Na Serra do Navio se encontravam as maiores reservas de manganês do País, donde se extraíam 80% da produção brasileira da década de 60. Suas jazidas foram exploradas por 50 anos pela ICOMI – Indústria e Comercio de Mineração, que venceu a concorrência em 1947 e recebeu autorização do governo para pesquisar e explorar esse minério. Em 1950, necessitando de aporte técnico e de recursos financeiros, associara ao grupo americano Bethlehem Steel.
Pagava royalties de 4 a 5% do valor do minério extraído ao Governo local, sendo as encomendas asseguradas por um contrato com o Defense Materials Procurement Agency, órgão governamental norte-americano. Na época, o manganês era um minério estratégico, por ser usado na fabricação de armas e equipamentos bélicos.
Inegável o progresso e riqueza trazidos pela ICOMI ao Estado do Amapá. A renda dos royalties do manganês foi destinada à construção da Usina do Paredão no Rio Araguari, Município de Ferreira Gomes-AP, para assegurar a base energética das futuras indústrias.
Na área social, a mineração do manganês provocou deslocamento de mão-de-obra e contribuiu para o aumento da população do Estado, antigo território federal (de 1943 até 1988).
Serra do Navio tinham um dos maiores IDH’s do país, superiores aos grandes centros, com 100% de esgoto e água tratada, com atendimento hospitalar de primeiro mundo, tendo à frente o excepcional médico Dr. Paulo Roberto do Neme Amorim, a quem rendo minhas justas homenagens por sua história ímpar na saúde da Amazônia.
A ICOMI construiu uma estrada de ferro de 194 km para 700.000 toneladas de minério e 200.000 toneladas de outros tipos de mercadorias, assim como um porto em Santana para acesso navios de até 45.000 toneladas. E edificou no meio da selva a cidade de Serra do Navio e, em Santana, a Vila Amazonas.
Em 1997, a ICOMI, antes mesmo do prazo final do contrato de arrendamento, declarou exauridas as reservas, após ter extraído 60 milhões de toneladas de minério de manganês.
Com a paralisação da mineração de Manganês, Serra do Navio tornou praticamente uma cidade-fantasma e os equipamentos foram abandonados, evidenciando que não houve um enraizamento de processos de desenvolvimento em função da atividade minerária.
Mas a vida continuou na Serra do Navio mesmo sem a ICOMI. A agricultura, o extrativismo, a mineração de ouro, ferro e do próprio manganês mantém aquela joia preciosa encravada no meio da mata, no alto da serra, com seu povo maravilhoso, ordeiro e produtor de riquezas.
Hoje Serra do Navio tem em torno de 9.000 habitantes segundo levantamento da equipe de saúde municipal, enquanto que no último censo do IBGE (2010) eram 4.380 habitantes.
Tem um potencial turístico fantástico, ainda inexplorado. Recentemente estive em Curitiba e fiz um dos passeios de trem mais bonitos do Brasil: o trajeto entre a capital paranaense e a cidade histórica de Morretes que corta a Serra do Mar em mais de 70 quilômetros de túneis, paredões de pedra, represas, montanhas, cachoeiras e até pontes tão estreitas que somem sob o trem, que parece flutuar no penhasco.
E Morretes (15.718 hab., IBGE/2010) recebe milhares de turistas todo final de semana, fomentando o comércio e serviço, as pousadas, os restaurantes, as feiras, fazendo com que tenha uma das maiores rendas per capita do Paraná. É o turismo, a indústria sem chaminés.
Mas fiquei triste durante a viagem porque minha mente estava ligada no Amapá, imaginando a estrada de ferro da Serra do Navio abandonada e a falta de estímulo ao nosso turismo.
Imaginei em minhas quimeras o trem saindo da estação de Santana, cheio de turistas, aquela viagem maravilhosa sobre pontes de ferro, o bioma do cerrado e da mata amazônica, levando divisas e ao mesmo tempo servindo de transporte para a população, os produtores e extrativistas das cidades e vilarejos encravados nos percurso desse patrimônio histórico nacional que é a Estrada de Ferro do Amapá, hoje abandonada, sucateada e pilhada pelos amigos do alheio, que furtam impunemente os trilhos para vender como sucata.
Mas em tempos de pandemia, as melhores notícias vêm da Serra do Navio, que zerou casos de Covid-19, graças a um plano de ação montado pelo Município, que faz busca ativa, isolamento e acompanhamento dos doentes.
No início da pandemia, em março de 2020, Serra do Navio e o mundo ficaram apavorados com o desconhecido. A população sem saber o que seguir e os profissionais de saúde sem saber como cuidar. Tudo era novo.
A doença que mata impiedosamente e por isso os protocolos foram montados às pressas, para se tentar salvar vidas. Toda a responsabilidade caiu para os secretários de saúde dos 5.570 municípios do Brasil. Os Cosems se esforçando ao máximo, em reuniões e mais reuniões, para auxiliar a todos.
