Mesmo nos idos do século XV para os albores do século XVI, não era todo mundo que conhecia Pero da Covilhã. O sobrenome advinha da vila portuguesa da Covilhã, seu local de nascimento. Juntamente com Afonso de Paiva, foi espião e assassino a serviço do rei d. João II, neto de Dom Henrique, o Infante de Sagres. Ao assumir o trono, el-rey d. João enfrentou forte resistência por membros da aristocracia lusa, a qual brutalmente sufocou. Dom João ele próprio matou a punhaladas seu cunhado, d. Fernando, duque de Bragança, irmão da rainha e o mais poderoso dos nobres lusitanos. Para completar a tarefa, contratou os serviços de Pero da Covilhã, um aventureiro destemido e assassino profissional que viria a ser seu escudeiro, além de desempenhar papel importante na espionagem comercial e na coleta de informações sobre navegação pela costa oriental da África, na busca do Caminho das Índias.
Na era dos descobrimentos, o petróleo eram as especiarias, temperos tipo pimenta, canela, açafrão, além das sedas, outros tecidos, artefatos, e mais ouro, prata, marfim, metais e pedras preciosas. Os italianos e os judeus dominavam o comércio internacional e as finanças, com grandes empresas mantendo intenso tráfico com o oriente a partir dos portos em Gênova, Milão e Veneza.
A tomada de Constantinopla em 1453 pelos turcos otomanos fechou as rotas para o oriente e os preços das especiarias e mercadorias importadas subiu astronomicamente. Portugal, Espanha, Inglaterra, França, Holanda, todos buscavam freneticamente novas rotas marítimas que lhes assegurassem escapar da pobreza e do desabastecimento.
D. João II, tendo conseguido livrar-se de seus opositores, comissionou Pero da Covilhã e Afonso de Paiva a buscar o caminho das Índias pela costa oriental da África. A Pero, d. João especificamente determinou que descobrisse rotas que lhe permitissem estabelecer comércio com o oriente sem ser preciso enfrentar diretamente os mouros e, ainda, que fizesse contato com um mítico país cristão em África, na região da Etiópia. Era o lendário reino do Preste João, soberano católico que poderia aliar-se aos portugueses no combate aos mouros muçulmanos.
Segundo relatos mais ou menos precisos, o espião e aventureiro não só encontrou o reino do Preste João, como lá ficou durante vinte e seis anos. Morreu em terras africana sem retornar a Portugal, porém feliz com a confirmação da tese que defendia de que a Terra era redonda, trazida pela notícia dos grandes feitos do genovês Cristóvão Colombo, o qual, ao não conseguir financiamento português para sua expedição, veio a ser acolhido pelos reis católicos de Espanha e acabou descobrindo a América. Pero também exultou sobretudo com os relatos dos grandes feitos dos navegadores lusos, dentre eles Vasco da Gama, Bartolomeu Dias, Fernão de Magalhães e Pedro Álvares Cabral. Este último, ao ver os sílvícolas brasileiros, achou que tinha conseguido chegar às Índias, razão pela qual chamou o povo que assomou às praias baianas de índios.
Pero da Covilhã, mesmo nos dias em que andava pela Terra, fez questão de se manter pouco conhecido. Fluente em diversos idiomas, falava árabe com muita desenvoltura, o que lhe assegurou espionar para o governo português em regiões onde ser reconhecido como europeu e cristão era praticamente uma condenação à morte. Em tempos atuais, equivaleria a alguém aparecer pregando o Evangelho em área dominada pelo Estado Islâmico. Nosso herói foi, na era das grandes navegações, uma espécie de James Bond lusitano.
À minha frente, sete andares abaixo de mim, desdobra-se o deslumbrante cenário da praia de Copacabana. Com a cabeça cheia das peripécias de Pero da Covilhã – o 007 do tempo das caravelas -, vejo o mar despejar na areia seus beijos de amor em águas verdes orladas de espuma branca. Parece ser um gigante usando um descomunal traje esmeralda com debruns de renda branca nos punhos das mangas.
Este mar oceano do século vinte e um continua sendo o mesmo quinhentos e tantos anos depois dos tempos heroicos dos descobridores, dos crimes praticados por monarcas e seus escudeiros, das intrigas palacianas, das justas e cruzadas, das seculares procissões, dos calções de seda e perucas empoadas. No horizonte a imaginação ainda permite descortinar lá longe, bem longe, velas enfunadas com a cruz de malta estampada. Trazido pelo vento, quase dá para ouvir os brados de alegria quando o vigia desperta estremunhados marujos ao gritar do alto da gávea: terra à vista!
Rui Guilherme
Juiz de Direito e Escritor.