Vários e muito desastrados foram os movimentos praticados por um aparvalhado funcionário que até dias atrás esteve à frente do Ministério das Relações Exteriores do Brasil. Suas patacoadas, além de criticadas pela mídia internacional, entre outros malefícios trouxe a má vontade dos países produtores do IFA (insumo farmacêutico ativo) e dificultou a sua aquisição e de vacinas prontas, retardando o programa de imunização.
À frente da pasta da Saúde, um general da ativa deixa o cargo respondendo a investigação instaurada para apurar como sua lentidão em atender os pedidos de socorro feitos pelo Amazonas foram capazes de levar a óbito doentes que morriam asfixiados, pois na rede hospitalar não havia mais oxigênio.
Sai Pazuello e entra Queiroga, médico, que vem sendo incansável na compra de vacinas, além de adotar – pelo menos enquanto não vier a ser repreendido pelo patrão negacionista – uma linha de atuação pautada na ciência e alinhada às diretrizes sanitárias emitidas pela Organização Mundial de Saúde e que, adotadas em praticamente toda parte, fazem com que sejam amenizados os danos provocados pela pandemia.
No total, em seu segundo ano na presidência da República, o capitão Jair Messias Bolsonaro já trocou vinte e quatro ministros (ou funcionários com status ministerial). Isso mesmo: duas dúzias. Supera Dilma Roussef, Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso. Em igual período de um biênio, Dilma trocou vinte ministros (ou função equivalente); Lula, onze; e FHC, oito. Essas cifras mostram, ainda que de modo singelo, o perfil do presidente atual, revelando que ele não admite ser contrariado. Ministro que não quiser perder o emprego tem de se submeter às ordens do chefe, mantendo-se de bem com seus príncipes herdeiros. Que o digam Bebbiano, Moro e mais o resto do pelotão que deixou o cargo ou mudou de pasta.
As mais recentes trocas acontecidas nos idos de março foram as seguintes: na Casa Civil, troca-troca: entra o General Luiz Eduardo Ramos, sai o General Braga Netto; na Justiça, sai André Mendonça (que substituíra Sérgio Moro, quando este resistiu à iniciativa do presidente da República de gestões junto à Polícia Federal, força armada não militar), entra o delegado PF Anderson Torres; nas Relações Exteriores, sai Ernesto Araújo (ufa!) e entra o Embaixador Carlos Alberto Franco França; na Secretaria de Governo entra a deputada federal Flávia Arruda (para entusiasmo do Centrão) e sai o gen. Luiz Eduardo Ramos, alocado na Casa Civil. Na Advocacia Geral da União, sai José Levi e assume André Mendonça, egresso do Ministério da Justiça. Por fim, last but not least, no Ministério da Defesa, Bolsonaro chama o ministro ao Palácio do Planalto. Em reunião que não durou cinco minutos, secamente pede o cargo ao general quatro estrelas Fernando Azevedo e Silva, comandante respeitado e até reverenciado pelos seus irmãos de armas da Marinha, do Exército e da Força Aérea. O velho soldado, uma vida inteira dedicada aos princípio basilares da hierarquia e disciplina, bateu os calcanhares e retirou-se, já como ex-Ministro da Defesa.
O desassossego do capitão/presidente pode ter advindo da posição correta de oficial da mais alta patente que não se acomodou ao ver Bolsonaro referir-se ao Exército Brasileiro de maneira absolutamente não apropriada. Absurda até, pode-se dizer. No mesmo momento em que um major e deputado federal pretendia levar ao Plenário do Congresso projeto com o qual visava a conferir ao Presidente da República poderes excepcionais sob título de mobilização nacional, previstos em tempo de guerra contra agressor externo, o primeiro mandatário se deixa inflamar pela possibilidade de ver agigantadas suas atribuições, exponencialmente aumentado seu poderio. Quiçá inebriado com a possibilidade de poder decidir sem os freios legais de limitação do exercício, contando antecipadamente com a dócil submissão dos integrantes das Forças Armadas, Jair Bolsonaro encheu a boca para se referir àquela Força em que é oficial da reserva remunerada na patente de capitão, dizendo que tinha certeza de contar com o apoio do, em seu dizer, “meu Exército”.
“Meu” de quem, capitão? Seu é que não é, pois na sua independência e altivez Marinha, Exército e Força Aérea Brasileira, são instituições respeitadíssimas enquanto estiverem a serviço da República Brasileira. Enquanto forem instituições do Estado a serviço da democracia e fiéis à sua condição de patriotas que escolheram dedicar suas vidas, inclusive desafiando a morte quando necessário, à missão de proteger e assegurar a soberania nacional, a ordem que garante o funcionamento tranquilo de suas instituições, a paz em suas fronteiras e o convívio respeitoso e seguro com a comunidade internacional.
Somente quando o caudilho, voltando as costas para o povo que o elegeu e, aplicando o golpe de estado, trai o juramento feito ao assumir o cargo público de obedecer, proteger, cumprir e fazer cumprir a Constituição e as leis do país; apenas quando o ditador, usurpando o poder que só é legítimo quando conferido pela vontade do povo; somente quando a tirania substitui a democracia; somente aí, sim, é que o déspota poderá servir-se dos caudatários que o servem abjetamente concorrendo para que seja feita sua vontade maléfica; aí, sim, e exclusivamente nessa situação em que ninguém quer vir a viver no Brasil e em qualquer lugar do mundo, ao servir-se da violência para impor sua própria vontade e garantir a materialização de seus mais nefastos projetos é que o tirano de plantão poderá chamar os famigerados integrantes de tais tropas de “meu exército”.