Frequentemente se fala em energia limpa. Porém, para bem compreender a questão, temos que distinguir a energia limpa da renovável e perceber que os processos de produção e troca energética geram algum tipo de resíduo – como faz o próprio corpo humano, no seu funcionamento.
Assim, fica mais fácil enxergar as cadeias produtivas de energia, desde a remota fonte até a etapa conclusiva, ciclo normalmente não percebidos pela sociedade. O uso dos hidrocarbonetos é exemplo visível e de uso cotidiano, na forma de óleo combustível, gasolina, nafta, querosene, asfalto, etc. Há, também, poluidoras usinas a carvão, nucleares e termoelétricas.
Na contramão – melhor dizer, mão única de salvadora direção – desse movimento, alvitra-se implementar agenda, técnicas e metas de redução da poluição, mediante o uso de matrizes limpas ou renováveis – sem carbono.
Dirão alguns: – “Os carros elétricos são os ideais”. Ocorre que não são autossuficientes na produção da energia e nem são produzidos do nada. Indústrias poluem e, focando no funcionamento do carro em si, temos que as baterias são, ainda, algo descartável no meio ambiente e… altamente poluentes. Os veículos ainda não são autossuficientes e hão de se conectar a tomadas, para recarregamento das baterias e, a partir desse momento, consumirão a energia elétrica que tiver sido produzida, até por matrizes nucleares, a diesel, termoelétrico ou a carvão.
A energia solar ou eólica, embora de alta qualidade e em essência puras, não dispensam as estruturas mecânicas de que são feitas. As hidrelétricas geram alagamentos de grandes áreas e impacto ambiental… Por aí se vê que não é fácil falar em energia limpa, mesmo quando consideramos estas modalidades, embora sejam muito mais desejáveis do que as outras.
As usinas nucleares possuem um elemento assustador – e não estamos falando de acidentes, como em Chernobyl. A sua poluição é sutil, na medida em que não é visível e, assim, nos obriga a conviver com ela, até sem perceber. Como exemplo, o Césio 137 – envolvido no acidente em Goiânia, em 1987 – não existe, como tal, na natureza, sendo desenvolvido através do Lítio, embora, como poluente, já esteja presente no ar e tanto que, a partir dessa constatação, gerou-se técnica de datação de vinhos raros e antigos, com pesquisa de identificação ou não de partículas suas em garrafas.
Além dos esforços, conceitos e pesquisas, todos elogiosos, é crível que os países deveriam estar no mesmo patamar de conscientização e de adesão à causa. Todavia, são vários os embaraços à efetividade plena e o próprio mercado cria outros, como exemplifica a aquisição de créditos de carbono por países poluentes, algo como uma “licença para poluir”.
A meta de descarbonização já surge, por proposta de drástica redução, até o pretendido fim das emissões de carbono. A pretensão é extremamente sedutora e animadora, reclamando quebra do paradigma arraigado na nossa sociedade consumidora e, desafio maior, industrial. As matrizes mais poluentes seriam substituídas por outras menos danosas, além de trocar os hidrocarbonetos por substitutivos mais aceitáveis. Os investimentos não seriam pequenos e trocaríamos os derivados fósseis por outras fontes, renováveis. Diminuiríamos, assim, sobremaneira, o impacto da poluição sobre o meio ambiente.
Será que o mercado consumidor seria capaz dessa mudança tão drástica? E as indústrias e a cadeia produtiva global? Somente com o comprometimento de todos os players o objetivo poderá ser alcançado. Não obstante, a realidade nos recomenda manter os pés (bem) no chão, inclusive por constar que o presidente chinês prometeu que a China se tornaria neutra em carbono até 2060 – daqui há algumas décadas, portanto – com registro de que o recente aumento do consumo de carvão naquele país já teria anulado a ação global com foco na redução da poluição.
