Lá, rendendo odes ao estribilho do hino que a canta em versos e rimas, havia nas ruas o perfume das flores que vinha das casas simples com cadeiras na varanda e a poesia de todos os ninhos.
A escolinha Rodrigues Alves era ali na pracinha da Igreja Santo Antônio, também de madeira, que um dia o fogo consumiu. No dia seguinte, quando lá cheguei, só restou o sino no meio das cinzas e alguns fios de fumaça que subiam aos céus como sagrado incenso de sândalo.
Nossa, fiquei muito triste, era ali que eu me ajoelhava desde pequenino e dobrava minha cerviz ao criador rogando de olhos fechados e mãos em prece perdão pelos meus pecados que eu ainda não tinha.
Hoje tenho muitos pecados, meu Senhor! Mas acho que tenho um saldo de pedidos de clemência advindos da minha inocente infância. Afinal, meus pecados era fazer minha irmãzinha chorar por causa dos apelidos infames, roubava pêssegos e ameixas da vizinha e estilingava passarinhos.
Ah! Eu também pegava “emprestado” umas flores da vizinha carola para receber um beijinho no rostinho rosado, açoitado pelos ventos minuanos que congelam o meu Paraná. Um beijo da professorinha Neide Lombardi, os olhos azuis mais azuis do planeta azul (“Baikonur chamando Vostok 1, Gagarin na escuta? -Yes, I see the Earth, it’s blue!”) que eu vi até hoje, Lady Di perdia feio prá ela. Meu coração batia acelerado.
Mas depois eu a traí e me apaixonei pela Creuza, moreninha linda dentuça de olhos verdes que sentava na carteira escolar da fileira do lado. Eu aproximava a carteira aos pouquinhos e no final da aula estavam coladas. Ah! O amor é lindo e o primeiro amor ninguém esquece.
A escolinha era conduzida pelas mãos de ferro da notável, culta e sereníssima diretora Lourdes Orlandi Messias. Meus professores eram maravilhosos: profª Neide Bortolossi de português me fez domar o vernáculo; prof. Arthur de OSPB ensinou a gostar de livros, escrever e debater; prof. Joaquim na educação física me fez maratonista de várias medalhas; a prof. Vitória Camillo, chamada de caninana pela molecada de tão brava que era, me ensinou o resto.
Tenho uma dívida impagável com ela. Quando estive à beira da morte prostrado numa cama, ela ia ao meu casebre passar as lições e as provas e aquela brabeza toda era só fachada, porque no fundo ela era só amor e carinho.
Anos depois, quis o destino que eu adentrasse no magistério superior e retribui quando um aluno meu da Universidade Federal se acidentou gravemente. Fui à casa dele passar a prova, assim como outros alunos que adoeceram. Segui o exemplo dignificante da prof. Vitória Camillo, uma negra linda de alma humana, porque alma e amor não tem cor.
Não posso esquecer do magricelo prof. Wilson de Matos, que me fez um “cobra” em matemática. O prof. Wilson parecia um faquir. Acho que passava fome de tão pobre que era (kkk). Andava num fusquinha amarelo caindo os pedaços e morava nos blocos de “apertamento” do BNH.
Quem diria, hein prof. Wilson? Transformou uma lixeira abandonada num dos maiores complexos de ensino de qualidade do Brasil, a Unicesumar! Não queriam dar a ele a lixeira sob o argumento que seria uma “fábrica de diploma”, um tipo de acusação insolente de “pag-peg” patrocinada pelas mentes canhotas estatizantes que assolaram esse país.
Essa plêiade de professores me fez entrar no curso de engenharia civil aos 17 anos numa concorrida universidade federal, sem lenço e sem cursinho, mas com direito ao bandeijão de aluno carente que eu era.
Décadas depois, quando entreguei minha filha Régia sob os cuidados do prof. Wilson para graduá-la em odontologia, ele me reconheceu, mas agora bochechudo com a cara da riqueza e terno de grife:
-Você foi um aluno inesquecível, polêmico e o maior CDF que eu conheci. Enquanto a maioria ficava de recuperação na temível matemática, era muito difícil você não tirar um 10.
O prof. Wilson fez questão de me mostrar um álbum de fotos da festa de reencontro de todos esses professores do nosso tempo da década de 70, sob o patrocínio dele, o Midas contemporâneo do ensino.
Confesso que fiquei emocionado quando revi um a um, agora com os cabelos brancos e os rostos amarrotados como maracujá de gaveta pelas rugas do tempo.
Tenho muito orgulho de ter sido aluno desses professores e me esforcei muito para ser o orgulho deles também. Acho que todos nós conseguimos, não é mesmo?
Bem, vamos falar dos pinheirinhos? Porque cronista é assim, né? Ficava viajando na maionese e se esquece do tema, foge dele como o diabo foge da cruz! Rss.
Vamos lá! Todo dia da árvore era uma festa na escolinha. Os professores e alunos plantavam várias árvores e a escola dava uma plantinha para cada aluno.
Recebi naquele dia das mãos da diretora Lourdes Orlandi Messias uma muda de “araucaria brasiliensis”, conhecida popularmente como pinheiro do Paraná. Pedi mais uma e ela deu, rogando que cuidasse com carinho. Mal sabia ela que ali, naquele momento, plantava uma semente que germinaria um futuro ambientalista.
De tão pequenas, levei-as nos bolsos da minha japona dupla-face que era ostentação na época, mas minha mãe só conseguiu comprar no brechó de um bazar beneficente, pois a pobreza só não era maior que a nossa vontade de vencer na vida.
