Nos rincões do extremo norte, lá pelas bandas do Oiapoque, onde começa o Brasil (assim está inscrito no obelisco central daquela cidade), vivia uma lenda chamada Chico Cachoeira.
Chico Cachoeira era das pessoas que Deus fez e pôs no mundo e jogou a forma fora. Não faz mais igual.
No meio da linda mata amazônica, no pé de uma das quedas d´água mais lindas do mundo, vivia Chico Cachoeira com seu cachorro Bragado e o gato Amendoim numa tapera feita de pau a pique e coberta com as palhas de palmeira buçu e sombreada pela mais linda e fina das palmeiras, o açaí, que “faz mulher de sangre grosso”.
Ali aquele ermitão fez sua morada e decretou como suas as lindas terras ao redor da cachoeira. Aquele homem sisudo tinha no rosto e no corpo as marcas do encontro com a violência e o sofrimento do mundo. Mas amiúde estampava aquele sorriso de poucos dentes que lhe sobraram, contava causos e mais causos e da sua felicidade de encontrar um lugar fecundo, com águas límpidas e piscosas, com a natureza pródiga em frutos e chuva farta.
Fugido da seca do nordeste, lá Chico Cachoeira o pouco que produzia era de “a meia” com o senhorio, me relatou certa feita!
-Aqui é uma maravilha, Dotô! Tudo que colho é meu e tem água à vontade!
Aquela cachoeira era muito requisitada pelos banhistas brasileiros e franceses, pois era de uma beleza cênica impressionante, as águas transparentes correndo por cima das pedras e a sua queda se desmanchava em um véu branco, como se fosse uma noiva seguindo para o altar.
Pois bem! Nesse território mandava Chico Cachoeira, que velava por aquele paraíso como o mais radical ambientalista. Ele era um ambientalista. E eu, naquela época, como promotor de justiça atuando em Oiapoque, também já era um deles. Mas nem eu e nem Chico Cachoeira sabíamos desse encargo que o Criador nos deu para preservar o meio ambiente para as gerações presente e futuras.
Evidente que sem pai, sem mãe, sem lenço e documento e muito menos escola, Chico Cachoeira nunca leu a Constituição Federal que dispõe no art. 225, VII, que devemos “proteger a fauna e a flora, vedadas, na forma da lei, as práticas que coloquem em risco sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais a crueldade”.
Chico Cachoeira fazia isso porque estava dentro da sua alma, era uma virtude genética, estava no seu DNA. Ali ninguém podia caçar os animais que vinham comer na mão de Chico Cachoeira, havia uma simbiose dele com as araras, papagaios, macacos, tucanos, cutias, pacas e tatus. Só não havia com as onças! Mas também aí seria demais, né?
Ali naquele recanto, um paraíso divino, Chico Cachoeira vigiava da moldura da sua janela e não deixava ninguém jogar garrafas, latas e outros resíduos sólidos nas águas e nas areias brancas dos remansos, costume feio típico do “homo sapiens” com diploma na parede!
-Na água só pode jogar o que o peixe come, Dotô!
Nas minhas prosas com Chico Cachoeira, mostrei a ele que poderia ser um prestador de serviços e ajudar na sua renda. Incrédulo, com a fala assobiada entre os contados dentes que lhe restaram, me questionou:
-Será, dotô!
Assim, ainda que desconfiado Chico Cachoeira seguiu quase à risca minhas propostas empresariais e passou a cozinhar a mais saborosa macaxeira e preparar a mais suculenta galinha caipira à cabidela. Não dava pra quem queria!
-Eu não te falei, Chico Cachoeira! O pessoal paga para suar na mata e tomar picada de carapanã, micuim e pium! Eles chamam isso de trilha!
E Chico Cachoeira fez trilhas nas matas e vendia seus passeios para os turistas franceses com um dinheiro que ele não sabia bem o que era, mas que o comércio de Oipoque aceita como a segunda moeda.
Mas um dia Chico Cachoeira sumiu! Cadê o Chico Cachoeira! Cadê o Chico Cachoeira! Voltou para o seu nordeste, cabra da peste? Sem nos avisar? E todos perguntavam: cadê Chico Cachoeira!
