Quando recebi o convite para contribuir com nossa Gazeta em uma Coluna semanal (debutando nestas exatas linhas portanto!), logo me veio à mente a oportunidade de compartilhar com nossos amigos leitores muitas experiências que vivi quando estive na representação da Polícia Federal na Guiana Francesa, exercendo a função de Agente Oficial de Ligação junto ao Centro de Cooperação Policial Franco-Brasileiro (CCP), no período de 2011 a 2013, morando na cidade de Saint-Georges de l’Oyapock (São Jorge de Oiapoque).
Para início, vamos começar destacando algumas peculiaridades sociais que testemunhamos, e que podem inclusive nos trazer uma boa percepção do contexto da pandemia do Novo Coronavírus (COVID-19) que atinge tanto a região da Guiana Francesa como também o nosso Estado do Amapá.
Em tempos de pandemia, espiar o comportamento dos vizinhos não é algo tão condenável assim, pode inclusive contribuir para a proteção e combate à contaminação generalizada. É o que vamos fazer um pouco agora.
Vi uma pesquisa publicada por “Le Parisien” (26/02/2020), que apenas 76% dos franceses se lavam completamente todos os dias. Essa pesquisa vai além: “um em cada quatro franceses não toma banho diariamente”. Além disso, apenas 25% dos entrevistados “lavam as mãos depois de assoar o nariz”, o que demonstraria o desconhecimento das normas sanitárias básicas, apesar dos inúmeros avisos de saúde pública e do contexto viral atual da epidemia do novo coronavírus. A pesquisa continua apontando que mesmo neste quadro, somente 37% dos entrevistados disseram lavar as mãos ao sair dos transportes públicos, e 71%, do banheiro.
Dados desta semana (25/02/2020) publicados por autoridades sanitárias francesas, dão conta de que a Guiana Francesa é o território francês com maior taxa de infecção do coronavírus entre todas as regiões francesas (ultramarinas e metropolitanas). Este quadro de infecção supera em 2,5 vezes a taxa média de contaminação em relação às demais regiões francesas, tornando-se um real cenário de preocupação, inclusive para autoridades sanitárias brasileiras (especialmente para nós amapaenses, vizinhos bem da ilharga deles). A situação, de fato, é considerada preocupante na Guiana Francesa, indicando que a taxa de contaminação é altamente ativa e crescente.
O número de casos em comparação com o número de habitantes explodiu com 308 casos por 100.000 habitantes contra 88 na semana anterior. O mesmo vale para a porcentagem de testes de detecção positiva (27% em comparação com 22% na semana anterior) e para as taxas de hospitalização, em particular na terapia intensiva, que cria tensões na oferta de assistência. Medidas de combate à pandemia diante destes números estão sendo tomadas na Guiana Francesa. Nesta semana, medidas restritivas foram reforçadas a partir desta quinta-feira (25), com fechamento de bares, confinamentos e toque de recolher.
Do nosso lado brasileiro, com as medidas de isolamento, ampliação das restrições sociais (lockdown), e mais rigor nas regras sanitárias, começamos a perceber a diminuição da curva de contaminação nesta semana. Será que a higiene dos amapaenses tem contribuído também para a diminuição dos números de contaminação por aqui?
A propósito, o período que estivemos por lá confirmamos que os irmãos franceses tomam banho sim, mas nem tanto como aqui.
Jorielson Brito Nascimento
Mestre em Direito Ambiental e Políticas Públicas pela UNIFAP, graduação em Direito pela UNIFAP, gaduação em Licenciatura Plena em Matemática pela UNIFAP, Diretor-Presidente da EAP/AP, Professor de Magistério Superior – Ciências Criminais / Direito Penal, Professor do Programa de Pós-Graduação da FCA, Agente de Polícia Federal – Departamento de Polícia Federal, Ex-Oficial de Ligação da Polícia Federal na Guiana