Cheguei em casa e fui logo cavando as covas. Mas meus pais disseram “nã-na-nina-não”!
-Filho, o pinheiro cresce muito, dá uns 30 metros. É perigoso cair na nossa casa e nos vizinhos.
Apesar dos argumentos convincentes, fique aborrecido senão decepcionado, pois no trajeto da escola mentalizava os pinheiros adultos, lindos, emoldurando o quintal de casa e os deliciosos pinhões assados nas fogueiras das festas de quadrilha de São João.
Eureka! Eu passava as férias escolares na chácara do tio Sebastião e da tia Maria em Campo Mourão. Pensei consigo, é lá que vou plantar. Cuidei bem dos pinheirinhos como uma galinha cuida dos pintinhos. No final do ano desembarquei lá com meus pinheirinhos no bolso.
Eu adorava meus tios caipiras. Eles eram pobres, mas lá tinha três bicicletas, coisa que eu nunca tive na infância. Era para poucos naquela época. E lá eu caçava, pescava e pedalava por tudo.
Meu primo Waltinho (“in memorian”) era um amiguinho inseparável, íamos de bicicleta no distante Barreiro das Frutas buscar sacos de poncã, goiaba e caqui. E na volta tinha o mergulho irresponsável na represa da hidrelétrica Mourão, porque nenhum dos dois sabia nadar.
Daí rodei o mundo como andarilho em busca de estrelas para iluminar meu caminho e conseguir um lugarzinho ao sol para me agasalhar do frio da vida. E para trás deixei tudo só levando na mochila a saudade daquele tempo bom que não volta mais.
Longos 40 anos se passaram, o bom filho venceu na vida com o suor do rosto e retornou à casa gentil.
Assim que cruzei a fronteira do Paraná, pelas janelas do ônibus da Andorinha a paisagem mudou enfeitada pelas lindas araucárias e me lembrei dos dois pinheirinhos que um dia lá plantei.
Meu tio Sebastião era fascinado por árvores frutíferas e ornamentais. Trazia espécies de todos os rincões do Brasil e a sua chácara se tornou um horto florestal, um jardim botânico lindo. Debaixo não se avista a luz solar.
Assim que cheguei na Chácara da rua Lambari, hoje no populoso bairro mourãoense Jardim Alvorada, mas que naquela época ficava lá nos cafundós do Judas onde ele perdeu as botas e o vento faz a curva, a emoção marejou meus olhos e um arrepio correu meu espinhaço.
Lá do meio da rua eu virei a cabeça para cima, levei a mão aos olhos para proteger da luz do sol que apontava no horizonte e avistei dentre aquele bosque cerrado a copa de dois portentosos pinheiros que sobressaiam sobre as outras árvores apontando para o céu.
Caraca! Meus pais tinham razão: cresceram 30 metros ou mais…
Na porta da casinha bucólica na sombra daquela mata viçosa, enfeitada por flores de todos os matizes, avencas, samambaias e orquídeas, meus tios de cabelos brancos curvados pelo peso da idade me aguardavam ansiosos. Choraram de alegria porque certamente projetaram em mim o filho único, Waltinho, que se foi precocemente no vigor da juventude num trágico acidente de caminhão.
Coincidência da vida, no mesmo dia 09 de maio que nasceu minha primogênita Régia, nasceu o primogênito dele, Maicon.
Corri para o meu riacho de águas cristalinas que um dia foi meu, mas meu rio não estava mais lá. E nem a mina d´água fonte de água fresca potável, que era o manancial e orgulho daquele casal longevo que Deus uniu e só a morte separou. A prefeitura desapropriou os fundos da chácara e fez o Parque das Torres, com enormes lagos, pistas e locais de lazer para a comuna. É o preço do progresso.
Sobre o telhado da pequena casa viscejavam os galhos vigorosos de uma enorme figueira, que sombreava até o outro lado da rua. Eu, outros sobrinhos e netos, aconselhamos o tio Sebastião a cortar os pinheiros e a figueira em face do risco iminente. Mas falar em cortar árvore para o tio Sebastião era como chamar pra briga. Quando muito, ele aceitava podar uns galhinhos com uma enorme dor no coração.
Tio Sebastião era um autodidata, com vasto conhecimento e uma oratória imbatível, pensa num caboclo bom de lábia. Ministro cristão fervoroso, sua missão terrena foi cumprida com êxito e ele atendeu ao chamado para reflorestar o céu e auxiliar Saint Peter nos rituais litúrgicos.
Tia Maria, enfermeira parteira das boas, tem as mãos de fadas também na cozinha, onde prepara até hoje no limiar dos 90 anos a melhor galinha caipira da canela seca para o sobrinho doutor. Os outros só gostam de Méqui Dônaldi. Agradeço! Rsss.
Mas a tia Maria que não é tão teimosa, aceitou torar a figueira. Mas os “pinheirinhos do Adirço”, não! Nem pensar!!
Nesta semana, um forte vendaval derrubou um “pinheirinho do Adirço” em cima da casa da tia Maria e a destruiu parcialmente.
Sem problemas, tia Maria! Don’t worry…
Prepara a sua famosa geleia de jabuticaba e seus deliciosos licores de gabiroba e jenipapo, que eu tô voltando…
Torce o pescoço da penosa e põe aquele feijão preto no fogão a lenha, que eu tô voltando…
Tô atravessando o Brasil e vou aí consertar tudo, tá?
Desculpa aí pelos pinheirinhos da minha infância.