Diga-me: O que deixei de fazer? Pior, o que fiz de errado? Que sentimento horrível de culpa é esse? Que mal eu fiz afinal? O que fiz para que minha consciência me trate como réu? Por que me parece que há algo pela metade, que preciso refazer ou recomeçar tudo de novo, Como seu eu levasse a minha vida com desídia? Não posso sequer dormir em paz E pior, nem ter o direito de errar…
Faz meia hora que rodo pela cidade vazia pela pandemia*. Ontem, foram sete mortos. Vi pela televisão. Hoje, houve mais. É uma cidade fantasma que nem eu me sinto agora: Deserto; um fantasma de carne e osso!
Desde a noitinha, no consultório, eu já rodava na “reserva de paciência”, buscando energia do fundo do tacho. Cá estou eu rodando com tanque vazio de fé, sendo que o nível da bateria zerou. O rastilho de esperança molhou. Tenho a impressão que vou parar no meio do caminho, sozinho…
O consultório já fechou, mas é tão claro; A clientela TODA veio comigo; está aqui dentro no meu carro, todos falando ao mesmo tempo, buscando pela minha atenção, dizendo: “Doutor, me salve! Já foi pior; costumavam todos a deitar na minha cama para conversar noite adentro, com a cabeça no travesseiro. Tenho vontade de gritar: “EU, TAMBÉM, ESTOU ENFERMO” (também, sou filho de DEUS). Então, ensina-me a chorar; eu quero, mas não consigo. Por favor! Nem almocei. Apenas tomei um café pingado. Uma sensação estranha toma conta de mim, essa de desolação, a triste condição humana. Não é depressão; é uma subnutrição de minha alma que foi sendo dia após dia consumida aos poucos, pingando gota a gota e me drenando pelo ralo da pia, me deixando exangue. Parece até pior; não tem cheiro E, eu respiro um ar que não existe, parecendo que, de fato, já estou morto E, andando em círculos e a esmo E, revendo em cine loop todos aqueles que se já foram desfilando diante de meus olhos cheios de lágrimas. Um pegou minha mão e disse: “não me deixes morrer”. Quisera falar com eles; é loucura, pois já não estão mais entre nós. Fiz o que pude. Perdão por ter como médico falhado!
Hoje, vi muitas tragédias provocadas pela COVID-19. Assisti a viúva, cuja filha única (ambas adoeceram) morreu. Atendi o filho que se culpa atrozmente de ter morto a mãe, Por ter-lhe infectado. O seu coração acelerava tanto e a galope e que dava-lhe a impressão de despencar no desfiladeiro Para a morte. Atendi aquele que não consegue dormir E, quando mal consegue, desperta subitamente, em pânico, Imaginando que está no respirador artificial. Disse-lhe: “shshsh, calma, foi só um pesadelo; “Calma, meu irmão, tu és um sequelado emocionalmente de guerra. Não levaste um tiro sequer, Mas estás mortalmente ferido. Eu sou o teu remédio!” Nunca tinha prescrito tanto receituário TARJA PRETA. Prescrevi até para mim mesmo. Agora eu tenho uma pálida ideia do sofrimento.
Vi quase tudo que Deus e o diabo tinham para mostrar. Não sei mais o que dizer. Parece que sequei.
A caminho de casa, passei a divagar sobre a condição humana.
Assim, deixem-me chorar até desafogar minha alma! (Isso vai passar).