A política tucuju tem nuances que desafiam os estudiosos do fenômeno político. O DEM no Amapá, por exemplo, já foi opositor do Governador do Amapá (PDT) que hoje está ao seu lado. O DEM já esteve de mãos dadas com o PSOL, PSB e REDE e PT, partidos progressistas, que já declararam neutralidade neste segundo turno. O Partido Cidadania já foi aliado do Governador (PDT) que hoje está do outro lado. O candidato Josiel Alcolumbre defende claramente, como proposta de governo, a continuação da gestão do atual prefeito Clécio que, segundo pesquisas, tem aprovação de 70% da população macapaense. O candidato Dr. Furlan sustenta uma ruptura com a “velha política” e propõe um governo desapegado de alianças que, segundo ele, emperram o desenvolvimento da cidade. Aqui começa o vale-tudo!
A proposta de construção de uma “nova política” para o município de Macapá feita pelo candidato Dr. Furlan, que propõe uma ruptura com os antigos aliados, desafiou e indignou o candidato Josiel Alcolumbre. Para refutá-la, entrou numa argumentação estranha e de duvidosa eficácia: acusar o adversário de ex-aliado do Governador e de ex-militante da velha política. Ora, se ter sido aliado do governador passa a ser um fato negativo, a pergunta que se impõe, é por que o candidato Josiel aceita o apoio do atual governador para o seu arco de alianças se ele representa o atraso?
Diz-se que em política sempre se “cisca pra dentro” e talvez essa tenha sido a orientação do candidato Josiel Alcolumbre quando buscou o apoio do Governador. Ter ao seu lado um aliado que venceu quatro das últimas cinco eleições para governador é um reforço positivo e estratégico para qualquer candidatura, sobretudo quando o governador venceu o candidato de seu próprio partido. Todavia, todo esse capital fica ameaçado quando o candidato Josiel Alcolumbre ataca o adversário Dr. Furlan, acusando-o ter sido aliado do governador, hoje apoiador de sua candidatura, e que trouxe a máquina do governo estadual para turbinar sua campanha. A linha de defesa poderia ter sido outra, mais alinhada com sua proposta de continuação do governo Clécio e de construção de uma política de consensos.
O vale-tudo de uma campanha política não é absoluto. Tem seus diques éticos, sem os quais desborda-se para a barbárie, capaz de produzir ataques suicidas e repudiáveis. Se o eleitor, na sua maioria, rejeitou as propostas progressistas e os candidatos mais votados constituem uma tendência de centro, de discurso mais moderado, aí está a chave para o debate saudável, propositivo, inovador e sem chiliques verbais. A desconstrução de um discurso exige fina análise de seu conteúdo para encontrar a antítese perfeita, capaz de impugná-lo com refutações lógicas e pertinentes, aptas a desconstituí-lo, jamais com vale-tudo argumentativo.
Vicente Cruz
Presidente do Conselho de Administração, advogado sênior e Estrategista Chefe do IDAM (Instituto de Direito e Advocacia da Amazônia)
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