O que você salvaria?
A pergunta não é quem salvaríamos, mas o que merece ser salvo. Naqueles momentos ainda disponíveis, socorreríamos um álbum de fotografias, o telefone celular, a carteira com documentos e cartões bancários, os livros e discos ou a camisa autografa do time do coração?
E se falarmos num incêndio simbólico, na sociedade, na sua cidade ou no país? O que mereceria os nossos esforços para não ser queimado pelo fogo? O que nos importaria? Qual seria o valor mais relevante, o que deveria ser salvo, protegido, preservado?
Não consideramos as estátuas mortas, simbolizando o passado. Valorizamos a tríade passado-presente-futuro que nos coloca aqui, neste exato momento de vida.
Vivemos o hoje, com a experiência do passado (nem sempre lembrada) e olhos no futuro… Sempre sonhamos com expectativas, acreditamos em promessas, apostamos nas loterias e idealizamos um futuro melhor, um amor perfeito e uma boia que nos salve, se tudo der errado.
Na jornada, normalmente não nos surpreendemos com algo tão dramático quanto um incêndio que, em pouco tempo, possa nos deixar desabrigados e consumir as nossas certezas, as nossas ideias, as nossas ideologias, a nossa versão da verdade.
Quantas vezes chegamos ao abismo? Quantas vezes pensamos em desistir? Quantas noites passamos em claro? Quantas vezes o desespero colocou em nossos corações a ponta da sua espada? Contudo, vencemos os obstáculos previsíveis, no que dependia de nós – e estamos aqui, agora.
Mas, o que faríamos diante de algo tão poderoso, que tivesse força para rasgar a lógica do nosso absurdo? Se tudo pode melhorar, é certo que também pode piorar. E, se, quando tudo parecia ruim, algo inesperado piorasse tudo? Nessas horas, diríamos, saudosos, que antes estava bom… O princípio da vantagem comparativa nos dá esse panorama. Tudo depende do referencial, do ponto de vista e da análise da situação, diante de contexto.
A verdade é que, na hora em que a casa queima, salvamos o que mais importa. Nem sempre a decisão será racional, pois, no desespero, o emocional fala alto. Mas, se tivermos a graça de decidir racionalmente, o que nos importaria salvar do incêndio que gradativamente aumentasse, até atingir partes sensíveis da sociedade?
Pode ser até que já estejamos vivendo nas cinzas do que sobrou – aqui e, também, no mundo. Será que nos acostumamos com os escombros, sem perceber a realidade?
Alguns parecem agir com soberba e, ociosos e distantes da maioria, vivem encastelados e alheios a tudo. Outros percebem mudanças e novos signos e tentam se salvar – e aos seus queridos – do erodir dos simbólicos edifícios mais sólidos da nossa estrutura social. Pode ser que estejamos negando a existência da chama da fogueira, embora já sintamos o seu calor. Poderemos estar nos negando a realidade, o óbvio, enquanto acreditamos em promessas – que sabemos, vazias – ventiladas por palavras sem conexão lógica com a realidade. Será que apenas estamos encobrindo a verdade, ao focar na cal que disfarça a parede chamuscada por outros incêndios?
Os nossos bairros são os mesmos de outrora ou são fantasmas sem as cores e alegrias de tempos idos? Estamos cegos ou apenas não queremos ver?
Quando o Titanic afundava não havia como ser pilotado. Seremos salvos do naufrágio ou conduzidos até o derradeiro momento do impacto com o imenso bloco submerso, que os incautos não percebem, por só enxergar a superfície branca e brilhante?
Antes, as mobilizações e passeatas uniam as pessoas em torno de uma causa, como vimos, em idos de junho de 2013, quando as ruas foram tomadas pelo Levante Popular. Hoje, parece que as manifestações representam a divisão, isolando e distanciando as pessoas. “Eles e nós”, nisso se transformou a sociedade? Quem alimentou essa divisão no seio social, construindo fórmulas separatistas, no lugar de nos unir e agregar?
Nosso ônibus sempre nos conduziu ao destino, com os bancos sendo ocupados por todos. De repente, parece que os usuários são segmentados, com áreas para uns e outros e, pior, com uns não reconhecendo os outros como parte do mesmo coletivo.
