Estamos mais conectados ao digital do que possa parecer.
À essa altura, quem conseguiria se desconectar das redes? Ficaram para trás as cartas escritas em papel, o telefone fixo e muito mais, que foram sucedidos por aplicativos de celular, redes sociais e mensagens que chegam instantaneamente ao destinatário.
O cotidiano hiperconectado nos abraça mais do que imaginamos. Estamos de tal modo conectados que o contexto passou a fazer parte do complexo de nossas condições existenciais!
Como seria o lockdown há 40 anos (quando não existiam computadores e celulares e muitas das casas sequer tinham telefones fixos), sem poder sair às ruas para o uso de orelhões ou o envio de cartas? Tudo mudou muito rápido e estamos tão envolvidos que nem percebemos. De fato, a nossa vida se transformou por completo, sem que muito pensemos a respeito.
Mais do que nunca as nossas mentes estão conectadas às redes e, por estas, a outra mente. A conexão é imensurável. Com isso, nossos bilhões de neurônios estão mais ativos e o nosso repouso e descanso mental parecem mais escassos, quando já acordamos hiperativos, logo ligando o celular e olhando mensagens.
Hoje, programas “advinham” o que desejamos. Se alguém pesquisar sobre destino de viagem, objeto por comprar, curso para fazer ou local para visitar, logo aparecerão mensagens nas telinhas dos computadores e celulares, sobre as pesquisas feitas. Os crédulos falarão em coincidência e os inocentes se surpreenderão. Como pode o celular adivinhar isso?
A matemática domina tudo isso, com os algoritmos lendo os nossos atos e os interpretando, para ampliar a conectividade e a satisfação dos desejos revelados nas pesquisas.
O Gênio da Lâmpada se limitava a 3 desejos, enquanto os algoritmos nos dão muitas opções de viagens, compras, destinos e opções. Nada parece ter limite. A cada dia, mais conectados estamos e mais atraídos ficamos. A sedução não tem limite. A dependência também não.
Parece que não viajamos mais para saborear os prazeres das comidas locais, curtir a paisagem, sentir os perfumes, o cheiro do mar e das flores e as sensações disponíveis. Será que viajar se resumiu a ir em busca de fotografia para postar nas redes sociais!? O local mais lindo e paradisíaco não teria utilidade alguma se não fosse exibido por nós nas redes sociais.
O prazer de estar em outro local e aproveitar ao máximo a viagem foi substituído pela satisfação de ver as reações alheias diante das fotos compartilhadas. Estamos mais dependentes da aceitação e da confirmação das pessoas sobre o nosso agir e pensar. De certo modo e sem perceber, perdemos parcial naturalidade sobre coisas que não agradariam aos seguidores… numa certa carência por confirmação alheia.
Por um lado, fazemos apologia da individualidade e da liberdade de ação e de pensamento, enquanto, por outro, dependemos da interação que confirma o acerto da nossa escolha e nos poupa do “cancelamento”.
Já vivemos o clima Matrix, do famoso filme. Estamos inseridos em mundo que nos apreende, direcionando o nosso agir e pensar – e esse contexto está só começando.
A expressão “neurohacking” significa que o cérebro é hackeado para a melhoria das suas potências, como aprendizado e reflexos. Em termos de poder e abuso de poder, é um tipo de manipulação, envolvendo interação entre o cérebro, a mente e os equipamentos que processam os algoritmos, para se atingir certo resultado.
Exemplo remoto foi popularizado na antiga série de TV chamada O Homem de 6 milhões de dólares, na qual militar seriamente acidentado recebeu implantes biônicos que potencializaram o funcionamento de alguns órgãos. Contudo, diferentemente daquele contexto, a conexão que se avizinha se dá e dará no próprio funcionamento mental e na dependência das redes.
Já estamos no Matrix ou, noutras palavras, o Matrix já está em nós!
Parecia absurdo quando se imaginava que isso só ocorreria após implantes de chips… Por ora as coisas já ocorrem sem isso e nada do que se fala envolve teoria da conspiração ou coisas do tipo, já havendo textos falando que, hoje, a comunicação entre os cérebros e as máquinas se dá como se fosse por um “modem lento”, o que nos leva a imaginar o que o futuro nos destinará… aliás, por ora, os pensamentos não são lidos, embora a identificação das ondas cerebrais já permita o controle de aparelhos.
O enfoque deste texto não é sobre os tratamentos médicos e afins. O propósito é outro, focado no poder e política.
Aliás, centrado nas zonas cinzentas, sombrias ou até escuras no desenvolvimento de potencialidades de uso militar e de influência da realidade virtual e das ações governamentais nas nossas ações e decisões, como resultado de redes neurais artificiais, indução de padrões de pensamento e ações, quando, no exterior, há obras abordando aspectos ainda desconhecidos da nossa grande massa, como Artificial Intelligence and Global security future trends, threats and considerations (Inteligência artificial e segurança global: tendências futuras, ameaças e considerações), falando em disputas pelo uso da Inteligência Artificial no cenário da segurança global, com emprego em ações potencialmente catastróficas e contrárias ao ideal de paz mundial.
Com ou sem essas inovações, a humanidade já viu exemplos de mau uso do poder. No entanto, nesse caso, as consequências seriam potencializadas, pelo alcance global das ações via redes conectadas e pela concorrência dessa matriz virtual com o mundo real, o que mais nos exige cuidado para não subestimar a potencial má utilização das inovações tecnológicas.
Somemos a esse contexto a figura da “inteligência generativa”, pela qual as máquinas podem produzir padrões autônomos de solução, pelo qual chegaríamos a um quadro dantesco… tanto é assim que já se fala em se criar um modelo de Inteligência Artificial que possa diferenciar o real do falso.
Ora, se para isso precisaremos de máquina, o quão comprometida estará a mente humana e os seus signos de referência, como espaço, tempo, valores éticos, confiança sistêmica em instituições, informações e convicções?
É verdade que povos já se sentiram massa de manobra, com eleitores legitimadores de maus governos e ditadores. Também já nos sentimos meros consumidores, pagadores de impostos e instrumento humano para guerras. Entretanto, o que se desenha é algo além da nossa compreensão e do até aqui registrado na história da humanidade.
A história se repetirá e antigas lições servirão para nos manter súditos fiéis, famintos e sedentos, tendentes a ficar distraídos com o mundo simulado e o “pão e circo” enquanto o Poder continuará a desfilar no andar de cima, se regalando com faustosos banquetes, vinho e comida “de verdade” para os poucos eleitos.
Shakespeare falou que somos escravos das nossas paixões. Mais dependentes seremos pelo que nos induzirão a desejar, pois desejaremos o que mais nos aprisionará.