Lênio Streck tem razão. A extrema-direita, impulsionada pela eleição de Jair Bolsonaro, disseminou no país a prática corriqueira da construção de narrativas diárias direcionadas a seus desafetos. As redes sociais ficaram abarrotadas de fakes news, num campo onde não havia limites, até a providencial intervenção do Ministro Alexandre de Moraes que resolveu dar um basta no cabaré que se tornou o país, onde o direito à liberdade de expressão foi subvertido por um grupo político que queria a todo custo fazer a manutenção do poder com expedientes afrontosos ao Estado Democrático de Direito. A extrema-direita perdeu a eleição, mas insiste na guerra, daí a importância da advertência do eminente jurista.
A fala imprudente de Lula sobre sua vida no cárcere tirou do anonimato o hoje senador Sérgio Moro, o juiz incompetente e suspeito, que subvertendo todas as regras processuais construiu a narrativa do juiz-herói, quando, na verdade, sua narrativa tinha propósitos políticos e pessoais escusos, que vieram à tona, após um percuciente trabalho jornalístico que desmascarou o juiz justiceiro e seus comparsas. Imediatamente, a extrema-direita apropriou-se do fato para enquadrar a fala do presidente Lula como incompatível para o exercício do cargo, suscetível, segundo eles, no mundo das narrativas, a um processo de impeachment. É aí que entra, como uma luva, a advertência de Lênio Streck.
Marion Bach, num artigo interessante, sobre literatura e direito, escancara, num jogo de mistério sedutor, a importância de se compreender o mundo das narrativas que servem de inspiração e fundamento, tanto ao direito quanto à literatura. Para ela, a realidade é uma construção individual do observador, aliás, tese já sustentada pelos físicos quânticos. O governo do presidente Lula precisa compreender que a extrema-direita age com sangue nos olhos e para ela o mal está sempre do outro lado, mesmo sendo dela a mão que aciona o gatilho das maldades. Lula precisa ouvir Lênio Streck e puxar o freio de mão em seus pronunciamentos.