Hoje, se vive no império do medo. Os lares em reclusão, muros altos, cercas elétricas, janelas, portas e carros trancados. Perdemos a cadeira na porta, ao entardecer. Sobrou para alguns, conviver em companhia de cães ferozes, extremamente mal-educados, que com seus latidos e alaridos, enchem o saco de quem não os tem. Dormir ao tempo então? Loucura! Nem, ao menos, roupa no varal.
Do longo tempo que passado na Amazônia, a maior diferença que reparo e me faz uma falta doida, é exatamente a singularidade da relação humana. Mais ainda, da formidável interação das pessoas em sintonia com o lugar. Sempre achei que em nenhum outro canto se compartilhasse tanto a sorte e o destino, como naquele grande e “perigoso” pedaço de chão.
Há senões, é verdade. Com o clima, umidade e natureza, eu diria, extremamente pesados, temos que de nos superar todos os dias, para não sermos depurados do lugar. A vida vai se tornando, também, até por isso, extremamente árdua, difícil mesmo, fazendo com que exista seleção no tal “compartilhado”, instituindo o costume de ninguém ajudar a folgados abusados, divertidos vagabundos ou a quem não for muito chegado ao pesado. Acaba um pouco cruel, mas relativamente justo. Mesmo assim o lugar é, de e para, sentimentos valiosos, que quando, não vem no íntimo dos homens, lá, acontece.
Por outro lado, quando fazem morrer alguém, principalmente com comportamento e cara de bom, é provocado um barulhão danado, para quem está de fora. Para quem lá está, o fato é imediatamente acompanhado sem lamento, pela simples explicação de que, a ocorrência foi atendendo a um pedido da paz, do equilíbrio social e material, do grupo e do lugar. Há um pouco que se perdoa-los, em razão de seus naturais códigos, ainda que não escritos, terem que ser mantidos, à falta de possíveis e melhores organizações.
A própria vida, segurança, patrimônio, a família e todos os bens de muita querença, na ausência de leis e da força do Estado organizado para garanti-los, tornam-se reféns do comportamento pessoal de seus detentores, que sempre procuram não desafiar os tais códigos instituídos, como aos costumes, resguardando-se nos limites máximos, de divisa da existência do alheio.
Vez por outra, entretanto, desabrocham episódios que acabam por mostrar desnudos, sentimentos e condutas da raça humana, que se acreditava esquecidos ou mesmo inexistentes, e que nos encantam. Naquilo que chamamos de selva, a riqueza, a fortuna, o bem material, o luxo, a ostentação e até o poder político sucumbem, perante qualidades pessoais, tais como lealdade, honra, palavra empenhada e principalmente por fiel amizade. Na desgraça então, a solidariedade é total. Tornam – se presentes, sem demagogia televisiva de vermelhos coletes, e em tudo empregam o coração.
Agora, após anos naquele lugar com seus hábitos, o destino trouxe-me de volta, acabando por me premiar, ao levar-me a morar em uma ilha e bem no lugar em que poucos ou muitos, dizem não confiar nada nas águas que a cercam. Bem por isso, aconteceu então, tornar a viver emoções, que achava exclusivas à Amazônia. A manifesta e esforçada solidariedade da gente que ali também vive foi tão espontânea e segura, durante a passada, porém ainda recente grande enchente, que a tudo inundou, do rio Doce, que fiquei extremamente convencido, que um pedaço de Deus, habita o espírito de meus vizinhos, espalhando-se um bocado bom, por toda nossa cidade. Acomodei-me em paz…
Entretanto, aqui, como lá na longínqua floresta, temos todos que, em prece, pedir ao Criador, para dar conserto na invenção das políticas dos homens…. Viveríamos muito melhor, com melhores ensinos, melhor qualidade administrativa, sem corruptos, políticos vagabundos, crimes e tendo até melhor aceitação dos tão falados hoje, fenômenos da natureza, ainda que produzissem tragédias.