Há trinta anos, o Brasil sediava a Eco´92, na Cidade do Rio de Janeiro. Já se formava uma estranha relação entre nós, sociedades Amazônidas, e a nova ordem ambiental climática que se impunha com seu colonialismo territorial ambiental, sobre nossas vidas e economias. Nascia uma OTAN Ecológica com novas potências: Greenpeace, WWF, ISA, entre outras. Bradava-se um lema falacioso – “pensar globalmente e agir localmente”.
Ledo engano! Os nossos recursos naturais foram expropriados e nossos territórios econômicos preservados em nome da salvação de nosso planeta e contenção climática de um aquecimento global que nos é infinitamente menor danoso ante a indiferença dos países ricos em reconhecer nossa pobreza e realidades locais, como tema dessa ecocracia da miséria.
Em 1974, a Petrobrás achou uma das maiores reservas de Potássio do Planeta, na Bacia Sedimentar da Amazônia, quando fazia poços profundos, em busca de Petróleos, só em dois alvos no Município de Autazes, no Amazonas, tem reservas já avaliadas superiores a 1 bilhão de toneladas, e estranhamente, a Petrobrás entregou essas reservas para o País que é, hoje, um dos nossos maiores fornecedores – o CANADÁ.
Qual o interesse do Canadá em explorar Potássio numa jazida de 1000m de profundidade, se nós entregamos os dólares para seu governo e geramos os empregos no seu próprio território?
A Vale do Rio Doce, hoje, só Vale SA, tem uma reserva de Fósforo, há mais de 40 anos, no Complexo Maicuru, dentro da RENCA , no Município de Almerim (PA) superiores 200milhões de toneladas de minério de alto teor de fósforo (P2O5) e de mais de 1 bilhão de outras rochas e carbonatos que podem abastecer as lavouras da Amazônia Legal com excelente produção de pó de rochagem (Rochagem é a prática de recuperar a fertilidade de solos pobres e lixiviados através do uso de misturas de rochas, ou pó de rocha), para correção e fertilização de solos agrícolas.
Vale destacar, que o depósito do Complexo Maicuru, possui além das reservas de fosfato, com 15% de P2O5, uma gigantesca reserva de titânio de 5 bilhões de toneladas, com 20% de TiO2 (anatásio), além de potencialidade para Nb, Cu, ETR (Elementos de Terras Raras). Para tornar essa potência mineral em fertilizantes (carbonatitos), entre Almerim e Laranjal do Jari, temos agora, a logística circular das balsas de soja vindas de Miritituba (PA), Linhão de Tucuruí e UHE Santo Antônio, que juntos com a Zona Franca Verde podem viabilizar a produção de fertilizantes termofosfatados a partir das jazidas de apatitito, dunito e arenito (Bacia do Amazonas), que ocorrem na área e circunvizinhanças da Serra de Maicuru.
A ponte do Jari e o asfaltamento da 156, treco Laranjal do Jari – Macapá, tornam-se importante para o agronegócio nacional, inclusive com a projetação da futura Ferrovia do Calha Norte unindo Óbitos (PA) a Macapá (AP). Nessa nova Plataforma Agrícola do Calha Norte, temos um total de 2.000.000ha que não envolvem áreas ambientais ou terras indígenas e que já estão ocupadas e antropizadas, capazes de aumentarem juntamente com a plataforma agrícola do Cerrado do Amapá, adicionando esse novo potencial para produção de insumos agrícolas, em mais de 15%, a capacidade da produção de grãos do Brasil.
O Brasil, já ofertou, de forma generosa e gratuita, o maior território ecológico entre todas as nações do planeta, totalizando 30,2% do seu espaço (257.257.508 há) em áreas protegidas e terras indígenas. O Estado do Amapá, foi ainda mais generoso e já ultrapassou os 74% de seu território, somando as unidades de conservação ambientais e áreas patrimoniais indígenas.