Como especialista em Saúde Pública e Gerenciamento de Crises, o secretário de saúde Randolph Scoth pôs todos na linha de frente, inclusive na Barreira Sanitária. Uma oportunidade de colocar em prática o aprendizado e sobreviver ao caos e atender com solidariedade a todos.
Muitos profissionais tombaram para a Covid, muitos foram afastados preventivamente por comorbidades. Isso sem citar que o Centro Covid funcionava na própria Secretaria de Saúde por falta de espaço. Era um cenário de caos.
A comunidade foi primordial, inclusive levando lanches e frutas regionais para o pessoal que estava no plantão para agradecer ao empenho de todos.
Serra do Navio recebeu prêmio nacional de combate à Covid e foi consultada por vários municípios do Brasil em live´s para falar daquele trabalho da equipe Serrana.
Recentemente vi o excesso de zelo do Ministério Público em processar o secretário de saúde Randolph Scoth, por ter “furado a fila” da vacinação da Covid. Por autorizar a vacinação de todos os profissionais da saúde, por ter a certeza de que todos estavam na linha de frente, o Secretário foi denunciado criminalmente por ter se protegido.
Mal sabia o Ministério Público que aquele secretário enfiou o pé na lama, arregaçou as mangas e foi para dentro das comunidades, colocando em risco a própria vida ao ter contato com os doentes serranos.
“Data venia”, no meu ver por trabalhando corretamente, além de ter todas as indicações clínicas e de trabalho. Por isso, foi escrachado socialmente pelas redes sociais, mesmo sendo portador de comorbidades bariátricas, diabético, hipertenso, infartado. Após a denúncia do MP, certamente aquele bravo secretário vai necessitar de atendimento psicológico e psiquiátrico por causa de depressão.
Conversei com o secretário e ele serenamente me disse que não vai virar bandido por trabalhar e se proteger:
-Sabe aquele desespero de quem fez certo e a sociedade usa as autoridades e as redes sociais para matar? É assim que me sinto. Passar de um excelente trabalho para “leproso” por causa de uma denúncia infundada, baseada em fofocas das redes sociais é muito triste.
Amigos, bom senso e caldo de galinha não fazem mal a ninguém. Mas está aí o resultado: o julgamento da história.
Logo na entrada de Serra do Navio, ainda há uma barreira onde os carros são desinfectados e as pessoas passam pelo protocolo. Embora com parcos recursos humanos, a Prefeitura adotou uma estratégia diferente, melhorando a estrutura para receber pessoas com complicações e adotou medidas para evitar a propagação.
O prefeito Elson Belo não fechou o comércio e adotou o número do CPF de cada cidadão, mantendo o isolamento social em números pares e ímpares. Com isso, reduziu em 50% a circulação de pessoas sem esquecer a economia, porque de que adianta não morrer de Covid e morrer de fome?
No último decreto foram liberados até esportes coletivos nas arenas e campos, situação diversa de Macapá, Santana e outras cidades do Estado.
A pandemia chegou em Serra do Navio no momento em que se reconstruía a saúde do Município e o secretário de saúde e o prefeito usaram como estratégia a entrega de cestas básicas, barreiras sanitárias 24 horas, distribuição de EPI (equipamentos de proteção individual), apoio das polícias, criaram equipe de atendimento virtual, vacinação em praça pública, divulgaram serviços de entregas domiciliares, criaram lives como espaço de interação popular e pela rádio local levavam informações e tiravam dúvidas, fornecendo os contatos telefônicos de toda a equipe.
Criaram o comitê municipal de enfrentamento à Covid-19, adquiriram termômetros infravermelhos, impuseram o toque de recolher, suspenderam aulas presenciais, atividades presenciais da prefeitura, eventos de quaisquer naturezas e atividades do centro do idoso, decretaram o uso obrigatório de máscaras, higienizaram os meios de transportes, estabeleceram critérios para o transporte alternativo, para trabalhadores do grupo de risco e até para velórios.
Deu certo. Nos últimos dias não ocorreu nenhum óbito e os casos de Covid zeraram no Município.
Enquanto promotor de justiça do meio ambiente, uma das últimas conquistas antes de aposentar foi ter conseguido um TAC (termo de ajuste de conduta) com a mineradora Anglo American destinando 30 milhões para Santana, 10 milhões para Pedra Branca do Amapari e 7 milhões para Serra do Navio.
Antes da pandemia, fui homenageado numa das festas mais concorridas do Estado, o BAILE SERRANO – folclórico eu diria – onde os brincantes imitam o trem, ao som de bandas maravilhosas e a alegria contagiante no meio do salão, com os serranos saudosos de um tempo que não volta mais. Parabéns, povo Serrano, por sua identidade cultural fantástica.
Parabéns, gestores Serranos por terem colocado Serra do Navio em 1º lugar no destaque nacional no combate à Pandemia.
Enfim, uma boa notícia envolvendo o Amapá!
E quanto aos cães raivosos, não se preocupem: vacina antirrábica neles (rss)! Eles ladram, mas a caravana e o trem passam!