Alves-Mazzotti e Gewandsznajder (1998) questionam a natureza jurídica das ciências sociais enquanto ciências, com breve esboço histórico sobre ciência e método científico.
O empirismo lógico prescrevia que os termos observáveis deveriam ser testados para verificar se eram falsos ou verdadeiros. A atividade científica ia construindo indutivamente as teorias, transformando as hipóteses. A observação de fatos e fenômenos, a lógica e a matemática determinavam a apresentação da linguagem.
A constituição da ciência obrigava à objetividade, neutralidade e racionalidade de mesma forma que constituía a credibilidade das ciências naturais.
O relativismo sofre crítica, pois a filosofia contemporânea questiona a objetividade da observação e a legitimidade da indução. A impregnação da observação pela teoria pela própria teoria e por aquela em se baseiam os instrumentos utilizados.
As críticas a Kuhn e à Sociologia do Conhecimento contribuíram para abalar a crença na objetiva e racionalidade da ciência.
Houve uma grande contribuição da Escola de Frankfurt, formada por grupo de intelectuais e uma teoria social específica, de inspiração marxista. Para esta escola, o valor de uma teoria depende de sua relação com a práxis. Para ser relevante, uma teoria social tem de estar relacionada às questões nas quais, num dado momento histórico, as forças sociais mais progressistas estejam engajadas.
Os impactos dessa escola nos métodos utilizados nas ciências sociais dar-se-iam somente duas décadas depois, quando o positivismo decaiu.
Eis que surge um severo debate entre os positivistas e os teóricos críticos, dentre os quais Jurgen Habermas.
As críticas à ciência tradicional e o debate após a obra de Kunh (Estrutura das Revoluções Científicas) ensejou a crise dos paradigmas, que afetaram profundamente a maneira de “ver ciência e o seu método”.
Com base nessa descrença, passou-se a adotar o “vale-tudo” proposto por Feyerabend. Nasce na década de 1970 o modo qualitativo de fazer ciência, identificado, inicialmente, como qualitativo-quantitativo.
Daí advêm três paradigmas tidos como sucessores do Positivismo: o Construtivismo Social, o Pós-Positivismo e a Teoria Crítica. Para Guba e Lincoln (1994) é possível identificar a coexistência de quatro paradigmas: Positivismo, Pós-Positivismo, Teoria crítica e o Construtivismo.
A definição de paradigma, ainda mais aceita é a de Kuhn, para quem “paradigmas são as realizações cientificas universalmente reconhecidas que durante certo tempo, proporcionam modelos de problemas e soluções de uma comunidade científica” (Kuhn, 1971).
Assim, por longa data prevaleceu o tipo de postulação nas pesquisas em que os paradigmas, próprios ao quadro positivista, partem da premissa de que para ser considerado cientifico, o estudo precisa demonstrar preenchimento de critérios, requisitos sistemáticos de relevância explicativa e de contrastabilidade empírica, sejam estas de caráter dedutivistas ou geradas através de explicações probabilísticas.
A geração e a acumulação do conhecimento para os críticos vão se modificando durante um processo dialético de revisão histórica. Para os positivistas o conhecimento se acumula como um edifício que vai sendo erguido, enquanto que para as posições construtivistas o conhecimento se equipara às interpretações consensuadas, construídas em um processo dialético.
Evidente que a pesquisa tem que ser escalonada em etapas, elencando elementos que precisam ser levados em consideração na elaboração/análise de uma pesquisa.
Primeiro, há que se identificar o tema e o problema, qual seja, a delimitação, o enfoque ou a abordagem, problematização e contextualização. Isto é, a situação- problema ou a origem que ensejou a pesquisa e as consequentes razões pessoais e teóricas. Importante destacar o contexto onde se insere a dúvida, a contradição aparente e o desafio.
Não se pode olvidar a clareza do problema: a questão a ser elucidada, elementos dela, a justificativa, os objetivos, as hipóteses iniciais ou questões norteadoras, coerência entre este e os objetivos, assim como as opções teórico-metodológicas.
O quadro referencial que esclarece o racional da pesquisa orienta a definição de categorias relevantes e dá suporte às relações antecipadas nas hipóteses, além de constituir o principal instrumento para a interpretação dos resultados da pesquisa.
Por fim, apresenta-se ao mundo científico uma dicotomia entre o cientificismo e objetivismo das pesquisas quantitativas e o não-cientificismo e subjetivismo das pesquisas qualitativas. Aquelas trabalham com números, menos suscetíveis de serem afetadas pela subjetividade do pesquisador, ao contrário das pesquisas qualitativas. Mas isso não lhe retira seu caráter científico.
Tanto uma como outra pode levar a bons resultados se conduzidas por métodos, pressupostos principais dos estudos científicos.
Não se trata, portanto, quando se implementa uma investigação, de conhecer aspectos metodológicos unicamente. Para Valles (1997), o paradigma deve guiar o investigador nos aspectos intrinsecamente relacionados, ontológicos e epistemológicos da investigação, além da seleção de métodos.
A coerência desses três níveis de componentes para diagnósticos, seja em pesquisa quantitativa ou qualitativa, nos levam a investigações que privilegiam os aspectos metodológicos mais apropriados à interpretação de um dado fenômeno social do ponto de vista das versões de seus participantes, sendo ao final do trabalho interpretado pelo pesquisador como uma realidade objetiva.
Quanto aos critérios de avaliação da qualidade das investigações, para os críticos os principais elementos são a contextualização histórica da situação estudada, o grau em que a investigação trabalha com o desmantelamento da ignorância e desmascaramento de preconceitos e ainda, o grau em que os resultados proporcionam estímulos para a ação e transformação das estruturas existentes.
No construtivismo e interpretativismo, os critérios de qualidade não são como os dos modelos das ciências naturais positivistas, mas, devem seguir um rigor interno.
O construtivismo e o interpretativismo tidos como relacionados são também diferenciáveis. Em ambos existem várias versões concorrentes com diferentes embasamentos e pontos de partida filosóficos e teóricos.
No que concerne às características da pesquisa qualitativa, as mais comuns apresentadas por Bogdan e Biklem (1984) são: 1) na pesquisa qualitativa o investigador é o instrumento principal; 2) a investigação qualitativa é mais descritiva; 3) na investigação qualitativa há mais interesse pelo processo que pelos resultados ou produtos; 4) os investigadores qualitativos tendem a analisar seus dados de forma indutiva; 5) o significado é de importância vital para as abordagens qualitativas.
Portanto, podemos concluir que se trata de uma falsa dicotomia entre os métodos qualitativo e quantitativo e que a falta de métodos em si é que resultam em pesquisas frouxas.