorriso nos lábios.
Ela também sorriu e disse: - Você não é somente um poeta, e sim um fabricante de lágrimas.
- Bem, sou obrigado a concordar com você, disse eu a ela.
- Sou um fabricante de lágrimas, lágrimas que inundam o ego, que fazem chover nos porões onde o céu inexiste. Lágrimas que me encontram pelos caminhos dos meus desencontros. Que se tornam meus oceanos quando assim estou deserto.
Sou um fabricante de lágrimas das vidas que sorriem sem lábios, com dores escondidas atrás da pele. Lágrimas dos homens ocos, homens condenados a serem uns aos outros. enleados pelos braços ou mãos, rusticamente solenes em rústico alvoroço girando ao redor de si.
Sou um fabricante de lágrimas que desafiam o olhar fugaz do dia, vindo a mim como alvorada urbana, que surge na penumbra do desconhecido, entre dois mundos demasiadamente iguais que inspiram sem magia e nada prometer, onde a alma e o corpo não se despedaçam.
Sou um fabricante de lágrimas, Lágrimas de um poema e suas condições, das faces reprimidas no fundo da rua, com pegadas enlameadas de esperança como vento que se ondula em alto mar. Sou um fabricante de lágrimas, das verdades escondidas nos olhos, cheias de realidade por mim consumida. Quisera eu delas me fartar.
Ela, com um olhar cheio de contentamento, me disse: - Quero agradecer a você por este momento único e gentil, o qual me trouxe muito aprendizado. Me trouxe um olhar diferenciado sobre todas as coisas ao meu redor. Olho agora para o mundo e o vejo como uma página cheia de versos que, por sua vez, estão cheios de poesias, as quais antes eu não conseguia ver e nem as sentir.
- Acho que ganhei óculos novos, disse ela sorrindo.
- Espero que você, em seu caminho, consiga ver e observar todos os versos deste poema chamado vida. E que a sua poesia traga a você sentimentos e sensações cheios de alegria e entendimento, para que ela nunca passe despercebida durante a tua caminhada. Disse eu àquela bela e curiosa senhorita, a qual tinha os olhos cheios de poesia.
Que lutem os cegos, de boas visões!!!
EM DEMASIA
Que durasse tanto, assim eu quisera
Todo esse amor, que encontrei um dia
Mesmo que de pouco em pouco, ele perdurasse
como também assim fosse, mesmo em demasia.
Se os braços do tempo, então me fartasse
De abraços e carinhos, eu mesmo diria
E se todo esse amor, em mim, perdurasse
Que fosse pouco a pouco, ou em demasiai.
Esperei, em mim, que a vida ressurgisse.
Domando o ego que não mais me consumia
Voei como um pássaro de voos insólitos
De pouco em pouco, ou mesmo em demasia.
Que perdurasse tanto, assim eu quisera
Este sol poente a abrilhantar o meu dia.
Que me venhas flores d’outras primaveras
Mesmo de pouco em pouco, ou em demasia.
(Jorge A. M. Maia)