Após eleitores receberem do chefe político local os envelopes fechados, com as cédulas de votação já preenchidas, deu-se o seguinte diálogo:
– Posso saber em quem estou votando?
– Não pode. O voto é secreto.
O anedotário representava a realidade daqueles tempos.
Hoje, sabemos em quem desejamos expressar o nosso voto.
Contudo, não ficaram no passado as palavras do grande Rui Barbosa, que dizia que “a publicidade é a servidão do votante. O segredo, a sua independência”.
Hoje, parecemos ser obrigados a declarar em quem vamos votar! A configuração da acirrada disputa nos leva a isso e, assim, somos cobrados frequentemente – o que nos coloca na posição de sofrer controle, patrulhamento e cancelamento (em linguagem contemporânea).
Que paradoxo: lutamos tanto pelo voto secreto e somos levados a declará-lo!
Mesmo assim, o eleitor é o único e grande juiz da própria consciência, na solidão da cabine de votação.
É dele a decisão, no pouco tempo que passa naquele pequeno espaço, diante da urna.
O juiz e o eleitor decidem com base na sua convicção. O juiz coteja a tese com a ideia oposta (antítese) e faz a síntese, decidindo. O eleitor deve agir do mesmo modo, comparando as ideias dos candidatos e fazendo a sua síntese, na urna.
O eleitor é o supremo juiz dos destinos da sua cidade, do seu estado, do seu país. Ninguém pode mais do que o eleitor!
O sistema político confere a todos o direito de votar. Ao direito corresponde o dever e a responsabilidade permeia a relação.
É a situação por excelência onde a unidade forma o conjunto. Cada voto, por menos que pareça ser capaz de fazer “a” diferença, acaba sendo exatamente a tônica do conjunto.
Cada gota d`água forma o oceano.
Ademais, se o juiz só deve falar nos autos do processo, o eleitor deve ser protegido e só falar nas urnas.
Entretanto, como abordamos logo acima, atualmente é muito maior a influência do meio, notadamente pelo advento da internet e das redes sociais.
Longe se vai o tempo em que essas influências se davam nas ruas, nas vilas, nos pequenos círculos.
Agora, aos familiares e vizinhos, somam-se a grande comunidade das redes, com os seus códigos próprios, a política de compartilhamento das mensagens – que deveriam ser entre os dois que conversavam – a outros contatos, com prints de conversas, com postagens de todo tipo, com a indiscrição de fotos e filmagens… Aliás, nem percebemos que o nosso celular é capaz de fazer tudo o que desejavam os espiões, dos filmes de poucos anos atrás.
Todavia, aquela influência não é capaz de roubar de nós a capacidade de decisão.
A Constituição Federal segue o princípio da igualdade do direito ao voto e adota a regra de que cada eleitor equivale a um voto.
Essas regras exigem que cada eleitor tenha a mesma garantia e proteção do Estado, para poder livremente exercer o seu direito de votar.
Se é indesejável, reprovável e antijurídico que empregador influencie o voto do eleitor, também o é a pressão de líderes políticos sobre os trabalhadores. Essas situações são facilmente detectáveis e passíveis de controle e punição.
Todavia, reflitamos: como se daria esse controle sobre a pressão que integrantes do crime organizado façam – de modo subentendido ou ostensivamente – sobre os eleitores das suas áreas de influência? A questão não tem pertinência ou essa realidade não existe?
Influências, influências…
Algumas perguntas nos ajudam a refletir, sendo crível que a hesitação em dar alguma resposta confirma o grau de influência do que se questiona:
O governo do Presidente Médici se beneficiou da vitória da Seleção brasileira, na Copa do Mundo de 1.970?
A declaração de apoio a candidato, por parte de pessoa famosa, influencia votos?
Pesquisas eleitorais chegam a influenciar o seu voto?
O modo com que a notícia verdadeira é veiculada, influencia?
Será que o antigo voto de cabresto – ou o cenário daquela anedota com a qual se inicia esse artigo – encontram alguma semelhança com a influência das pesquisas e de grupos, etc, se vistas a partir do comportamento do eleitor, notadamente ante a sensação de que gostamos de integrar o “time que está vencendo”?
Sofremos influência pré-reflexiva e somos meros reagentes ao status quo ou, ainda, sonhamos em mudar o mundo através da nossa individualidade?
O que é melhor, votar em quem se acredita ser detentor da melhor proposta político-partidária ou preterir este em prol de um “voto útil”?
Nessa circunstância, a nossa vontade própria e livre se vê atingida?
Fazemos o que queremos ou o que desejam que façamos?
A construção do voto é, inegavelmente, influenciada por tudo o que nos chega como informação e pela percepção individual, diante do contexto.
Somos influenciados pela mídia e pelas estratégias do marketing dos partidos e dos candidatos tanto quanto somos pelas relações interpessoais e cobranças que nos fazem colegas de trabalho e familiares.
Sofremos influência do que nos é dito tanto quanto das mensagens subliminares, da nossa percepção no tom das palavras, nos gestos, nos movimentos dos corpos…
Governo após governo, a influência também nos chega da constatação de que continuamos sofrendo nos ônibus lotados e que nem sempre passam no horário, no crescimento desordenado das cidades, nas filas nos hospitais, etc.
Somos influenciados por situações pouco compreensíveis, como palavras que não condizem com a realidade, discursos de amor ou ódio que não combinam com ações concretas, números chutados nos discursos, candidatos que se acusaram no primeiro turno e que passam a se abraçar no segundo, gente que brigou – mesmo – em eleições passadas e que depois fazem juras de amor e fidelidade…
O povo sabe, o povo sente, o povo entende. O povo se movimenta com instinto e sabedoria ímpares. Entretanto, quando se lhe furta a verdade verdadeira e a lógica da razão, sofre, traído nos seus ideais e na confiança depositada.
Que não mais nos ofereçam promessas de futuro enquanto nos negam o presente e não mudem os nomes das coisas para que pareçam outra. Cadeira é cadeira, ainda que seja chamada de carro.
Ficar “esperando sentado” na cadeira não nos levará a lugar algum.