A fala da ex-presidente Dilma Rousseff são fortes e inspiradoras. Ela não contou histórias colhidas na literatura dos governos ditatoriais. Estava ali contando sua própria história, sorte que muitos que não tiveram. Para sobreviver à tortura, mentiu para poder salvar a vida de seus companheiros de luta. Na última quarta-feira (17), o General Pazuello, diante de interrogadores engravatados da CPI da Covid, coagidos pela plateia raivosa de defensores do governo, sem qualquer instrumento de tortura, danou-se a mentir como farofeiro de esquina, tudo para defender a pele do presidente Bolsonaro.
Pazuello ganhou fama nas pautas políticas por ser um militar que despreza a autoestima militar. Desde que aceitou o desafio de pilotar o Ministério da Saúde, Pazuello pouco se importou com sua reputação e dignidade. Fez tudo que o presidente mandou e desfez, também, tudo o que o chefe determinou. Nunca se viu o General Pazuello se sentir constrangido com o papelão que o presidente lhe conferiu. Ao contrário, sempre deixou claro que quem lhe mandava, sem restrições, era o presidente. A farda militar, sinônimo de competência e determinação, alicerçada nos pilares castrenses, foi humilhada pelo General Pazuello no exercício de suas funções executivas.
Nada, todavia, humilhou mais a farda verde oliva do que o protagonismo do General Pazuello com a mentira no seu depoimento à CPI. Não houve constrangimento no uso da mentira como ferramenta de sua suposta defesa. Negou os fatos mais óbvios, incapazes mesmo de ser utilizado como estratégia até por quem mente como corolário de uma patologia. A ex-presidente Dilma Rousseff afirmou que mentir na tortura é um ato de coragem e dignidade, mas na democracia se fala a verdade. Pazuello, talvez, jamais compreenda a profundidade desse raciocínio. Primeiro, porque jamais deve ter imaginado ser coagido. Segundo, porque desconhece, como militar e oficial, a noção de ditadura exercida pelo outro lado. Nunca se imaginou como lombo, sempre como chicote.
O espetáculo deprimente de Pazuello jamais será esquecido. Tornou-se no imaginário popular “o general da mentira”. No livro “A verdade sobre a mentira”, o escritor Jacques A. Wainberg, sustenta que quarenta por cento das pessoas mente pelo menos uma vez ao dia, fazendo isso por diversas razões, dentre as quais para ajudar alguém. Diz, também, que a mentira é instrumento de trabalho das teorias conspiratórias para bloquear a verdade, algo que facilita a difusão paranoide da falsidade. Pazuello virou um general da mentira com 3 estrelas que abusa da faculdade de mentir, tudo para ajudar o presidente e as teorias conspiratórias. Jacques A. Wainberg acertou em cheio.