Na época, a França tinha cerca de 25 milhões de habitantes. Apenas 10% destes detinham mais da metade das terras e um quarto das rendas do governo (aliás, nada muito diferente do que vemos aqui no Brasil, onde cerca de 1% da população detém 27,8% da riqueza nacional). Além disso, o peso tributário das guerras recaía sobre os camponeses e a pequena e média burguesia urbana.
Como as forças não descansavam e as guilhotinas assobiavam com frequência, ao deslizar para cortar pescoços, era comum que certos textos políticos fizessem alusão a outros e distantes reinos e povos, para disfarçar a crítica feita e angariar a simpatia dos leitores franceses. Afinal de contas, falar contra o Rei poderia levar à pena de morte, normalmente antecedida por tenebrosa temporada em prisões e masmorras.
Com essa conduta, pensadores disfarçavam cotidianas situações narradas em seus textos, descrevendo-as como supostamente ocorridas com outros povos e em outros tempos e lugares. Exemplo disso está nas célebres Cartas Persas (Lettres persanes, 1721), de Montesquieu.
Voltaire também se valeu do artifício, notadamente num pequeno grande artigo, que aqui homenageamos e citamos, intitulado “Do horrível perigo da leitura” (De l`orrible danger de la lecture, 1765), satirizando os que perseguiam os pensadores da época e a nascente enciclopédia. No texto, explorou intensos preconceitos que os povos europeus tinham em face do Império Turco-Otomano.
Valeu-se do momento e do preconceito reinante para criticar o modelo estrangeiro enquanto falava da realidade da sua França para os próprios franceses. Na estória que narrava, citava a suposta opinião estrangeira acerca da imprensa e, de forma impactante, reproduzia a reação negativa que os orientais teriam feito a respeito.
Falava que os críticos diziam que os textos eram perigosos porque facilitavam a comunicação dos pensamentos e dissipavam a ignorância, incentivavam o aperfeiçoamento das artes mecânicas e da indústria e assim o aumento da circulação das riquezas, dizia que chegaria o tempo em que os livros recomendariam a equidade e o amor à pátria e que os filósofos esclareceriam as pessoas do povo, ensinando-lhes melhorias e virtudes, argumentando, ainda, que talvez esses pensadores fizessem diminuir a fé e que os estudos poderiam levar à prevenção e cura de doenças, de sorte que a recomendação final era de que não se lesse livros, nem se ensinasse os filhos a ler e escrever.
Com isso, com inteligência e qualificada fina ironia, mexia com os impulsos mais profundos, gerando uma reação emocional que se forjava no íntimo das pessoas e uma intenção de agir em acordo com as suas intenções.
Assim, na linha do pensamento de Voltaire, será que não encontramos ainda hoje quem resista à ideia de que o povo tenha melhor ensino e mais acesso à leitura e quem manipule as informações e o senso comum do povo?
Ainda hoje há quem fale dos perigos da leitura, como se a cultura e o senso crítico não fossem libertadores da alma humana contra a tirania da palavra de um só homem ou de um só pensamento.
Será que a verdade verdadeira é menos fácil de ser entendida e aceita do que a sua versão que jogue com elementos sutis, como o nacionalismo ou inimigos imaginários?
A intolerância nunca produz lúcidos e saudáveis resultados… Se todos gostassem do azul, o que seria das demais cores? Onde está que um é melhor que outro? E se quem gostar do azul for a maioria hoje e a franca minoria amanhã? Se um governo acha que pode queimar livros por este ou aquele motivo, como se resistirá quando outro governo achar que possa queimar outros livros? O Nazismo e outras bandeiras ditatoriais fizeram isso!
O livro pode ser um simples objeto para alguns, talvez até obsoleto ante as realidades contemporâneas de inegável valor e moderna tecnologia.
Contudo, os livros modernos são da mesma família daqueles que inscrevem e registram a história da humanidade, as guerras e as épicas batalhas de Tróia, na Odisséia de Homero, dos que falam da Mitologia Grega e que traduzem a influência e descendência da cultura Greco-Romana para a história e a cultura ocidentais. Registram história e cultura de todos os continentes, de todos os povos e de todas as línguas. Revelam os livros as maravilhas do pensamento religioso do mundo, as técnicas medicinais dos tempos antigos, ensinamentos de toda sorte e as viagens transcontinentais que uniram reinos, culturas, povos e nações. Um mundo de informações registradas em tipos, em manuscritos, em várias línguas, em vários tempos. Nada disso pode se desperdiçado ou subvalorizado: é a história da humanidade e somos todos seres humanos.
Ainda hoje se faz útil e merece difusão e festejo as palavras de Voltaire no texto intitulado “Os perigos da leitura”, pois traduz de algum modo a ideia de que “é preciso sair da ilha para ver a ilha”, ou seja, de que é mais fácil vermos o que ocorre noutras paragens do que reconhecer o que ocorre onde estamos, onde vivemos e do modo com que pensamos. Mais fácil, portanto, apontar os dedos para outros do que apontar a si mesmo um dedo autocrítico. Mais fácil ver o outro do que se olhar no espelho.
Enquanto acharmos que o perigo e o culpado são os outros, não teremos empatia com esses. Enquanto acharmos que a nossa comida é a mais correta, criticaremos outros diferentes hábitos alimentares. Enquanto questionarmos a cultura de um povo achando que a nossa à dele se sobrepõe, erigiremos barreiras e muralhas culturais, mais agressivas do que as reais, fomentando batalhas ou servindo como arraigados preconceitos.
Ademais, um detalhe não pode ser esquecido, o dinheiro, o capital e as empresas transnacionais não tem e não veem fronteira e atuam cada vez com mais desembaraço nessa economia mundializada, naquilo que chamamos de globalização.
Dizia-se que “o dinheiro não tem cheiro” e hoje se pode dizer que “o dinheiro não tem fronteiras” e disso se vale para se impor nos locais onde as guerras e a fome e a miséria e os embargos culturais se fazem presentes, flexibilizando o câmbio, desvalorizando moedas e ativos e dominando com mais facilidade povos e economias regionais, com uma habilidade maior do que faziam os tradicionais tanques e baionetas e, silenciosamente, sem uma bala disparada, causando mais estragos do que as guerras convencionais e com um outro atrativo, sem chamar a atenção dos povos.
Claro que o perigo está na “não leitura”. Que, portanto, cada vez mais se leia para se construir argumentos críticos com os quais tenhamos opiniões sólidas e embasadas, para poder promover debates qualificados, poder questionar os pensamentos e os pensadores e poder capacitar e qualificar os discursos que hão de promover melhorias e mudanças. Que valorizemos as “virtudes” da leitura e do livre pensamento, possibilitando que cada vez mais se possa compreender todas as mensagens que se nos são direcionadas, para ser donos das nossas vidas e dos nossos individuais destinos e não escravos de dogmas aprisionadores e que contrariam a ideia de homens livres, uma das razões, aliás, que levaram à Revolução Francesa e se inscreve na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789. Que mais sintamos prazer na leitura e que muitos mais se deixem envolver nesse maravilhoso hábito!
Rogerio Reis Devisate.
Advogado. Defensor Público/RJ junto ao STF, STJ e TJ/RJ. Palestrante. Escritor.