O chamado “tratamento precoce” contra o coronavirus, que consiste na utilização de um coquetel de drogas comprovadamente ineficazes contra o covid-19, já suscitou intensos debates na comunidade médica, mas com um consenso firme na comunidade científica de que o aparato não cura a doença. No Brasil, para os defensores do presidente, defender o “tratamento precoce”, significa defender o próprio presidente. Refutá-lo, implica na odiosa prática de se revelar um opositor do mandatário máximo da nação. Com esses contornos a respeito do assunto, a “Capitã Cloroquina” sentou no lugar reservado aos que tem alguma informação a prestar a respeito do objeto da CPI.
Ser inquirido em qualquer ambiente investigativo é algo que testa a firmeza comportamental e o equilíbrio emocional de qualquer indivíduo. Isso remonta a história primitiva, onde se formou a ideia de que inquirir significa extrair, a qualquer custo, a verdade que se busca. A preparação prévia nesse contexto é fundamental, sobretudo quando se alvitra esconder ou revelar algo. A “Capitã Cloroquina” sabia que não poderia sequer cogitar de dar a entender que o “tratamento precoce” era uma ação adotada pelo governo. Isso, por certo, complicaria a situação do presidente.
Sucede que a Capitã Cloroquina, ante a avalanche de perguntas de seus inquiridores, ficou entre ser fiel ao presidente para negar que o “tratamento precoce” era uma ação da pasta da saúde e ser fiel a sua convicção pessoal, já amplamente defendida no exercício do cargo que ocupa. Tentou fazer as duas coisas ao mesmo tempo e aí se enrolou. A vaidade intelectual falou mais alto e a medida em que sua fala empolgava os militantes da cloroquina, mais se robustecia de entusiasmo para defender o famigerado “tratamento precoce”, inclusive como ação de governo. Foi um universo dantesco de contradições, num jogo desafiador da lógica, eis que negava e afirmava a um só tempo a mesma realidade.
Mayra Pinheiros é médica pediatra e bolsonarista, logo é intuitivo imaginar que não tenha familiaridade com a lógica clássica e o princípio da não-contradição, que sustenta que duas afirmações contraditórias não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo, conforme lições de Aristóteles, seu formulador. Não conhece, também (essa conhecida de todos), a lógica do futebol, que diz que um gol é ápice do jogador futebol, desde que não seja contra. Mayra Pinheiros, com suas convicções técnicas, segundo ela, irretocáveis, fez um gol contra o presidente e, aplauda-se, de letra.