O jornal do Brasil de 16 de agosto último, (1988) pregou-nos uma peça, com a comunicação ao país e, muito especialmente a nós, familiares, que tínhamos um filho cacique.
Ser pais de sequestrador, assaltante, drogado ou pivete, não assusta mais ninguém, porque no momento é a peste que assola o país, do Oiapoque ao Chuí. Namorada de um deles também não surpreende mais pais nenhum, uma vez que a linda filha de respeitável vice-governador está morrendo de amor pelo finado (graças a Deus) traficante Meio Quilo.
Mas ser, de repente, pais de um cacique, é algo incomum. Corremos o risco de, ao abrir a porta de casa, depararmos com uma edição melhorada de um Juruna. Daí a indagação: cacique por quê? Um jovem bilíngüe, que viaja pelo mundo todo, convidado para entrevistas até em TV francesa que curte excelentes amizades, pois é educado, comunicativo, fala bem e escreve sem erros ortográficos, que é ativo trabalhador e que acaba de combinar com o Sr. Embaixador da África do Sul (que o visitou há poucos dias no garimpo Rosa de Maio) a ida de brasileiros para fazerem curso de mineração naquele país, maravilhoso mundo de ouro e diamantes. Um jovem que, pela sua experiência e credibilidade, foi convidado para, junto a outro jovem valadarense de valor indiscutível, resolverem o intricado caso de extração de pedras em Hematita, por que ser tachado de cacique?
Estampada na 1ª página do caderno B, diz a notícia:
“ … é o “enfant terrible” da área mineral. No carnaval de 1985, invadiu a serra do Surucucu em Roraima, quando percebeu que a área de onde os GARIMPEIROS HAVIAM SIDO RETIRADOS POR SER REGIÃO DE ÍNDIOS IAMONAMIS (grifo nosso) ia ser entregue à Empresa de Mineração de Antônio Dias Leite Neto e Ike Batista, respectivamente, filhos do ex-ministro das Minas e Energia e do então presidente da Vale do Rio Doce”. E, mais adiante, acrescenta o J.B. “ele defende a imediata demarcação das terras indígenas, antes da discussão sobre a conveniência ou não de explorar minérios nessa área. Acusa a FUNAI de encolher e espichar áreas indígenas, para favorecer mineradores e prejudicar garimpeiros. Esse cacique é presidente da União de Associações e Sindicatos de Garimpeiros na Amazônia Legal, que conta com 600 mil filiados”.
Concordamos com o que o J.B. publicou, e até mesmo como alerta no sentido de que a decisão do destino da Amazônia seja, como diz o jornal, “entregue a quem foi eleito para decidir”. Será que um jornalista de tão alto gabarito e que, segundo consta, “tem os pés no chão” pois é profundo conhecedor da situação daquela zona, acha que “quem foi eleito” vai deixar “o plácido repouso em que adormece”, para se embrenhar na selva perigosa, dar razões a quem as tem, lutar pelos sagrados direitos de índios e garimpeiros?
“O destino da Amazônia é uma coisa muito séria para ficar na mão de meia dúzia de caciques”. diz ainda o jornal.
Mas, senhor jornalista, o espaço lá é o maior do país. Só não vai quem não pode, não quer e tem medo.
É essa meia dúzia que, bem ou mal, tranqüiliza o Governo a respeito dos saques e aproveitamentos que estrangeiros sabidos, até bem pouco tempo, faziam com toda liberdade de ação, lotando seus aviões e retornando às origens, abarrotados de pedras preciosas, de ouro e outros minerais valiosos, de que a Amazônia é ventre inesgotável.
Essa meia dúzia para lá conseguiu levar o projeto Calha Norte, cujos destemidos soldados guarneceram 6500 km de fronteiras, pondo cobro à roubalheira, que por lá medrava.
É essa meia dúzia – composta por Rubem Bayma Denis, Otávio Lacombe, Erwin Krautler, José Belfort, e José Altino Machado – que, com seus inúmeros companheiros, militares, mineradores e garimpeiros, enfrenta diminutas pistas de pouso, má alimentação e doenças regionais, às vezes incuráveis. São homens que, levados pelos seus ideais, pela coragem indômita no domínio de uma selva inóspita, trazem-nos à lembrança as figuras ímpares dos bravos Bandeirantes, os verdadeiros descobridores da nossa terra.
Abençoados sejam vocês, caciques da Amazônia.
Enquanto a corrupção teima em destruir, “quem foi eleito para decidir”, vocês, no íntimo da mata virgem indevassável, decidem e constroem com amor e denodo um novo Brasil.
Aurita Franco Machado Agosto/1988
P.S Escrito há 33 anos
…. Simplesmente por minha Mãe de quem tenho muita saudade. E ao que parece ela veio a meus sonhos para que, dado os últimos acontecimentos de violências do Estado no rio Madeira, induzir-me a republica-lo….
Jose Altino Machado