Bem, quando menino, pobre de marré marré de Si, eu tinha um coleguinha de apelido João Ladrão, o qual ostentava um invejado kichute e bola de capotão para a pelada do recreio escondida. A professora não gostava, a gente se sujava como porcos no campinho de chão batido de terra roxa que colore o “pé vermeio” dos caipiras do norte do Paraná.
Ali eu sonhava ser um jogador famoso como o Rivelino, meu maior ídolo, chutando de trivela com a canhota canhuda e imitando seu “elástico”. Ainda bem que eu estudei…. (rss).
E João Ladrão sempre patrocinava uma raspadinha. Naqueles idos de 70 não havia milk shake e casquinha do Méqui Donald’s. O “must” era aquele tijolo de gelo de água de poço raspado com xarope de groselha (meu preferido) derramado por cima.
Voltávamos juntos da escola com os açoites dos ventos minuanos rachando nossos lábios, na sonora Maringá cuja saga da retirante Maria do Ingá na magistral composição do poeta Joubert de Carvalho lhe batizou.
Desconfiado da alcunha, perguntei ao esquálido João Ladrão se era rico, pois sempre tinha o da merenda. João Ladrão me respondeu:
-Não. Eu sou órfão de mãe e meu pai ganha uma miséria. Tenho que trabalhar. Eu vendo Sacis no portão da fábrica da Sanbra.
A Sanbra (hoje Bunge) era uma enorme fábrica de óleo, margarina e derivados próxima ao bairro. Exalava um cheiro delicioso que assanhava as nossas lombrigas e cobria de fuligem nossos telhados.
O apito da fábrica acordava todos 6h00 da manhã, avisava os intervalos do lanche e almoço e o final da jornada, para o descanso dos operários.
Pensei lá com meus botões como que ele vendia Sacis: será que ele ia ao Sítio do Picapau Amarelo, capturava sacis pererês e vendia (rsss)? João Ladrão me explicou:
-Brechó, Saci é uma marca de refresco em saquinho com um canudinho espetudo. Eu vendo 60 Sacis por dia na porta da fábrica. Você não quer vender também?
Ali nascia meu primeiro emprego. De ladrão o João Ladrão não tinha nada. Era um trabalhador raiz.
Pedi autorização para minha mãe escondido de meu pai, que me batia a troco de nada.
E lá fomos nós vender Sacis no lanche da tarde na guarita da fábrica. Outros moleques vendiam coxinhas, pastéis, cuecas viradas etc. Era um sucesso. Tinha centenas de operários e caminhoneiros e não havia cantina na fábrica!
Em dinheiro de hoje R$ 60,00 brutos por dia e a comissão de 30%. Era bufunfa pra “dedéu”, diria um carioca. Com o troquinho, mãe Neguinha comprava mistura e o leite da irmãzinha Zuleica, que corria atrás de mim com sua chinelinha quando eu a chamava de Peleica porque era magrinha como um pelego (kkk)!
Bem, o trabalho não era bolinho não! Os Sacis pesavam no meu ombro franzino. Mas trabalhador sempre ajuda trabalhador, não é mesmo?
Íamos de ônibus (em Maringá chama-se “circular” rss) para a fábrica de óleo. Um motorista velhinho com cabelo e barba avermelhados (apelidamos de Ruço Sarará) nos deixava entrar com o isopor cheio de Sacis pela porta da frente.
-Pode entrá, meus “fios, ocês tão trabaiando”.
O ponto de parada não era perto do acesso à fábrica. Mas Ruço parava a circular bem na porta facilitando para João Ladrão e eu descermos que nem dois foguetes. Na volta a pé com os bolsinhos recheados de moedas e o isopor vazio, era sorriso de orelha a orelha, felizes chutando latas e pedras pelo caminho!
Mas uns motoristas filhos da puta (até hoje tem muitos rss) puxa-sacos do português dono da frota não paravam para nós. O jeito era ir a pé acelerados para não perder o “timing” das vendas, com as alças da carga pesada entrando no lombo como relho trançado.
No natal, compramos um binga de presente para Ruço Sarará. Mas ele desapareceu daquela linha. O substituto magricelo com cara de tísico amarfanhou nossos coraçõezinhos para sempre com a triste notícia:
-Ah, o seu Esclepíades teve um infarto. Fumava muito. Morreu fazendo o que gostava em cima da boleia. Mas sempre recomendava cuidar de dois “trabaiadorzinhos” que ele chamava com carinho de “meus meninos”.
-Entrem logo, piás, antes que um fiscal de linha veja!
Deus certamente reservou um lugar no camarote vip lá do céu para o “seo” Esclepíades! Sua atitude foi um exemplo de altruísmo que ficou carimbado no caráter dos seus “dois meninos”.
