Acrescentou o ódio.” Alerta que “nossa violência até então tinha cenários, personagens e motivações previsíveis: latrocínio, tiroteios em comunidades, balas perdidas, chacinas em prisões, ajuste de contas, queima de arquivo, crimes passionais, disputa de terras, extermínio de indígenas, assassinatos de missionários e ecologistas – quase sempre, coisa de profissionais. O povo fazia parte desse horror, mas, basicamente, como vítima. Não mais. Bolsonaro ensinou os amadores a odiar.” Infelizmente, Ruy Castro tem razão.
Desde 2018, com a eleição de Bolsonaro, houve uma agudização dos comportamentos antissociais alimentados pelo ódio como consequência de uma pedagogia governamental e ideológica. Pode-se falar tudo de Bolsonaro, menos que ele foi ineficiente em produzir cidadãos prontos para agir com o ódio mais requintado. Proliferou-se nas redes sociais, nos barzinhos e nos recessos públicos comportamentos alinhados com o ódio sem causa, ou melhor, banalizado por explicações de conteúdo político e social. Em todos esses cenários tem a explicita adesão ao bolsonarismo como instrumento de justificação.
Ruy Castro – com a contundência de sua pena indigesta – bem observou que a tragédia de Blumenau é apenas a confirmação de que o ódio é uma realidade no meio social brasileiro. Como bem disse “em quatro anos, o Brasil se reduziu a um puxadinho da Taurus. As pessoas se armaram. Trabucos saltam dos cintos nos ambientes mais inesperados. Pistolas, fuzis e metralhadoras abarrotam o porão de políticos, ex-policiais e cafajestes comuns. A banalização desses arsenais passou uma mensagem para o brasileiro comum: a bala é um meio de expressão. À falta dela, o porte, o punhal, a picareta, a machadinha, alguns, aliás, usados no 8 de janeiro” .
Antes de Bolsonaro, o ódio gratuito não era ingrediente da violência urbana no Brasil. Esse flagelo social, que decepa pescoços de criancinhas, agora tem adeptos que diariamente exibem suas armas como meio de expressar seu ódio ininteligível. Blumenau é apenas um cenário circunstancial, caso o desenvolvimento da cultura do ódio não seja enfrentado com armas eficazes pelo Estado, teremos, em pouco tempo, um outro Brasil, não mais com bafejos de ódio, mas com conteúdo endêmico, cuja consequência é a degeneração social. O desafio agora é enfrentar esse legado que ataca sem piedade a sociedade como um todo, afinal, como disse Hobbes, o homem é lobo do próprio homem.