Definitivamente, essa parece ser uma pergunta fácil de ser respondida, tamanha sua simplicidade e ingenuidade. Como delimitar algo que não tem limites? Como mensurar algo imensamente grandioso? Como categorizar a poesia, quando essa ganha diferentes sentidos, atingindo uma subjetividade que dificilmente poderá ser dimensionada? Responder a esse questionamento não é tarefa fácil nem mesmo para os mais hábeis artistas e poetas, que vivem rodeados pela linguagem poética e os múltiplos significados que dela podem emergir. Porém, vale a pena tentar, visto que, esta tentativa pode nos levar a um encontro magnífico com um saber que transcende o próprio saber.
A poesia está entre os primeiros registros de grande parte das culturas letradas, o que comprova que desde sempre o homem se interessa pela linguagem voltada para fins estéticos. É na poesia que a palavra se desvincula de seus significados habituais e alcança diferentes acepções, em um jogo inusitado entre significante e significado, apresentando elementos que subvertem as funções da linguagem e a ela conferem aspectos metafísicos que transcendem o universo das coisas palpáveis (ou explicáveis).
As origens literárias da poesia apontam que ela nasceu para ser cantada, por isso a preocupação com a estética, a métrica e a rima. Ela é um texto onde o autor expressa diretamente sentimentos e visões pessoais. Nos textos poéticos, há uma voz que se manifesta, ou seja, o sujeito poético e fictício criado pelo escritor que é chamado de eu lírico. É uma manifestação de beleza e estética retratada pelo poeta em forma de palavras. Desta forma, poesia é tudo aquilo que comove, que sensibiliza e desperta sentimentos.
É qualquer forma de arte que inspira e encanta, que é sublime e bela e que ao longo dos séculos, tem sido usada como forma de expressar os mais variados sentimentos, como o amor, amizade, tristeza, saudade, etc. Nela, prevalece a estética da língua sobre o conteúdo, de forma que utiliza de diferentes dispositivos fonéticos, sintáticos e semânticos.
A poesia comumente é vinculada ao poema, contudo, essa relação não é exclusiva, tampouco indissociável. Ela pode estar em todas as coisas, até mesmo nos mais corriqueiros dos gestos, nas mais despretensiosas atitudes, e reside também nas diferentes manifestações artísticas, e não apenas na literatura: há poesia nas artes plásticas, na fotografia, na música, no teatro e em tudo aquilo onde se deposita a vontade de provocar no leitor ou no espectador uma experiência sensorial. Percebê-la é uma questão íntima e individual, pois o que soa poético para mim pode não representar nada para o outro. A poesia só existe quando é plenamente compreendida.
Quando indagados sobre “o que é poesia”, é muito comum fazermos uma associação imediata entre a poesia e o poema, como se um elemento pertencesse ao outro, como se fossem dois seres inseparáveis. Entretanto, é bem verdade que existem poemas sem poesia, esvaziados da intenção de provocar sensações no leitor; mas um poeta que sabe a função da arte nunca abre mão de despertar para o universo sensorial o receptor da mensagem.
Segundo Vinicius de Moraes: “(…) O material do poeta é a vida, e só a vida, com tudo o que ela tem de sórdido e sublime. Seu instrumento é a palavra. Sua função é a de ser expressão verbal rítmica ao mundo informe de sensações, sentimentos e pressentimentos dos outros com relação a tudo o que existe ou é passível de existência no mundo mágico da imaginação. Seu único dever é fazê-lo da maneira mais bela, simples e comunicativa possível, do contrário ele não será nunca um bom poeta, mas um mero elucubrador de versos (…)”.
“Poesia é tudo aquilo que alcança a alma, comove e aflora emoções. É um mundo de subjetividade. Poesia é um livro que dá voz ao mundo, um criado mudo ao lado de nós. É a sede do corpo, a fome da pele, é um frio que se cobre em nossos lençóis. A poesia é a chama, que clama: Me ama! É um quarto querendo dois corpos amar. É o ser que me toma, quando o sono não chega, é a boca molhada de um simples beijar”. (Jorge A. M. Maia)
TANTAS PALAVRAS
Brilhavam os versos
No olhar despojado
Dum poema sem sono.
É maior que o dia
A chuva que vinha
Molhar me o sonho.
Após tanta aventura
Tudo aqui perdura
Em pura alegria.
No gozo de prosa
Em sêmen de trova
A fecundar a poesia.
Pinga-se uma estrela
Bem dentro dos olhos
Como se nada visse.
Lá na frente a ventania
Transformará em poesia
Tudo aquilo que eu disse.
Jorge A. M. Maia
PLENITUDE DA ALMA
Poesia não é somente
O escrever de palavras
É expressar por elas
O que sente a alma.
E em sua plena calma
Se faz pleno o meu Eu
No saber de cada verso
De tudo que se escreveu.
E a mente de cada poeta
É um mundo a se explorar
A parte que não se conhece
Do todo que a arte dirá.
Poema, expressão do sentimento
Sentir o devir do próprio eu
É o sofrer intrínseco no poeta
Um céu querendo alvorecer.
Jorge A. M. Maia