Vou falar de um galo de verdade, de bico, pena e espora, o marido da galinha. E que morava numa zona. É zona mesmo, na pura acepção semântica e etimológica da palavra! É isso que você está pensando sim: puteiro, cabaré, bordel, zona do baixo meretrício (dúvida: existe por acaso zona do alto meretrício?) Rss.
Lá onde as moças de “vida fácil” ganham o pão de cada dia honestamente, afinal é uma profissão como qualquer outra. Aliás, é conhecida como a mais antiga das profissões. Erhhh, convenhamos, pensando bem não é tão fácil assim! (rsss)
No Brasil, país atrasado de terceiro mundinho, teimam em não reconhecer esse relevante trabalho, enquanto que nos países desenvolvidos está catalogado no rol de profissões.
Bem, isso não vem ao caso porque vou contar a história de um ilustre morador da zona, o Galo Zé, numa pacata cidadezinha do interior do Mato Grosso, Massapé, depois religiosamente batizada de São José.
A dona do puteiro, Índia Cabeluda, tinha como bichinho de estimação um galo muito lindo, de penas pretas e vermelhas, salpicadas de tons amarelos e outros matizes, que brilhavam como colibri brilho-de-fogo com as cores do arco-íris e ostentava uma calda de dar inveja a pavão.
Eu e meus amigos bancários íamos à zona comer, mas era comida mesmo! Nada de saliência! Trabalhávamos até altas horas da noite e naquele sertão bravio o único lugar aberto era a zona. Digamos assim que uníamos o útil ao agradável (ou o útero ao agradável rss).
Índia Cabeluda era nossa cliente correntista do banco e fazia um PF com tempero caseiro que aplacava nossa ira estomacal noturna. Prá quem não sabe, PF é prato feito. Esclarecido?
Mas o Galo Zé dormia no salão da zona, empoleirado nas vigas de madeira daquele bordel cheio de alegria, música brega, sulina e sertaneja, colorido com uma camada de poeira que levantava dos arrasta-pés e refletia a luz vermelha característica dos rendezvous.
O nosso prato predileto era o frango “poeirinha”. Demos esse nome ao prato porque enquanto assava no braseiro no salão da zona, pegava um tempero de poeira que dava um sabor inigualável. Não sei se era a fome, conhecida como o melhor dos temperos! (rss)
Cabeluda servia o PF com arroz, farofa e um pálido macarrão insosso escorrido (parecia comida de hospital). A sobremesa era um ovo estalado que vinha nadando no óleo escuro de ranço.
Lá de cima do poleiro quando via a comida, Galo Zé, como se tivesse um olfato canino e uma visão de águia, cantava como cantam todos os galos nas alvoradas que se emolduram com o sol radiante, no prenúncio de um novo dia de esperanças naquelas terras matogrossenses, onde homens rudes do campo realizavam seus sonhos abrindo as novas fronteiras agrícolas do país, deixando para traz seus rincões queridos, apostando em dias melhores para si e sua família.
Galo Zé aterrissava num certeiro vôo rasante sobre a mesa e de grão em grão do nosso arroz enchia o papo. E Galo Zé era um bom companheiro, pois para limpar o bico da graxa da gororoba gordurosa da Índia Cabeluda, dava generosos goles no copo da nossa pinga e da nossa cerveja.
Galo Zé bebia mais do que um gambá abandonado por uma gamboa (*gambá é um substantivo de dois gêneros. Eu que inventei esse feminino agora rsss). Bebia de dar dó! Bebia tanto que depois não conseguia trepar no poleiro de volta e dormia em cima da nossa mesa, quietinho encostado no canto da parede, com os olhinhos fechados e o papinho cheio.
Índia Cabeluda era uma mulher de muitos dotes: empresária das biscates, cozinheira, garçonete e ainda era cantora e sanfoneira. Quando ela esticava o fole da acordeona, Galo Zé acordava e respondia lá de cima:
-Cocorocó! Cócó! Cocorocó! Cocorocó! Cóco! Cocorocó! Cocorocó!
E o pau comia noite adentro ao som de vaneirão, shote e xaxado!
Eu perguntei para a Índia Cabeluda como que uma índia sabia tocar sanfona? Se fosse pelo menos um berimbau (sacanagem com os índios rsss)… Mas sanfona? E ela me respondeu:
-Pinguim, eu sou rodada, já até virei o velocímetro. Fui quenga no Rio Grande do Sul, tchê. Lá que aprendi a tocar.
