Na antiguidade, Platão, com sua argúcia na argumentação, tratou na obra Fédon que a auto aniquilação seria tolerável se o sujeito estivesse acometido de doença crônica, incurável e dolorosa que permitisse prever a certeza de um destino miserável e humilhante, advogando a tese de que se a libertação da vida é um bem, a auto aniquilação seria lícita. Todavia, na mesma obra, segue o argumento da pertença que diz que os seres humanos pertencem aos deuses e estão sob sua tutela e a decisão sobre a existência cabe a eles. Nessa perspectiva, não caberia a recomendação de Sócrates para que os filósofos o seguissem na decisão do infortúnio, porquanto há um verdadeiro atrito com o fundamento da pertença.
A escola estoica acenou com bom grado para a possibilidade de o ser humano, em determinadas circunstâncias e com um demorado tempo de deliberação, consentir a auto aniquilação como algo inserido no campo da racionalidade. Aliás, segundo ela, o ato mais racional do ser humano. Chega, inclusive, a estabelecer alguns parâmetros de justificação para que a pena capital seja aplicada. Esse raciocínio está alinhado à máxima estoica de “viver de acordo com a natureza”, que significa viver no mundo aberto da racionalidade, intrínseco aos seres humanos, que permite, inclusive, deliberar sobre a própria existência num jogo complexo de fundamentos e palavras.
Diante de tudo isso, há de se indagar se, de fato, o ser humano está no controle da decisão voluntária do momento da finitude a ponto de Sêneca sustentar que a vida não é um bem que se deva conservar a todo custo. Ou, fugindo do denso escrutínio do campo filosófico, impõe-se abordar da perspectiva individual para perguntar: qual o verdadeiro sentido ou valor da vida para cada indivíduo? No campo leigo, ordinariamente, deriva-se para as perspectivas de celebrar a vida como uma dádiva divina, incapaz de ser interrompida por nossa própria vontade, mesmo diante de infortúnios que possam conduzir a uma vida miserável. Se há justificativas para por termo à existência, como produto da racionalidade, há uma bíblia aberta para dizer, justificando o valor e o sentido da vida, que há um Cristo que disse: eu sou o caminho, a verdade e a vida.