Em contexto ideal, seria fundamental que agências de controle internacional pudessem atuar com liberdade, desenvoltura e, sim, alguma espécie de poder de polícia, algo muito além da Organização Mundial de Saúde ou de metas administrativas de organismos da ONU. Como fazer isso com 193 países no mundo, com situações díspares na economia, na forma de governo, no endividamento público interno e externo e nos índices de desenvolvimento econômico e humano? Enquanto houver disputas entre os vários atores, por vários motivos, incluindo as de natureza corporativa, econômica, de soberania alimentar e guerras e batalhas tradicionais, essa ideal meta comum fica conceitualmente abalada.
A Armadilha de Tucídides é ainda atual e boa medida para que compreendamos como funciona o jogo, no tabuleiro político global, quando este considera o fator da ameaça ao poder estabelecido por outra Nação em ascensão. Ora, com a subida da China ao patamar de disputar com os EUA a liderança na corrida econômica, como funcionariam os mecanismos de freios inibidores destes e dos demais atores do sistema global? Teríamos de elevar o conceito de sustentabilidade à enésima potência, comprometendo a todos.
Enquanto isso, do outro lado do ringue, quem possuir ou detiver as fontes de recursos minerais ficaria com uma reserva para o futuro, significando algo que cresceria exponencialmente em valor político-econômico e financeiro, embora com o seu uso limitado para o contexto presente. Será que os grandes dominadores desse imenso reservatório energético concordariam em abrir mão da imediata exploração dessa riqueza em prol do Planeta, do equilíbrio ecológico e da vida, como conhecemos? Como se vê, os desafios são imensos…
Além de tudo isso, nos chegam elementos de inteligência artificial – AI, que podem colaborar na formatação desse organismo global ideal, hábil a obrar na concretização do desafio de sobrevivência do Planeta e dos que nele habitam. Paralelamente, há os artifícios da humanidade em burlar os padrões idealizados como perfeitos para o momento e nos contar a história de modo a que aceitemos a versão, sem questionar. É campo sem limites, a não ser para a imaginação. Isso revoluciona tudo o que aprendemos sobre as nossas relações com as máquinas – e, também, entre pessoas – e, com a inteligência artificial, quiçá entre máquinas e máquinas.
José Ortega Y Gasset disse que “no sabemos lo que nos passa, y esto es precisamente lo que nos passa” e a advertência parece nos emparedar quando elegemos temas tão fundamentais quanto o ar que respiramos e nos surpreendemos com a resistência estruturada de tantas vozes e, pior, com ações que contrariam discursos antes proferidos – até que falte o ar, para todos.
Mais do que nunca, é tempo de não ser complacentes e de não nos sujeita a agradar a vozes poderosas – que porventura sussurrem pelas sombras as mensagens que não seriam capazes de veicular por megafones. Surpreende que se queira lucro até o momento do cataclisma que encerrará o último suspiro humano mas que, metaforicamente, talvez não cale o barulho da caixa registradora. Não está em jogo o destino de um só ou de um grupo de pessoas, como ocorre nas guerras e batalhas, contemporâneas ou registradas na história. Não se trata de um desafio de tabuleiro ou de um joguinho de computador, onde o fim da partida signifique que outra poderá começar.
O que se avizinha é o fim da ordem global conhecida, é a falência estrutural da sociedade, da vida como conhecemos e da possibilidade razoável de reinício. O futuro é certo que chegará, mas não é certo sob qual forma os nossos filhos e netos hão de receber este mundo e se lhes legaremos comida, na forma conhecida. Haverá soberania alimentar, mesmo nos países que hoje têm melhores condições? Seria o mundo dividido por muros como o que dividiu, outrora, a Alemanha? Teremos versões da Muralha da China espalhadas pelo Planeta, agora para impedir que hordas de pessoas, famintas e sem casa e, quiçá, apátridas, lutem por um pouco de água potável e algo para mastigar? O que se avizinha é o pior cenário dos mais medonhos filmes de ficção científica e não é nada bom perceber que o tempo não para e que o erodir do mundo conhecido é o fim da nossa dignidade como seres humanos e a desconstrução das várias formas de vida, até que a nossa também sucumba.