Então toca uma música da Berenice Azambuja aí, “É Disso Que o Velho Gosta” (é isso que o velho quer).
E Índia Cabeluda, com sua voz de taquara rachada em dueto com o cocorocó do Galo Zé, animava nossas vidas de duro trabalho, de raro lazer, distante de nossas famílias e de nossos amores, naquele longínquo sertão do Mato Grosso.
Nego Kula, o caixa do banco, que olhava torto com a cabeça desaprumada do pescoço porque o pino de centro dele era quebrado, logo se apaixonou por um xodó, de longos cabelos loiros que batiam abaixo da cintura roçando seus pneuzinhos cheios arrebitados. E nego Kula prometia enquanto chorava depois de meio tubo de Velho Barreiro, fazendo arremedo da música do Odair José:
-Eu vou tirar você desse lugar!
O gozador Negão Fumaça, Macarrão, Quinzinho Perna-torta e o Carcará advertiam Nego Kula:
-Tu vais levar chifre.
No que Nego Kula respondeu:
-Chifre por chifre já levei da minha ex, que era evangélica, rezava todo dia e depois fugiu com o pastor (rsss).
Fumaça, Macarrão, Quinzinho e Carcará confessaram debaixo da manguaça (“in vinus veritas”) as chifradas que levaram na vida. Égua! Naquela mesa só tinha corno? Eu hein?
Bem, chifre não existe, é coisa que colocam na sua cabeça (rsss). Tecnicamente, é um consórcio ou compartilhamento de um amor – digamos – não muito sincero. Tá muito na moda hoje em dia (rsss).
Nego Kula venceu os preconceitos machistas da sociedade que não tem nada a ver com nossas vidas e assumiu sua loira, a quem chamava de Polaca. Tirou-a da zona e deu-lhe um lar e um sobrenome, com direito a casamento na igreja com véu e grinalda e registro no civil. Viviam como dois pombinhos e tiveram um casal de filhos café-com-leite, meio tipo sararás, de cabelos encaracolados e olhos verdes, a coisa mais linda! E viveram felizes para sempre! É a vida como ela é…
Gostaram do final da linda história de amor, ãhnnn?
Os outros colegas bancários, de copo e de puteiro, Pinguim, Carcará, Macarrão, Negão Fumaça e Quinzinho Perna-torta, foram ser gauches na vida, levando guampa das mulheres honestas que encontraram pelo rumo! Kkkk.
E o Galo Zé? Que fim levou?
Bom, a história do Galo Zé foi trágica. Uma noite na qual o fandango rolava ao som da sanfona da Índia Cabeluda, um fazendeiro brabo com seus capangas foram irrigados por uma chuva de esterco, adubo orgânico dos bons, do Galo Zé.
Irritado, o fazendeiro sacou do “trêzoitão” e deu um tiro no cagão. Foi pena prá todo lado!
Aquela noite “foi um pára pra acertar” naquele até então pacato puteiro. Os copos, garrafas e tamancas voaram pelo salão e as putas botaram o fazendeiro e seus capachos pra correr com revólver e tudo.
No outro dia todos nós, consternados, fomos ao velório e ao enterro do Galo Zé.
As raparigas na frente e nós clientes atrás, em fila, como se fosse um triste cortejo irlandês de gaita de foles, porém ao som lúgubre da concertina da Índia Cabeluda, carregando o Galo Zé dentro de uma caixa de sapato improvisada como esquife de defunto.
E ali, na frente do puteiro, na sombra de um ipê amarelo, enterramos o Galo Zé, com direito a uma cruz de pau e uma sepultura feita de tijolinhos com carinho.
Em seguida, uma leve brisa balançou as flores do ipê, derramando suas pétalas sobre a morada eterna do Galo Zé, criando um tapete colorido, certamente um presente da mãe natureza, que fez as putas se derramarem em irremediáveis soluços.
E, em sua homenagem, batizamos aquele nosso cantinho sagrado de Cabaré do Galo Zé.
Mas o puteiro nunca mais foi o mesmo!
Que saudades do Galo Zé!
Adilson Garcia
Professor, doutor em Direito pela PUC–SP, advogado e promotor de justiça aposentado.