Vou falar sobre pandemia. Sei que vocês estão cansado de ler sobre pandemia do Coronavírus, mas eu não podia ficar de fora, né? Meus leitores, meus amigos de copo e de cruz estão me cobrando, pois todo mundo está escrevendo sobre.
Como eu não tenho cabedal científico para falar da doença Covid-19, vou falar de uma das minhas cadelas, que se chamava Pandemia.
Lembro que na infância tinha um coleguinha na escola que era meio “avoado”, um pequeno gênio autista, que se dava com poucos amigos. Eu era um deles e a gente dividia nossas doidices.
Certa feita a linda professorinha de olhos azuis da cor do céu, Neide Lombardi (me beijava a bochecha), passou redação. Era início de setembro no Paraná, na pracinha da Igreja Santo Antônio outrora de madeira, que um incêndio deixou apenas o sino sobre as cinzas, onde eu dobrava meus joelhos em temor a Deus, na sinfônica Maringá, ficava nossa linda escolinha de madeira (Rodrigues Alves) ornada com cerca viva de papoulas vermelhas, cachos dourados de sibipirunas e vasos de flores. O tema foi A Primavera.
Meu amiguinho doidinho levou um pito: “Eu tenho uma PRIMA chamada VERA…”.
Olhos azuis não entendeu o espírito da coisa e não viu ali o desabrochar de um cronista!
Doidinho não teve a perspicácia de comparar a beleza da moçoila com o fulgor da primavera, senão teria amolecido o coração da olhos azuis, a destinatária de minhas flores roubadas. Merecia maçãs que eu não tinha nem para comer.
Meio século depois estou a copiar o doidinho (hoje um jornalista famoso, omito o nome por causa de um tal de “bullying” e esse adjetivo pode me render um processo) quando me pediram uma crônica sobre a pandemia: “Eu tenho uma cachorra chamada Pandemia…”. Égua, a leseira não acabou!
Tenho uma matilha lá em casa. Entrar é fácil, só pular o muro. Difícil é sair sem os fundilhos rasgados! Quem não tem cão não gasta com veterinário, mas não sofre penhora da Justiça do Trabalho.
As lambidas, o abanar de rabo, sorrisos festivos e latidos efusivos fazem valer a pena. Não importa se os cães afoitos arranhem a porta do seu carro (Polaca, labradora filha da p…) ao dar boas vindas! Faz parte!
O que tem essa história canina a ver com pandemia? Ora, como vocês sabem, cronista tem a liberdade de conversa com as estrelas, com seus cachorros e consigo mesmo! A professorinha de olhos azuis não sabia disso, mas doidinho era um cronista raiz!
Há algum tempo ganhei uma cadelinha que fora rejeitada pela mãe e outros cães. A cadelinha tinha estirpe: a mãe pastora alemã e o pai um feroz pit bull terror dos “manos” do bairro Goiabal.
Quando a vi, um farrapo, confesso cogitei pecar rejeitando-a. Minha netinha Belinha, pidonha sentimental incorrigível, não deixou! Temi levá-la ao meu canil, digo, à minha casa, a Toca do Pinguim, um pequeno paraíso que Deus me deu para curtir a aposentadoria e meu final de vida, ali nas matas do ramal da Ilha Mirim, repletas de tucanos, de bem-te-vis, sabiás, sanhaços, periquitos, papagaios, araras, iguanas e … cobras (uiii).
Os pastores Benji, Lenita e Balena, o basset paraguaio Tiziu, o rasga-saco Todo-duro e a labradora Polaca a receberam de patas abertas aceitando-a na família, uma adoção à brasileira, aquela sem maiores formalidades.
Com amor, vitaminas e ração premium (uiii meu bolso), Pandemia se emponderou (termo em voga) e danou a comer chinelos, pé de mesa e de cadeira, o calcanhar dos visitantes e o para-lama do bólido esportivo comunista, que morro de ciúmes.
Batizei-a de Pandemia porque destruía tudo, mas Belinha não concordou com “vô Dilxo”:
-Não, “vô”! Pandemia não! Credo! Que nome feio…
-Então tu dás o nome?
Belinha, mais rápida no gatilho que um mocinho de faroeste macarrônico, encurtou o nome:
-Panda!
A genial Belinha viu em Pandemia, fofinha, peluda e com manchas brancas, sua ursinha panda de pelúcia, presente da vó Help.