Passado um tempo depois, João Ladrão apareceu todo alvissareiro na minha casa com uma caixa de engraxate, pregada com pedaços de caixa de laranja jogada no lixo. Viu? Reciclagem em plena década de 70!
-Olha Brechó, meu pai que fez. Vumbora engraxar sapatos. Dá uma grana!
Meu avô, o “nego véi” Haroldo, trabalhava em dupla com meu tio Portuga na estação ferroviária lavrando toras com seus músculos de halterofilista para embarcar nos vagões de trem. Mas nas horas de lazer era um mago no cavaquinho e pandeiro, além de exímio marceneiro. Tinha os apetrechos todos.
Fazia carrinhos de madeira para os netos com uma habilidade espantosa no serrote, arco de pua e plaina “na braba” porque não tinha energia elétrica no nosso mundinho pobre.
Em meia hora ele fez minha caixinha de engraxate, uma joia, uma “Ferrari” preta e branca para seu netinho corintiano, uma retribuição do delivery das marmitas quentinhas deliciosas que eu junto com primo Shinick lhe levava com prazer. E ele raspava aquele almoço feito no fogão à lenha, com o tempero e carinho das mãos italianas da vó Olinda com fome de lobo, à sombra dos vagões de trem na antiga ferroviária de Maringá, hoje o Novo Centro repleto de arranha-céus.
Falavam que o vô Nego Haroldo era santista, mas duvido! Tinha sintomas de corintiano. No rádio “caixa de abelha” nem piscava sintonizado nas ondas AM da Rádio Tupi ouvindo as dramáticas narrações de Fiori Giglioti nos jogos do Timão.
No sábado seguinte estreamos pelos bares e rinhas de galo das redondezas. Aquele tempo ir ao boteco ou jogar uma sinuca era um ritual. Todo mundo na beca, calça branca, a notável camisa Volta-ao-Mundo, sapato Passo Doble lustrado, brilhantina no cabelo e perfume Lancaster no sovaco.
Hoje todo mundo usa tênis e por isso engraxate passa fome! É uma raça extinta! Kkkk.
Mas logo no primeiro cliente, passei vergonha na estreia!
Num Mustang vermelho reluzente chegou um distinto senhor de 2 metros de altura e da largura de um guarda-roupa, a pele brilhava de tão negra e me perguntou com a voz do Cid Moreira quando tá com gripe:
-Quanto é a engraxada, piá?
-Dois contos!
-Te pago cinco contos! Mas você tem que tocar um sambinha!
Pronto! Agora, danou-se! E eu lá sei tocar samba?
João Ladrão estava do meu lado engraxando outro cliente e me sussurrou ao pé do ouvido:
-Brechó, quando você for polir com a flanela, estica e bate um samba!
Estiquei o pano encardido e nada de batucada…
O negão levantou-se da cadeira e me tirou da caixa de engraxate pelo colarinho.
-Senta aí. Põe meu sapato no seu pé. Vou te ensinar. Ouça o ritmo:
-Dum, dum, urubu calango sapo! Urubu calango sapo! Dum, dum urubu calango sapo! Escuucucu duru dum dum! Escucuuu duru dum dum!
Vestindo calça branca boca-de-sino, camisa vermelha berrante aberta no peito mostrando um cordão de ouro da grossura de um dedo, um anel dourado com um rubi do tamanho de uma bola de gude, o negão pávulo sorriu-me mostrando alguns dentes de ouro:
-Piá, antes de eu ser advogado, eu também fui engraxate. Vai treinando, ninguém nasce sabendo. E estude, viu? Pra ser um doutor como eu e ter um carro bonito como esse aí, ó! Toma dez contos!
Olhei o esportivo vermelho do negão e me vi pilotando-o na minha quimera, que é o resultado da imaginação que tende a não se realizar.
Poxa, quanto orgulho! Meu primeiro cliente foi um doutor e eu pela estampa excêntrica jurava que era um cafetão, jogador de baralho ou um bicheiro! Quanto preconceito, né?
Naquela época diploma de doutor era para poucos brancos e certamente para o negão não deve ter sido fácil nesta sociedade brasileira ainda criminosamente racista.
Já adulto, eu o reconheci pelo tamanho do Toni Tornado e sorriso de metal nas manchetes dos jornais, famoso numa causa polêmica na defesa de suas raízes negras.
Em tempos recentes preparei uma minuta de projeto de lei para corrigir uma distorção tributária no IPTU de Maringá e submeti o tema ao vereador “Negrão Sorriso”! Falei da minha primeira engraxada com o dr. Negão e o jovem edil negro emocionou-se em lágrimas comigo, por óbvio lembrou da sua infância maltrapilha e os obstáculos materiais e sociais inerentes à cor da sua pele.
