O monstro é provido de consciências, vontades, medos e sonhos. Ele tenta entender a vida e suas nuances, assustado diante da realização do que é estar vivo e continuar vivendo, assim, ele se torna um homem sozinho e isolado, um ser que busca compreensão e interação. A criatura, nos traz o saber sobre a solidão, desprezo e curiosidade. Já Victor, o seu criador, é um homem desolado em seu próprio mundo de culpa e arrependimento.
A criatura monstruosa de Victor, não deixa de ser humana, apesar da aparência que lhe foi conferida por seu criador. Ao encontrar desprezo e abominação por onde passa, ela se volta contra seus “semelhantes”, afinal, como esperar boas ações de quem só recebeu a maldade? Como esperar afago de quem só recebeu desprezo. E é daí que ficamos com um questionamento difícil de responder: Quem é o verdadeiro monstro nesta história? A criatura com sua monstruosidade que lhe foi criada, ou o criador que a gerou e a largou vagando por um mundo que lhe era estranho?
O monstro não escolheu existir, assim como qualquer ser humano, e questiona sua própria existência. É a ideia de perguntar ao seu criador qual é seu propósito. Por que estou aqui? Como me torno uma boa pessoa? Cada pessoa que nasce, quer, de qualquer forma, ser amado, ensinado e compreendido, e quando você é trazido a esse mundo por pessoas que não se importam com você, e é jogado em um mundo de dor e sofrimento, lágrimas e fome, você pode se tornar um monstro, vítima de um outro monstro. Desta forma, a obra se torna atual.
Frankenstein nos fascina porque fala da relação paradoxal entre vida e morte, amor e ódio, alegria e dor. Mas é essa “colcha de retalhos humana” que nos traz a ideia do arremedo de humanidade. O monstro reage como faria uma criança ou um animal quando são ameaçados ou estão com medo. É o ser que dá amor quando o recebe, ou é tratado com tal, e que é monstro quando assim o é feito. Há, no mundo, tantos Victor Frankenstein, que não se importam com as suas criaturas, as jogando em um mundo de lagrimas, dor, sofrimento, fome e desprezo.
Vale apena ressaltar que Mary Shelley nasceu no final do século XVIII (1797), época, em que a mulher ocupava um papel que oscilava em dois extremos: o da mulher ideal e religiosa, ou o da mulher subversiva que representava o mal encarnado na Terra. Shelley não se encaixava no perfil da mulher ideal e religiosa, mas sim subversiva, pois, assim como sua mãe, ela era a frente de seu tempo, tendo, desta forma, um relacionamento, às vezes conturbado com seu pai (William Godwin) e madrasta (Mary Jane Clairmont), pois não aceitava imposições. Isso pode nos levar a pensar que a obra Frankenstein retrata, em sua essência, as experiências vividas por Mary Shelley, que teve sua obra publicado inicialmente sem o seu nome, nos mostrando como era tratada a figura feminina nessa época.
Com um teor subjetivo extremo que dar ao leitor várias formas de olhar e sentir a obra, Frankenstein nos traz grandes ensinamentos, como: Ter cuidado com a ambição, ele parece dizer. É sobre homens contornando o papel da mulher e de Deus e as consequências disso. Ou Quando o ser humano é visto como monstro, é muito fácil matá-lo. Quando ele é visto como humano, isso fica mais difícil.
A obra Frankenstein, O Prometeu moderno fala sobre ver as coisas e senti-las – e é essa compreensão da vida que torna a criatura mais humano para aqueles que tentam matá-lo. Mas a ideia de que ele é rejeitado, nos fazendo sentir o terror da rejeição, é que nos mostra uma de nossas grandes tragédias. De acordo com Ni Fhlainn, Shelley colocou umas questões que são hoje mais relevantes do que nunca: “O que é um ser consciente? Onde a vida começa e termina? Seria interessante trazer a obra para a luz da atualidade e criar uma nova forma moderna de contá-la.
“Que o tempo jamais apague a genialidade de Mary Shelley”
PEDAÇOS DE SONHOS
Tantos pedaços de fome
Restos de todo desprezo
Canibais todos se comem
Famintos e bem indefesos.
Procuram o brilho no lume
Nos dias que passam ilesos
E tudo que eles consomem
Escorrem por entre seus dedos.
Em camas frias se deitam
No chão pedaços de sonhos
Regado de rosas sem pétalas
Olhares serenos, tristonhos
Procuram migalhas da vida
De restos vividos de ontem
Nos lábios palavras sofridas
Olhares que só deles somem.
Estrada de vidas perdidas
Caminhos e passos medonhos
Infância que dorme sofrida
Juntando os cacos de sonhos.
Autor: Jorge A. M. Maia
PIEDADE DE NÓS
A vida é a voz de todos os dias
De todo pecado e sonhos atroz
Meu coração peregrina ainda
Para o amor ter piedade de nós.
Autor: Jorge A. M. Maia