Dessa forma acabamos com a Pandemia lá em casa. E assim, vivemos felizes para sempre…
Ahááá! Pensou que acabou, ãh? Mas a história não acaba aí. Eliminamos Pandemia do nosso dicionário canino, mas não de nossas vidas. Apareceu a letal pandemia do Coronavírus.
Mudou tudo da noite para o dia. Fomos cerceados dos nossos passeios no shopping para devorar pizzas Hut, gigantes Burguers Kings e melosos milk-shakes, passeios na lancha Lady Neguinha, nos paraísos fluviais Amazônicos como a praia do Recanto da Aldeia na Ilha de Santana. Necas Beto Carrero e Balneário Camboriú nas férias.
Ficamos todos em isolamento, aulas suspensas nas Universidades e o sonho de colação de grau dos meus alunos (e a prometida garrafa de Chivas sobre a mesa na outorga) ficou para um futuro incerto.
Mas o pior estava por vir. O Coronavírus não era gripezinha coisa nenhuma, senhor presidente! Passamos a perder vários amigos, gente do círculo íntimo, gente “importante”, gente anônima, pobres e ricos, pretos e brancos. A pandemia nos deu uma lição que todos somos iguais, que somos pó e ao pó retornaremos, não importa o número de dígitos da nossa conta bancária ou o paletó de linho que você usa.
O homem, dito “homo sapiens” (e também a “mulher sapiens” segundo uma erudita ex-presidente), soberbo, “se achando”, tomou uma lição tremenda porque os mais renomados laboratórios e cientistas mundiais curvaram a cerviz para um microscópico “ser” inferior. Toda a fragilidade humana foi exposta nessa pandemia.
Um famoso repórter brasileiro, Roberto Cabrini, fez exaustiva matéria sobre o combalido sistema de saúde do Amapá e tentou encurralar as autoridades locais!
Mas como cobrar do pobre Amapá eficácia contra a pandemia se cidades portentosas de séculos como Roma, ricas como Nova Iorque, países endinheirados com os maiores IDHs do planeta sucumbiram diante do Coronavírus!
Ficamos com a “bunda de fora” diante da pouca vergonha que é a saúde do Amapá: instalações precárias, faltam leitos, UTIs, respiradores, esparadrapo, gaze e reles paracetamol. Não muito diferente de outros Estados brasileiros. Isso é uma vergonha! Um cenário de guerra, com hospitais de campanha e insumos a preço de ouro… Ruuuummmmmmmm! E tome gente morrendo!
Os gestores mataram CPFs por omissão e adotaram medidas administrativas tão equivocadas como drásticas sepultando inúmeros CNPJs por desconhecerem tanto a doença como sua profilaxia, nos deixando atônitos pela ignorância no âmbito econômico.
A panaceia foi o “lockdown”, somado a outras medidas inúteis senão inócuas pra inglês ver. Perdão se eu estiver falando besteiras, mas como adverti no começo, essa não é minha praia.
Comércio fechado por 4 meses por quê? Morreu algum caixa dos supermercados que não fecharam! Jogaram para a torcida do Maracanã cheio (que saudades, falsificaram até o grito da torcida)!
Assim, as medidas contra a pandemia geraram consequências piores que o próprio vírus! Agora vamos ter que lutar contra essas consequências econômicas, cujo reflexo direto é a fome, mitigada pelas ajudas emergenciais do Governo Federal. Mas até quando?
Além disso, os recursos orçamentários poupados com as amargas reformas que atingiram mormente a ralé foram para o beleléu, complicando sobremaneira o país já quebrado por sucessivas e inconsequentes gestões da esquerda e a roubalheira toda que levou, pela primeira vez, peixes graúdos para a cadeia (…nunca antes nesse país…), inclusive um ex-Presidente da República.
E eu, que me isolei o tempo todo, de repente me vi obrigado a ser solidário com um candidato a prefeito e com o meu partido político. Vacilei e proferi dois discursos, em uma única noite, em dois ambientes fechados, seguindo o protocolo em cima do palco. Mas quando desci dele, a multidão me abraçou, beijos, cumprimentos, protocolo rasgado!
A consequência foi uma semana de febre e dor de cabeça. Testes rápidos negativos que custaram uma “baba” para o contribuinte. E dê-lhe febre! Que gripezinha nada, senhor Presidente! A tomografia computadorizada denunciou 25% do pulmão já tomado.
Cá com meus botões pensei: chegou minha hora. Olhei para trás e vi que fiz pouco! Conversei com Deus e lhe disse:
-Deus, me deixe fazer mais. Ainda é muito cedo para partir.
