À beira da morte os loucos se tornavam sãos – acreditavam os antigos. Quixote, nos últimos momentos, recobrava a razão. Dulcinéa já não era a donzela idealizada, dos cavaleiros nada admirava, a Sancho a gratidão manifestava.
O Testamento de Quixote só cuidava do tangível, claro. E o intangível, o que habitava a sua alma e quais as emoções vividas em seus sonhos e delírios? O que experimentara o seu coração delirante, apaixonado pela vida? Isso, Quixote não testou, mas nos legou, como mensagem de uma incrível capacidade de viver para os seus sonhos e de, assim, fazer a diferença. Sonhos não tem limites, físicos ou temporais: são a expressão da sensibilidade da alma, nos impulsionando, ilimitadamente, adiante e adiante, ou como se diz em língua espanhola, “adelante”.
Aquele que segue em frente, apesar da dura realidade, só demonstra sanidade e nada de loucura. Dom Quixote é assim. Seguiu em frente, acreditando. Caminhava sobre a realidade, ultrapassava obstáculos, armava-se para cada dia e o vivia, num clássico rico livro, com sedutor simpático texto em torno de personagem extraordinariamente construído. De longe, parece a figura de um bom sujeito que delira e se deixa levar por imaginários desafios. De perto, é personagem especial: alguém que vive com os seus sonhos e não cede à opiniões alheias. Quixote se nega a se apequenar pela realidade dos seus dias e se lança nos amplos horizontes desse mundão.
Quantos de nós assim não vivemos, colorindo os dias mais cinzentos da nossa existência, dourando pílulas, olhando o lado bom de tudo, procurando luz em meio a tantas mazelas do mundo? De modo semelhante, Lewis Carroll, em Alice nos País das Maravilhas, nos aponta que temos de nos libertar do que nos aprisiona e achar um caminho a seguir e para isso usa de diálogo muito interessante, entre Alice e o Gato, quando ela lhe perguntou qual caminho deveria seguir para sair de onde estava e a resposta dizia que dependia do destino pretendido. Então, Alice retruca, que não se importaria para onde iria, ao que o Gato concluiu que então pouco importa qual o caminho seguir.
Sonhando e vivendo nossos sonhos, fazemos a diferença. É preciso que haja sonhos. É preciso que esses sejam compartilhados. O potencial de cada um ao máximo realizado permitirá melhorar o todo.
Ontem sonharam os conquistadores espanhóis em ter em solo Europeu toda a Prata de Potossí e a imensa montanha foi desconstruída e levada em porões de navios. Os conquistadores portugueses levaram madeira, pedras preciosas várias, muito diamante das chapadas e ouro dos aluviões. Mais recentemente o Petróleo era o ouro negro a fomentar guerras. Hoje o Petróleo, amanhã a água. Água? – dirão alguns – Água não é recurso finito. As chuvas renovam-na. Não é bem assim. Há um sistema e nada acontece por acaso.
Não penso ser errado pensar que a nação que possuir a Amazônia será a grande potência: água, minério, biodiversidade, regime de chuvas concentrado etc Impressiona como vários temas que parecem ser absolutamente independentes entre si revelam-se interdependentes e complementares, desde que se determinando o elo subjetivo que os une.
A realidade não é facilmente absorvida e certas circunstâncias são tão agressivas que a sociedade fica tentada a não admitir que existam. É como o doente que nega a própria doença.
Precisamos proteger o Planeta, coibir o desmatamento e parar de culpar o agricultor como o único culpado por isso, pois em tantos além fronteiras sobrevive a sanha consumidora por madeira e minérios e biodiversidade…
De fato, utópicas ideias recentemente divulgadas falam em “transformar metade do mundo em reserva ambiental”!
Não é questão de ser contra ou a favor, mas de se pensar a respeito. Há tempos também se fala em “bem público global”.
Me parece que ambas as ideias se interfacem, pois há ligação lógica e subjetiva entre ambos. Todavia, metade do mundo se transformar em reserva ambiental, em nome de um conceito global de proteção e preservação de espécimes e habitats, significaria que cada país reservaria “metade” do seu território para tal fim ou a ideia de uma minoria “congelaria” a capacidade de ser autodeterminante e soberano cada país que porventura tivesse mares, lagos, rios, florestas, fiordes, campos, geleiras, Montanhas Rochosas, Alpes, desertos, tundras etc?
Acaso a ideia suspenderia a possibilidade de pesca em águas internacionais do Atum Azul, que já caminha para a extinção? As águas internacionais dos oceanos não admitiriam mais pesca? A ideia, como tese abstrata, pode tudo. A realização é que deve buscar uma norma de justiça salomônica, justa e equilibrada, sob pena da sua construção, maturação e efetividade gerar uma servidão de tantos em prol do benefício de uma minoria gerencial.
Enquanto isso, atacam-nos como se fossemos o vilão desmatador, embora muitos dos ataques venham de países que já desmataram muito e que por isso mesmo voltam-se a cobiçar o que protegemos e historicamente possuímos.
Praias inteiras, de areia monazídica, nos tempos da Guerra Fria, foram levadas do Brasil em navios para outros países, pelo seu potencial nuclear. Reflitamos. A biopirataria é tida como a terceira atividade ilícita mais rentável do planeta, ficando apenas atrás do tráfico de drogas ilícitas e de armas. E somos vítimas e não algozes da biopirataria, do mesmo modo que o somos da ilegal extração de madeira, minério etc
Se pagamos por royalties para usar bens da natureza que outros países exploram (como gás, petróleo, sal do Himalaia etc) não fica sem razoabilidade a sugestão que há anos se fez de que o Brasil poderia cobrar Royalties do ar que purifica em suas matas e florestas. É o outro lado da moeda, mas parece que só querem ver dela o lado que interessa.
Como mudar o destino? Como achar novo rumo? Qual a porta a ser aberta? O que importa se Dom Quixote era um Cavaleiro com armadura num tempo em que tais cavaleiros não mais existiam? Se os moinhos de vento citados pelo Poeta são apenas símbolos dos medonhos monstros que nossas mentes criam, o que nos difere de Dom Quixote? Será que não somos mais próximos do que parece?
Que os sonhadores liberem suas quimeras e que a mistura desses elementos nos tragam estratégias capazes de nos colocar ante os Blocos Econômicos dominantes, preservando legitimamente nossa Soberania, pelo bem e progresso dos brasileiros e da Nação. Que nosso legado não seja um Quixotesco testamento objetivo de desilusão, de um sonho do qual se desperta, mas que possamos obrar para deixar para os que nos sucederem uma realidade melhor do que a sonhada.
Rogerio Reis Devisate
Advogado. Defensor Público/RJ junto ao STF, STJ e TJ/RJ. Palestrante. Escritor.