Ler Machado sem ler O Alienista é perder o foco, o centro, o verdadeiro enredo.
Seu senso aguçado para captar as sutilezas e mazelas, sem dó nem piedade, de toda a sociedade revela-se neste conto com toda a pujança de sua ironia a construir os cenários por onde transitam parasitas de todo o abecedário, espécies não extintas de uma fauna alegórica de egos embalsamados em arrogantes expressões a busca de poder e de usurpações.
Mas porque debruço-me agora, 2023 – ano de tantos conflitos, sofrimentos e gritos, ano de enxurrada de aflitos de guerras nunca findas –, sobre sua narrativa, a narrativa do Dr. Bacamarte, o personagem central desta obra?
Há muitas razões, muito além do prazer literário. Fala-se muito em realidades paralelas, pessoas vivendo em distintas realidades, embora estejam no mesmo tempo e espaço. Fala-se muito em guerras de narrativas e/ou de informações, distorções de valores, manipulações de fatos com objetivos maldosos. Um terreno fértil para um alienista ou para alienados?
Ambos, tudo faz crer. Nada que se ouve é confiável, nada de que se fala é considerado, além das bolhas específicas, principalmente se bom senso for solicitado. Compreensão e diálogo estão difamados. A ONU, quem diria, nossa esperança até outro dia, deu a tacada final, sepultou de vez qualquer sonho de paz, por 1 voto (Estados Unidos) anulou 12 que pediam clemência humanitária, pediam que se abrissem caminhos misericordiosos para levar socorro aos civis atingidos na Faixa de Gaza. Um decidiu por todos e assim se fez, as pessoas indefesas continuarão a sofrer o flagelo da desumanidade.
Daí surgiu minha dúvida, será que estamos a caminho de cada um de nós construir para si uma Casa Verde (manicômio) e lá internar-se, como fez o Dr. Bacamarte, após concluir que ele era o único representante com todas as características do perfeito equilíbrio mental e moral?
Na narrativa linear se diria que alguém assim não tem como conviver com pessoas normais corrompidas e despidas daquilo que ele achou em si: “a sagacidade, a paciência, a perseverança, a tolerância, a veracidade, o vigor moral…” Ironia ou avesso do avesso?
O fato é que desde Machado, ou desde o Dr. Bacamarte, praticamente nada mudou, os egos continuam inflando e sobrepujando-se aos sentimentos de humanidade; enquanto os bacamartes transformaram-se em mísseis e bombas ceifando vidas e espalhando destruição.