E nós, brasileiros, que é que devemos fazer para cavalgar as ondas de luto e tristeza que a pandemia produz a todo instante, sempre e cada vez mais? Algumas comparações do que acontece em outros lugares do mundo nos levam a sentir inveja de coisas boas que estão acontecendo lá fora, e que parecem nunca chegar ao nosso Brasil. Israel, por exemplo, já vacinou quase dois terços de sua população. Nos Estados Unidos, afastado o negacionista Donald Trump e com o advento da era Biden, a vacinação avança a uma velocidade de um e meio milhão de pessoas por dia. A Nova Zelândia, então, nem se fala. A Covid 19, naquele país insular da Oceania, foi enfrentada com tanto acerto, com ações conjuntas e muito bem orquestradas pela administração pública, contando com a adesão de um povo colaborador, responsável e solidário, tudo isso que fez com que a doença por lá tivesse proporções mínimas. O Japão mantém firme a realização das
Olimpíadas no começo do próximo semestre, anunciando campanha de imunização que deverá levar toda a população do país a estar vacinada até julho. E que ninguém duvide da vontade, da disciplina e da determinação férrea dos nipônicos!
O enfrentamento da pandemia parecia ganhar força e efetividade quando a ciência desenvolveu a vacina em diversas frentes. Imunizantes de diferentes origens despontavam no horizonte, trazendo com eles a esperança de que a hecatombe cessaria, de que poderíamos voltar a abraçar nossos queridos, a sair de casa sem medo de pagarmos o instante de lazer indo do passeio direto para um hospital. Hospital? Hospítal, como? Melhor dizendo, íamos acabar saindo da voltinha prazerosa para entrar na fila de atendimento rezando para que logo chegue sua vez, pois não há vagas disponíveis nas unidades de saúde, tanto na rede pública, quanto na particular.
Aqui no Rio de Janeiro, pelo calendário de imunização eu e meus coevos receberíamos a primeira dose da vacina salvadora no dia 24 de fevereiro, mas logo veio a notícia de que as doses enviadas para o Estado pelo Ministério da Saúde estavam esgotadas, o que levaria a um remanejamento nas datas para a picada da esperança. Então, toca esperar. Quanto tempo, só Deus e o Pazuello sabem.
Nesse meio tempo, diante de minha impotência quanto ao atraso da vacina, minha e do povo brasileiro, há que recorrer a estratagemas, buscando rotas de fuga que nos levem a lugares de refúgio, a sítios imaginários, a recantos mágicos que nos aliviem um pouco da tensão desta espera angustiante. É hora de abrir velhos baús, de tirar da gaveta sonhos que nos façam sorrir, de apelar a recursos que de alguma forma amenizem a dor de ver tanto infortúnio em nossa volta.
Um ano atrás, Walcyr Carrasco publicou um artigo intitulado “A Falsa Vida no Instagram. Expor-se em fotos na rede é um paliativo para a mediocridade” (VEJA, ed. 2674, 19/02/2020, p. 95), onde destaca o trecho:- “Postar virou um vício. Em que as pessoas realmente acreditam? Tornar a vida uma ficção só pode dar errado”.
Na essência, o articulista está correto, mormente em se considerando a necessidade de ser pragmático, de se encarar a dureza da vida concreta de um modo racional.
Contudo, de outro lado se tem o cínico irlandês Oscar Wilde que, em uma de suas geniais alegorias narra, em resumo que passo a fazer: o poeta morava numa aldeia. Ao fim do dia, subia ao alto da colina, ao voltar, maravilhava a todos que se dispunham a ouvi-lo falando dos encantadores encontros que tinha com as ninfas, dríades, hamadríades, faunos com sua melodiosas flautas, centauros brincalhões, fadas e gnomos. E tão fascinados ficaram os aldeões que uma tarde se propuseram a acompanhar o poeta em sua peregrinação. Foram, e ao chegar no topo do morro nada mais viram do que um córrego murmurante, arbustos, flores, galhos secos. Voltaram desiludidos para a aldeia, decidindo que ninguém mais iria ouvir as histórias que lhes contava o poeta, pois era tudo mentira. E arremata Wilde:- “Esqueceram que, para o poeta, a fantasia é a realidade, e a realidade nada significa.”
Quando criança, cheguei a pedir ao Senhor que me transformasse por algumas horas em urubu. Não que me apetecesse comer carniça, mas isso era um detalhe sem importância. O que valia mesmo na minha cabeça de menino sonhador era a beleza do voo do urubu. Feios como eles só de perto, ao serem vistos à distância, destacando-se serenos contra o azul do céu e o branco das nuvens, pontos escuros subindo e descendo nas correntes de ar, eram uma coisa linda de ver. Além disso, lá das alturas em que planavam, deveriam ter uma incomparavelmente privilegiada visão da cidade, dos campos, dos rios, do telhado da casa onde morava minha namoradinha platônica da ocasião.
Acompanhar o racionalismo do Carrasco é algo que se impõe a um cara como eu. Maduro, sei que por mais rezas que faça Deus não vai me dar a graça de voar como urubu. Mas deixar de lado os sonhos, embora, é claro, não pretenda fazer de minha vida uma ficção (aliás, nem tenho Instagram, nem posto selfies ou coisa que o valha), vai me levar a ter que me angustiar cada vez que ouço o que se divulga sobre essa pandemia que já matou milhões de pessoas no mundo. Daí que vou acabar buscando os desenhos animados do Bob. Talvez que de lá surjam ideias do que posso fazer para não sucumbir a uma tristeza tão ameaçadora quanto a avalanche de lama de Brumadinho.
Rui Guilherme
Juiz de Direito e Escritor.