As ressacas – como área de risco ou de fragilidade ambiental – tem seus problemas próprios e uma cultura singular. O sonho de todo morador é alcançar o asfalto e mudar de vida. Suas histórias se confundem com a transformação do Território do Amapá em estado, criação da área de livre comércio e a criação da Universidade Federal do Amapá e outras instituições de ensino superior.
Todos migraram para mudar de vida e alcançar uma dignidade, incapaz de ser alcançada em seus lugares de origem. O projeto de vida tem um desenrolar duro e muitas vezes naufraga na frustração.
O índice de desenvolvimento humano dessas áreas é muito baixo. Nela ocorre um fenômeno chamado fragmentado/excludente que consiste na segregação compulsória dos menos favorecidos para essas áreas entendidas como disfuncionais para a economia urbana e de risco para a ordem urbana, segundo Luciana Correa do Lago, arquiteta e urbanista carioca. Tudo isso se traduz na existência de um espaço urbano habitado por pessoas de extrema carência, excluídos socialmente e tidos como ameaças à paz social.
Poucos são os governantes que, de fato, se interessam por essa problemática social. Normalmente em época de eleições as ressacas são pautas obrigatórias de todo candidato a cargos majoritários e proporcionais. Existe militante político conhecido por sua habilidade em dialogar com os moradores das pontes ou ressacas. Esse interesse, contudo, nem sempre se traduz em política pública após as eleições. Mas há sempre uma luz no final da ponte. Recentemente, o prefeito de Macapá, o médico Antônio Furlan, tirou o jaleco governamental e danou-se a andar na ponte.
Em plena pandemia, o prefeito Antônio Furlan faz questão de mostrar sua presença constante nas pontes, fazendo entregas de acessibilidade aos carentes moradores. Conquanto não seja um comportamento inusitado e ainda não se possa medir se será permanente, a presença do gestor trouxe uma preocupação com o futuro, materializada no investimento do lazer das crianças. A entrega de um playground na área de ressaca vira a chave de tudo que já foi feito e revela um olhar diferente, capaz de tirar a emoção de um poeta como Gonzaguinha que, se vivo estivesse, cantaria: “eu fico com a pureza da resposta das crianças, é a vida, é bonita e é bonita. Viver e não ter a vergonha de ser feliz”. Lindo demais!