Putin cumpriu o prometido. Avisou, alertou, deu ultimato e atacou.
O Ocidente reagiu como se estivesse surpreso!
– “Oh, ele fez o que disse que faria”! – é o que os rostos parecem expressar, mundo afora.
Alguém, naquela posição, blefaria por qual motivo? Esta é a pergunta que parece que não se fez!
O Ocidente achava que já tinha o jogo ganho, sem jogar.
Putin anunciou as suas metas, as motivações para agir, o tempo da ação e até como o faria.
Será que o Ocidente se surpreendeu mesmo, como se diz ter ocorrido em Pearl Harbor ou em Ardenas? Em Pearl Harbor os japoneses atacaram a ilha e a poderosa Armada americana, inocentemente ali ancorada. Em Ardenas, já nos fins da 2ª Guerra na Europa, a Alemanha atravessava impenetráveis florestas para atacar e dividir as forças inimigas.
De surpresa em surpresa, não podemos esquecer do Dia D, com o desembarque na Normandia. O evento foi planejado por cerca de um ano, alterou o moral das tropas e simbolizou a mudança de forças em solo europeu, durante a 2ª Guerra.
Eram outros tempos, em que nada se poderia saber com tanta segurança quanto hoje, quando somos monitorados o tempo todo por satélites civis, com mínima margem de erro – basta ver o uso do GPS em nossos carros. Seríamos capazes de imaginar a qualidade e precisão dos satélites militares?
Como se alegar que os russos agiram sem aviso?
Reagir com surpresa ou incompreendida ira contra a ação russa é revelar um axioma. Todos sabiam o que poderia ocorrer e deixaram que ocorresse o que sabiam que ocorreria. Por que? Acaso se poderia negociar em outro tom ou não se desejava mesmo boa negociação?
Parece que o Ocidente não aprendeu com certo episódio da 2ª Guerra, quando o Primeiro Ministro Inglês Neville Chamberlain acreditou em Hitler, com quem fez o Acordo de Munique, em 1938. A História registra que Chamberlain desembarcou em solo inglês, dizendo que o documento que portava simbolizava a paz (“I believe it is Peace in our time”). Todos sabemos que as concessões que fez ao Hitler não impediram o avanço das tropas alemãs, como previra Winston Churchill, que, a respeito, disse: “Entre a desonra e a guerra, escolheram a desonra e terão a guerra” (“You were given the choice between war and dishonor. You chose dishonor and you will have war”).
Então, assume Winston Churchill, que lidera o Reino Unido no enfrentamento a Hitler e ao que simbolizava. Ciente do seu tempo e consciente do seu papel, em seu primeiro discurso no elevado cargo disse a verdade: “Não tenho nada a oferecer a não ser sangue, trabalho, lágrimas e suor” (“I have nothing to offer but blood, toil, tears and sweat”).
Grandes homens, grandes estadistas, grandes personalidades entram para a História por defender as suas convicções. A diferença entre como serão lembrados decorre das suas verdades, se reais, utópicas ou manipuladas.
As obras e legados estão menos no feito em si. Estão mais nas premissas que permitiram que ocorresse. Uma premissa boa, justa, correta, pode levar a uma solução que não se alcançará com uma premissa má, dissimulada ou mentirosa.
É a realidade dos fatos. Os feitos, as conquistas e verdades estão além das meras intenções e das frases de efeito, aplausos ou seguidores. Palavras não mudam a realidade e não negam os fatos, que falam por si.
O corpo estará no chão, sangrando, ainda que se diga que não está. São as palavras ou a verdade que definirão a sua existência?
A região dos Bálcãs é estrategicamente fundamental e isso já dizia o Chanceler Alemão Otto Von Bismarck, em idos de 1.888! Região de históricos conflitos, pela sua importância político-econômica e por sua localização, já que se situa entre a Ásia e a Europa, palco de históricos conflitos entre as culturas do Ocidente e Oriente. Ali, ao lado, está a Ucrânia.
Como nos esquecer de que Vladimir Putin, Angela Merkel, Françóis Hollande e Petro Poroshenko, respectivamente pela Rússia, Alemanha, França e Ucrânia, se reuniram em fevereiro de 2015 para debater os destinos do Protocolo de Minsk, assinado em 2014, que visava acabar com os conflitos separatistas no leste da Ucrânia? Em 2015, aqueles líderes tentavam uma derradeira negociação.
Curiosamente, os EUA não participaram. Talvez estivessem ausentes pela Doutrina Monroe, que, em resumo, fixava que não se envolveriam em questões na Europa. Por outro lado, podem ter estado ausentes por objetivos estratégico-militares específicos, porquanto há a sua aliança com a OTAN, entidade que visava frear o avanço socialista na Europa oriental.
Alguns querem a paz incondicional, enquanto há os que desejam guerra.
Em meio a isso há os países que precisam de energia para as suas indústrias e lares. A Europa tem essa necessidade e a Rússia, que detém cerca de 40% das reservas mundiais de gás, precisa da Ucrânia, para dar vazão ao que vende para a Europa.
O Ocidente anuncia boicotes, mas a Rússia talvez não sofra com tais medidas, já que começou a vender enormes volumes de gás para a China e já possui imensas reservas em dólares.
Manobra-se, em 24.2.2022, a intenção de se excluir a Rússia da rede de pagamentos internacionais (Swift). Talvez isso aumente as parcerias da Rússia com a China, assim elevando o nível de dificuldades do jogo para o Ocidente, pela potencialização de alianças em meio à corrente Segunda Guerra Fria, menos gelada e mais quente, com a invasão do Leste da Ucrânia.
O Ocidente que tanto ganhou nos últimos 200 anos agora parece preocupar-se em nada perder.
Por outro lado, do mesmo modo que a Alemanha começou a 2ª Guerra Mundial e depois as batalhas foram para o Pacífico, com o Japão passando a ser o grande inimigo do Ocidente, pode ser que agora a Rússia esteja começando sozinha o ataque à Ucrânia e que isso se transforme em algo muito, muito maior do que imaginamos e que, adiante, num ampliado cenário de guerra e destruição, a China desloque as suas forças e domine a vizinhança e, como nunca previsto, amplie as suas fronteiras e área de influência.
Se a China avançar após a invasão da Ucrânia pela Rússia, nem as piores previsões para esse início de Século serão capazes de definir o cenário possível e os desdobramentos em termos de perdas de vida, econômicos e geopolíticos.
Nesse caso, o mapa do mundo nunca mais será o mesmo – nem nós!