Sempre tive um carinho muito especial por velhos. Lembro-me que quando eu era criança, ficava encantado observando lá em Formiga (MG), cidade onde nasci, velhinhos que ficavam na praça jogando cartas ou conversando fiado; quedava-me olhando e pensando: Meu Deus do céu, quando eu crescer quero ser aposentado. Na verdade, acho que o primeiro projeto que tive para minha vida foi ser aposentado, de preferência do Banco do Brasil; e ainda mais animado ficava por ver que a velhice traz direitos maravilhosos, quando a juventude é cheia de obrigações. Dias atrás mesmo, estava pensando como é difícil você ser jovem e você ter o direito de se cansar, tão diferente do velho que pode ficar cansado a hora que quiser, pode deitar a hora que quiser, e também pode dormir a hora que quiser. O máximo que vai ter é filho batendo em suas costas dizendo: “liga não, mamãe está velha”.
A juventude tem uma agenda tão pesada, que muitas vezes não se tem nem se dá o direito de envelhecer, a velhice não lhes acontece, e ainda os engana com visão de eterna. Mas, em futuro bem próximo, por mais que se torne um pretenso velhinho esperto, muito esperto, não haverá como fugir disso, mesmo não aceitando o envelhecer. E mesmo que não a sinta chegar, por mais que seja animado, atilado e fogoso, estará se deparando com sua doce inutilidade. E na vida nós todos temos que viver essa passagem desconcertante da inutilidade. Uma ironia. Sei que a palavra é pesada, mas este é o movimento natural da vida. Perder a juventude é de alguma maneira também perder a sadia utilidade, consequência também natural da idade em que se chega, quando o tempo sopra sobre nós essa poeira dos anos e tempos passados. Quando se vai perdendo as habilidades e as destrezas de jovens, haverá todos que se experimentar esse ócio inútil que a velhice proporciona. Mas, que se veja pelo lado bom, a gente tem que ser otimista no raciocínio, até porque ser útil a outrem é coisa muito cansativa. Está certo, nos realiza, humanamente falando é interessante se saber fazer as coisas, mas acredito que ter utilidade aos outros é um território muito perigoso, porque muitas vezes a gente acha que o outro gosta da gente, mas não, ele está é interessado naquilo que a gente faz por ele.
É por isso que passando pela inutilidade na velhice, apenas fica o significado como pessoa. Acho que é nesse momento que a gente se purifica. É o momento em que se vai ter a oportunidade de saber quem nos ama de verdade e aquele que mesmo durante ela, descobrirá a importância de nossa presença.
“Ainda mais que muitos hoje, na busca do amor também temperado e dosado pelo sexo, são tomados pelo preconceito, e seletivos ao julgar pela idade, não dão oportunidade a si próprio, à pessoa e ao momento” (JA)…
Por isso sempre peço a Deus… Sempre faço a Ele a oração de poder envelhecer ao lado das pessoas que me amem, aquelas pessoas que possam me proporcionar tranquilidade em ser inútil, mas ao mesmo tempo não perder a estima. Quando eu viver aquela fase na vida, de ponha o Padre Fábio (e o Zé Altino) no sol, tira o Padre Fábio (e o Zé Altino) do sol, pedirei a Deus sempre a graça de ter alguém que lá me coloque, mas, sobretudo alguém que vá me tirar depois. Alguém que saiba abrigar a minha inserviência, alguém que olhe para mim e que saiba que eu já não convenho a muita coisa, mas que continuo tendo valor.
A vida é assim… fiquem prudentes. Se quiserem saber se o outro te ama de verdade, é só identificar se ele seria capaz de tolerar a sua inutilidade, pois é assim que se depara com o amor.
Com certeza só mesmo o amor nos dará condições de cuidar do outro, até o fim. Por isso, feliz aquele que tem, ao crepúsculo da vida, a graça de ser olhado nos olhos, e ainda ouvir com ternura se dizer: “Você não serve para nada, mas eu não sei viver sem você”.
Ps: Legal, recadinho a vida conjugal via Gazeta, pois mês passado completei 79, beirando o 8.0, minha atual mulher tem 43, são agora 25 anos de boa amorosa relação, mas é bom seguir com cuidado se merecendo amor. Família do Jose: Oito filhos, treze netos e dois bisnetos