Já tentaram conversar com uma porta? E convencê-la?
Essa exagerada imagem poderia nos levar a dizer “penso, logo desisto”. Fácil perceber que tem a influência da clássica frase “penso, logo existo”, de René Descartes, contida na obra Discurso sobre o método, livro de 1.637, que revolucionou a filosofia ao iluminar os caminhos das dúvidas às certezas, na mente pensante. Descartes pesquisava “a verdade” e percebia que essa seria alcançada se driblasse os enganos que lhe sugeriam os seus sentidos, as falsas premissas e as falsidades que percebia.
Pensando e, assim, sozinho decidindo, se afastava da incerteza e da ilusão que o contexto lhe proporcionava. Passava a ser dono do seu destino e a assumir a responsabilidade por suas decisões.
De modo semelhante, Shakespeare nos provocou com o seu famoso “ser ou não ser, eis a questão”, que também nos grita pelas nossas decisões, nessa encruzilhada de emoções e reflexões que é a vida, exigindo-nos raciocínio para decidir sobre o caminho a seguir.
Sem nos alongar, por fugir ao objetivo de um mero artigo, parece que chegamos a uma encruzilhada, no mundo ocidental, onde menos se valoriza a razão e o grito por uma ideologia para se viver, havendo menos leitura, menos reflexões e menos debates e aprendizado profundo, já que, inclusive, o tempo não sobra para ser dividido entre essas atividades e o mundo das distrações, ilusões e coisas efêmeras.
Na contramão, a Suécia voltou a investir na compra de livros impressos – tradicionais, em papel, portanto – para substituir os tablets. A real grandeza do significado dessa decisão só se percebe quando se considera que foi o primeiro país a proporcionar educação 100% digital aos jovens! Estaria “voltando atrás” ou corrigindo rumos para caminhar adiante? Autocrítica é sinal de sabedoria.
O sentido não é muito diferente da decisão que proíbe celular nas dependências dos colégios – noticiado pelo Município do Rio de Janeiro.
O mesmo contexto está em matérias relacionadas à geração Z e ao mercado de trabalho, havendo referências a jovens que levam os pais às suas entrevistas de emprego, relatos sobre dificuldades em olhar nos olhos, observar hierarquia, atuar em dinâmicas de equipe, irreais perspectivas salariais, etc.
Avançando um passo, a internet deu voz a todos. Repentinamente, vozes se pronunciam sobre tudo e um culto à imagem parece prevalecer sobre o que deveria estar em textos.
Currículos fartos são desprezados, exatamente por ser longos demais, em tempos onde uma “foto de selfie” consegue receber milhões de curtidas e ser alçada ao tapete vermelho.
Na política não poderia ser diferente. A realidade de pertencimento a um grupo nos leva a fazer e agir cada vez com mais intensidade, mais para consolidar o contexto. Não se reconhece erros ou se faz autocrítica, parecendo que se cava cada vez mais fundo: sempre em frente! Parece que cenas se repetem, onde se age como alguém que, para merecer os aplausos, fizesse exatamente o que os motivaria. Ocorre que os aplausos tendem a ser espontâneos e, por isso mesmo, tudo fica démodé se não os gerou por sua autenticidade e sim por esse movimento que se auto alimenta – e satura.
Gostamos de nos sentir confortáveis e o melhor e mais seguro é agir conforme uma maioria, um grupo ou movimento que nos envolva. Por outro lado, criticamos exatamente isso quando percebemos que se fala ou age só e tão-somente por se pertencer a um grupo, sem que se possua as premissas racionais para a sustentação dos discursos. Criticamos a integração de um indivíduo ao rebanho alheio, não percebendo o quanto somos membros de outro rebanho. No fim, rebanhos por rebanhos, vamos todos para o abate!
Observamos, não raro, repetições de fórmulas, de ideias conceituais e de frases de efeito, sem que um bom debate possa ser alimentado. E, convenhamos, não se debate, exatamente, para se convencer alguém ou se impor ideias, mas para se aprimorar o pensamento, trocar experiências, visões de mundo e entendimentos e por uma sabedoria coletiva.
Ora, se isso não é possível porque partes têm a preconcepção de que estão absolutamente certas – e, portanto, as outras, absolutamente erradas. Nessa linha, sequer haveria mesmo a necessidade de se abrir diálogo, crítica ou autocrítica ou se revisitar conceitos e atos e ações, significado dizer que o radicalismo impera – mesmo com aqueles que se dizem contra radicalismos alheios. Isso é curioso, porquanto se vê no outro aquilo que não se vê em si.
Os contextos de manipulação da informação e do exercício do poder tratam disso, na medida em que não é preciso que se dê a mão para os seguidores… basta que se lhes dê a ilusão de estar dando, sozinhos, o primeiro passo… e seguirão adiante, como que programados.
Uma dúvida nos assola: fazemos isso por sensação, mesmo, de pertencimento a um grupo ou por medo de pensar e decidir sozinhos?
A indagação vem em decorrência da ideia de que nem sempre concordaremos com tudo o tempo todo, já que nos transformamos e nos aprimoramos ao longo do tempo, inclusive com o surgimento de novas necessidades e perspectivas, sejam familiares, profissionais, financeiras, políticas ou geográficas.
De qualquer modo, errar em grupo nos alivia e nos tira o peso da consequência, afinal, “todos caímos nessa”.
Do mesmo modo, desvaloriza-se o que é barato ou grátis, como o banho de mar ou uma guloseima comida à beira da estrada, valorizando-se, sobremaneira, um vinho caro e uma custosa hospedagem ou viagem. Suponho que, tampando os rótulos, nem todos sejamos capazes de distinguir o sabor de um vinho caro de um mais barato… pagamos caro para tentar compensar nossas fragilidades.
Olhemos ao redor. De braços cruzados ou com posturas outras, defensivas, somos como portas fechadas e trancadas. Estamos aptos a nos abrir, tendendo a fazê-lo quando podemos brilhar e sufocar o outro. Somos como portais de dominação, que tiranizam os outros, convidando-os a entrar e aí trancando-os nas sombras que podemos lhes projetar. Somos como células devoradoras de outras, envolvendo-as no nosso abraço mortal. Se não agimos assim, somos as vítimas. Esse é o jogo que temos visto, distante das conversas e diálogos onde, mesmo discordando sobre tudo, as partes conseguem conversar, rir e se tratar com iguais.
René Descartes talvez se surpreendesse com o que temos visto. São, de fato, tempos curiosos, onde parece que toda a complexidade humana tem transbordado nas redes, onde é coada e transformada em suco doce e alienado, bom para consumo.
Discutir, debater, conversar, nos integrar, exige diálogo, debate, olhos nos olhos. Estamos divididos, fracionados e colocados uns contra outros, cada vez menos orgânicos na nossa nacionalidade acolhedora e mais agindo como se tivéssemos tido guerra civil que ainda nos cobrasse contas pretéritas.
Quem ganha com isso?