Algo ocorre, algo se espalha, algo balança o pacto social. Não se trata de questionar velhas estruturas ou de buscar melhoras, desenvolvimento e soluções harmoniosas e boas. Em certa medida, estamos fracos e carentes, diante de cenários dominados por chamas – das mentiras, dos números, do dinheiro.
Nossa busca identitária parece se traduzir em significados e valores numéricos. Estamos deixando de ser alguém para ser números. Não somos apenas número ou mais um! Somos indivíduos com necessidades próprias, integrantes do seio social.
Ser mais um, apenas, na estrutura do “eles e nós”, representa a nossa necessidade de se agregar a um grupo que seja só facção do todo. Depois de separados do todo, como cruzar a fronteira? Viver em casta é o que queremos e ao que fomos reduzidos?
Parece que estamos nos deixando levar, como náufragos, que seguem as correntes oceânicas, ora se agarrando a destroços, ora flutuando, ora se desesperando, ora acreditando nas ilhas que, como miragem, surgem no horizonte. Passamos a acreditar nas ilusões e a elas nos apegar, quando o desespero nos atinge, como flecha. Acreditamos na manipulação, tanto quanto na ilusão. Em vez de acusar quem falou, voltamos nosso julgamento a quem acreditou. Parece, até, que gostamos desse jogo, para poder dizer que fomos iludidos, pelos jogos de poder.
Já se disse que “uma mentira pode dar a volta ao mundo, no mesmo tempo que a verdade leva para calçar os seus sapatos” (Mark Twain) e temos nos habituado a isso, cada vez mais, nesse universo de jogos de palavras, de crimes vistos como malfeitos, de fake news – que não são novidade – e de coisas do tipo “não podemos negar, nem confirmar, muito pelo contrário”.
No fim de tudo, confortamo-nos com nossas crenças, com as nossas verdades, mais ou menos segundo a ideia de que a testemunha não fala sobre o que viu mas sobre o que acredita que viu. Será que os manipuladores e os que prometem em vão dormem tranquilos e têm algum tipo de reação humana quando se olham no espelho…
O que resta, quando a ilusão se desfaz, como bola de sorvete sob o sol? A errância, a imprecisão, a inverdade, as sombras e os joguinhos de manipulação um dia encontram a luz da verdade. E aí? Estamos maduros e saudáveis para reconhecer erros ou somos tão apegados à ilusão que conseguimos nos iludir ainda mais? Os jogos de poder, a influência dos que movem as peças no tabuleiro e as pressões dos grandes players globais nunca cessaram. Movimentamo-nos segundo movimentos pré-concebidos, no gambito global. Duro é reconhecer que a ilusão não enche a barriga de ninguém e que, por mais que acreditemos num emprego, numa casa, numa cama, num fogão e na panela cheia, o só fato de crer não os transforma em realidade. A ilusão, portanto, é fim em si mesma e não é vida. A verdade e a sua credibilidade são as únicas portas pela qual a nossa vida pode prosperar e seguir.
Não elegeremos bom gestor como se torcêssemos por time de futebol. Não se trata de ganhar eleição apenas e comemorar, mas de se escolher (eleger), no processo eleitoral, quem vai ter o encargo de administrar esse imenso país, com desafios contemporâneos e fatos novos, como a Pandemia e a crise econômica que causou, no mundo; a Guerra na Ucrânia e os seus reflexos globais; a crise de energia e econômica, na oscilante e vulnerável Europa; a China, os EUA e outros grandes se movimentando no cenário mundial; a cobiça por recursos naturais, incluindo a água doce potável; a Soberania sobre a Amazônia e postura ante tantos que buscam ingerência e controle sobre a região; as fundamentais questões domésticas, da economia e da criação de emprego e qualificação profissional à saúde, educação e habitação, além do imenso endividamento público (externo e interno), da violência que aumenta e nos tranca em casas e apartamentos cercados de grades, do narcotráfico poderoso, da corrupção que sangra o dinheiro público e desperdiça a nossa esperança, etc.
O que realmente importa, quando as brasas são alimentadas e a sociedade queima em sua organização, progresso, união e harmonia? O que salvaremos se grande incêndio nos atingir? O que realmente tem valor e deve ser salvo? Para onde vamos? Rumamos para o futuro ou patinaremos no passado? O que nos importa, quando a casa queima?