Preocupado, fui à cachoeira e encontrei as coisas jogadas pelo chão e o cachorro Bragado com as costelas já aparecendo por baixo da pele.
Bem – comentei consigo mesmo – abandonar o animal companheiro e que tanto amava isso Chico Cachoeira jamais faria.
Por isso, adotei o Bragado e este virou meu segundo vigilante na Promotoria. Gordinho e atencioso, me esperava no portão no retorno das audiências do fórum para o almoço.
Mas cadê Chico Cachoeira?
Passado um bom tem po, um vendedor de bombons e cigarros ouviu de caçador que estava bebum num daqueles inúmeros cabarés que pululam em Oiapoque uma confissão de um homicídio, se gabando como fosse uma vantagem, um feito, pois afinal o caboclo queria ser o dono e mandar na mata!
-Eu caço onde eu quiser, quem se meter comigo leva chumbo de novo!
No dia seguinte aquele vendedor humilde, pedindo anonimato, me relatou esse fato e imediatamente comuniquei à delegada, na época a dra. Jane! O que ela tinha de linda e baixinha ela tinha em dobro de braba! A peonada tremia, ela “botava no 12” logo! Doze era o tipo penal de tráfico da lei de entorpecentes vigente à época.
Pois bem! Não sei o que aquela linda mulher, que andava torta com uma pistola .40 na cinta, uma boa dose de batom vermelho na boca e as algemas no cóccix fez com aquele caçador, porque ele “vomitou tudo”, indicando o motivo banal, a forma de execução e até o local ermo no meio da mata onde havia ocultado o cadáver em cova rasa.
Não tive dúvidas que era o corpo de Chico Cachoeira! Acompanhei a exumação e a perícia! Ocorreu um estranho fenômeno chamado saponificação e quando os peritos removeram aquela argila do latossolo vermelho-amarelo do local que serviu de leito final para Chico Cachoeira, de imediato reconheci aquela pele áspera do rosto com marcas de espinhos e cortes e a arcada dentária que fazia do sorriso de Chico Cachoeiro um “meio” sorriso. O cadáver estava quase íntegro.
Bragado, que fiz questão de levar comigo, também reconheceu seu dono: uivava e gania como um cachorro louco e cavoucava a terra como se assistente dos peritos fosse.
Fiz esse júri e nunca na minha vida chorei tanto como chorei naquele julgamento. Afinal, ali não morreu somente um homem, morreu uma lenda e uma garantia de um futuro melhor com a natureza preservada naquele reino encantando das águas da cachoeira do Oiapoque.
O réu alegou que foi torturado para confessar na delegacia e negou a autoria perante o Conselho de Sentença. Mas na peroração fiz ver aos jurados que o álcool suprime os freios inibitórios da mente e na bebida vem a verdade, daí o sapiência do brocardo latino “in vino veritas”!
Mas o argumento cabal para convencer os jurados foi que na delegacia de polícia o réu confessou um disparo de espingarda no flanco de Chico Cachoeira e a perícia, ao peneirar a argila encontrou um punhado de balins e os arcos costais fraturados pelo impacto do balaço à curta distância.
Além disso, ainda que fosse verdade a tese da confissão sob tortura, como é que o réu sabia onde estava enterrado Chico Cachoeira, um local ermo na sombra da mata, se não fosse quem matou e ocultou o cadáver?
O veredicto foi 7 a 0 e o réu foi condenado!
E aquele dia eu jurei a mim mesmo e ao Chico Cachoeira que abraçaria a causa ambiental de verdade, porque as atitudes daquele homem humilde e analfabeto fazem corar de vergonha os civilizados que destroem e poluem a nave Terra sem parcimônia e impunemente!
Pronto! Agora vocês sabem porque virei ambientalista ou um “ecochato”.
Por força daquela promessa, fiz curso de perícia ambiental, especialização em direito ambiental, mestrado em direito ambiental e políticas públicas e doutorado na área de direito ambiental e leciono direito ambiental na Universidade Federal do Amapá.
-Você não estará só, Chico Cachoeira, te juro! Cuide bem do céu!
Adilson Garcia
Professor, doutor em Direito pela PUC–SP, advogado e promotor de justiça aposentado.