A gente estereotipa as pessoas inconscientemente utilizando conceitos preconcebidos. Mas eu, que tinha um vô negão que me criou ninando no colo fumando cachimbo depois de banho tomado, no crepúsculo de um dia cansativo do penoso trabalho braçal na ferroviária, passei a ter dois ídolos negros.
Ah, não esqueci do Pelé no auge, mas o rei não era corintiano! Ninguém é perfeito, paciência! Eu gostava era do Rivelino (e o Maradona idem). Não se fala mais nisso! Kkkk.
Quando acabamos a jornada de engraxate naquele primeiro dia, eu e João Ladrão fizemos uma féria superior a dos Sacis. E de lambuja a caixa de engraxate era leve. Lembrei-me dos conselhos da minha mãe:
-Estuda filho, caneta é mais leve que enxada…
Treinei bastante o sambinha da flanela no sapato, meu técnico era o João Ladrão.
-Como é que é mesmo o ritmo do dr. Negão, João Ladrão? Coçaocu balanga o saco, coçaocu balanga o saco?
-Quiá, quiá, quiá! Não, Brechó! É assim ó: dum dum, escucum durum dum dum dum, bate em cima bate em baixo, urubu calango e sapo!
Ouvindo sambas no rádio aprendi. Finalizava a engraxada com um batuque do hino do Corinthians. Os palmeirenses odiavam… (kkk).
Mas engraxate leva muita gozação também, viu? Tipo:
-Ei, você tem graxa preta? Tem? Então vai engraxar o saco do Pelé!
Ah, mas João Ladrão, mais experiente e malandro, logo me ensinou:
-Brechó, quando mandarem você engraxar o saco do Pelé, dá a seguinte resposta:
-É pra engraxar o saco do Pelé? Então me empresta a escovinha da sua mãe! E sai correndo prá não levar um cascudo (rsss).
Bom, não importa o que você faça! Relevante que seja bem feito! Eu era um bom engraxate, protegia da graxa as canelas dos clientes com papelão, dava um brilho radiante nos sapatos com direito a um concerto no fim do espetáculo.
Depois, fui protético habilidoso, agricultor incansável, despachante de trânsito, contabilista exato, bancário competente e professor estudioso e dedicado.
Após iniciar engenharia civil aos 17 anos numa Universidade Federal e abandonar o curso por causa da pobreza, abracei a carreira jurídica porque o inconsciente, aquele pedaço submerso e insondável do cérebro, ficou impressionado pelo exótico doutor Negão e antes por um jovem advogado que meu pai amparou no passado, dividindo o pouco que tinha.
Este se chamava doutor Brandão e dormia comigo no meu quartinho. Eu mal tinha 5 anos, adorava gibis sem saber ler. Brandão acordava cedo e com paciência de Jó, lia Mickey e Pato Donald para o deleite dos meus sonhos infantis.
Esse jovem advogado brilhou nos tribunais e na política. Sua “performance” me impressionava, era um orador nato imbatível e eu acompanhei sua trajetória com orgulho de ter compartilhado com ele meu quartinho humilde de madeira no seu miserável começo.
Tornei-me advogado como eles dois. Depois fui promotor de justiça combativo e antenado nas questões sociais. Agora aposentado, voltei à advocacia porque o sangue que corre nas minhas veias é vermelho como as cores da OAB, rubro como o carraço do dr. Negão. E o criador me deu o encargo extra de lecionar direito nas Universidades e realizar os sonhos de doutor dos “negões” e “brandões” da vida.
E o João Ladrão? Ingressou nas fileiras militares e aumentou a estatística de heróis fardados mortos pela criminalidade. Descanse em paz, meu inesquecível amiguinho, me ensinastes ser trabalhador humilde, mas não ladrão. Para conhecer o caráter da pessoa, basta analisar suas companhias. Se elas forem boas somarão coisas edificantes para a tua vida, mas quem se mistura com porco farelo come. Daí a sapiência do ditado popular “diga-me com quem andas, te direi quem tu és”.
Nunca perguntei para João Ladrão as razões desse apelido, dúvida que ficou para a posteridade. Vai ver roubava mangas da vizinha como eu! (Rss)
Obrigado João Ladrão, Ruço Sarará, dr. Negão Pavulagem, dr. Brandão, vô Haroldo e mãe Neguinha! Valeu pelos conselhos e exemplos de vida: graças a vocês o engraxate Brechó emoldurou diploma de doutor, anda de carrão vermelho importado e sua ferramenta de trabalho é uma pena!
E tudo começou com o Saci e o sambinha da flanela no sapato.
Adilson Garcia
Professor, doutor em Direito pela PUC–SP, advogado e promotor de justiça aposentado.