Deus coçou a barba e olhou sério para mim:
-Mas que atrevimento, não? Quem és tu, ó insignificante vertebrado, para dizer que é cedo ou tarde? O seu destino está traçado pelas minhas mãos!
Passando um filme da minha vida, concluí que tive mais acertos que erros, realizei sonhos, ensinei muitos, promovi justiça, fui correto e probo, tive mulheres, filhos e netos maravilhosos.
E no plano material, na minha efêmera passagem pela terra, o Grande Arquiteto do Universo deu àquele franzino engraxate que circulava pelas ruas de Maringá muito mais do que ele precisava para viver.
Evidente que sempre é cedo para morrer! A morte, uma das poucas certezas que o ser humano tem por ter um cérebro privilegiado dentre os animais, vem bater à nossa porta. Todo mundo tem seu dia, mais cedo ou mais tarde. A gente não se conforma com o “quando”, com o “porque”, com o “modo”.
Na década de 80 eu pescava em Barão de Melgaço no Pantanal Matogrossense, quando presenciei a morte do velhinho pai do meu amigo anfitrião. Com a face serena e a máquina parando aos poucos, como um carro quando acaba a gasolina, o pantaneiro morreu como um passarinho, discreto sorriso de poucos dentes no rosto, nos braços dos filhos bem criados.
Viveu uma vida simples naquele seu mundo maravilhoso de tuiuiús, jacarés e saborosos pacus. Missão cumprida, os filhos não choraram. Mas eu escondi debaixo dos óculos escuros um pequeno igarapé de lágrimas porque cedinho, de manhã, o bom velhinho me fez um café caboclo que nunca esquecerei . Uma morte digna! Mas há mortes indignas? Certamente que sim, mas no espectro biológico morte é morte e acabou, tirou o fio da tomada.
Há dois anos tive um encontro efêmero com ela em um acidente de moto, uma das minhas paixões! Foi muito rápido, não deu tempo nem de passar a sinopse, muito menos o filme (kkkkk)! Ralei-me todo, mas não era minha hora.
Com o Coronavírus a minha morte seria uma lenta agonia, o pulmão sendo tomado aos poucos, em deficiente oxigenação e logo bye bye! Mas morrer de Covid-19 não é nada legal, você não pode nem oferecer um cafezinho para os amigos, caramba! Sem direito às carpideiras nem aos choros sinceros, velas ou a bandeira do Corinthians sobre o peito. Ninguém vai ver mesmo!
Bem, fiquei isolado, minha empregada doméstica me abandonou porque Coronavírus é hoje o que fora a lepra no século passado. Restou-me o fiel escudeiro o caseiro Jonis Neguinho, meu Sancho Pança quixotesco na versão amazônica, enfileirado com meus fidelíssimos cães me cuidando!
E sabe quem ficou o tempo todo ao meu lado, lambendo meus pés para refrescar a minha febre interminável? A Pandemia, agora batizada de Panda.
Panda me olhava com o mais profundo olhar triste, como a me perguntar o que se abatera sobre mim.
-Por que meu dono não corre mais comigo pelas matas, lagos e igarapés ao redor da Toca do Pinguim com o resto da cachorrada?
Do lado de fora da porta de vidro, sorrisos e latidos da Polaca, Lenita, Balena, Tiziu e Todo-duro, velando por minha saúde e querendo entrar, privilégio da Panda.
Levei sorte e fui disciplinado. A genética ajudou e superei os males da pandemia.
E daí veio à minha mente um trecho de Tributo a um Cão que sempre me faz verter lágrimas incontidas: “Quando só ele estiver ao lado de seu dono, ele beijará a mão que não tem alimento a oferecer, ele lamberá as feridas e as dores que aparecem nos encontros com a violência do mundo. Ele guarda o sono de seu próprio dono como se fosse um príncipe. Quando todos os amigos o abandonarem, o cão permanecerá. Quando a riqueza desaparece e a reputação se despedaça, ele é constante em seu amor como o Sol em sua jornada através do firmamento”.
Voltei pro final da fila, não foi desta vez que o Capeta levou vantagem!
E assim viverei feliz até o Barba me chamar.
Ah! Sobrevivi para cumprir a promessa de escrever sobre a Pandemia, com direito a plágio do doidinho!
Adilson Garcia
Professor, doutor em Direito pela PUC–SP, advogado e promotor de justiça aposentado.