Como podemos debater o aquecimento global com os senhores, cidadãos dessas ricas nações do planeta, se não temos voz; como podemos debater mecanismos de desenvolvimento limpo se ainda não conhecemos meios e condições de formarmos nosso próprio desenvolvimento e nos forjarmos cidadãos globais para ser e participar das decisões e formulações das questões globais ambientais e climáticas. Como servir a causa global se nossas cidades na Amazônia desconhecem saneamento básico, nascem e crescem na informalidade e já não temos mais o simples direito de existir com dignidade e urbanidade? Anoitecemos e amanhecemos com os gritos e sintomas da violência urbana que são reportadas todos os dias nas grandes redes de comunicação, quando não somos nós mesmos, a própria história dessa violência.
Na Ucrânia a violência tem nome e endereço, enquanto a nossa tragédia é protagonizada por inimigos poderosos e inatingíveis – o grande capital e as megas corporações. Na Amazônia, quando as sociedades locais são agredidas por explosões, saiba que foi o próprio Estado que aplicou contra a indefesa sociedade amazônida, esses ataques, só tidos em tempos de guerra. A Ucrânia ainda tem voz e nós, sociedades da Amazônia, que temos direitos constitucionais, mas não somos encontrados pela justiça. Fomos transformados num Brasil Patrimonial e patrimônio ambiental garantidor das falácias dos governos nos últimos 50 anos.
As demandas por Potássio, Fósforo e Nitrogenados do Brasil, continuarão a crescer, sendo que somos um dos três maiores produtores de alimentos do planeta, mas temos uma flexa apontada para o coração do sucesso do agronegócio, pois somos o único desse clube de mega produtores de alimentos, que é dependente em 85% das importação desses insumos agrícolas de outras nações, ou seja, de cada 100 toneladas de potássio, fósforo e nitrogenados que usamos em nossas lavouras, 85 toneladas vêm de outros países. Importamos custos e reduzimos competitividade.
Aprendemos com os ameríndios e destacados por Leandro Tocantins (O rio comanda a vida) que na Amazônia, o meio põe no homem a sua marca e o rio comanda nossas vidas. No Amapá, atualmente, 96% de todas as coberturas florestais primárias estão preservadas, fato que revela a natureza altamente equilibrada que permeia nossas relações entre homem, trabalho e natureza. Nossa existência como sociedades dominiais não pode ser mais ignorada enquanto nosso patrimônio ambiental é tiranicamente retirado de nosso senhoril por uma afetação ecocrática geradora de miséria sem um mínimo diálogo com nossas sociedades locais.
Somos mais, e muito mais, do que ilhas de calor e equilíbrio climático. Em nossas Unidades de Conservação Ambiental há mais do que serviços climáticos, pois infinitas riquezas nelas existem e merecem ser sustentavelmente aproveitadas na construção de nosso desenvolvimento. Queremos ser sujeitos desse debate e merecemos ser parte e participar de nossa existência e destino.
“A terra só é útil ao homem na medida em que ele possui o equipamento cultural, em um determinado lugar ou ocasião, e na medida em que ele sabe utilizar. (…) Todos os povos têm a mesma potencialidade para melhorar a condição social; o ambiente físico em que vivem é apenas um dos muitos fatores que determinam o complexo ajustamento do homem à sua ambiência”, sintetizou bem o antropólogo Charles Wagley.
Como caminho de reencontro entre as sociedades amazônidas, o uso de suas riquezas e a Geosociedade desejamos ser, há que se construir com o conhecimento empírico e científico, uma nova modelagem no reordenamento formal de uso e conservação de nosso território inclusive abrir uma nova base de industrialização e mercantilização de insumos agrícolas ativando a Zona Franca Verde e integrando à nova Plataforma Agrícola e Logística do Calha Norte ao sistema de navegação de longo curso do porto de Santana.
Não há dúvidas de que estamos todos unidos na busca de construir uma geocomunidade mais igual, civilizada e sempre buscando a manutenção um planeta ambientalmente mais sustentável. Para tanto, há que despolarizar a razão ecológica hoje monoliticamente tratada como prioridade dos ricos r do planeta, ante a desconcertante ordem social de pobreza e degradação humana. Há que se mudar o foco para alcançar esse desejado equilíbrio pregado pelo “Climaticídeos”: acesso aos insumos ambientais pelas sociedades ou seja, pensar e agir localmente. A Amazônia e seus insumos ambientais não podem continuar nessa dormência social, em nome de uma cantilena ecológica e ecocrática que só produzem pobreza.
Chega de esperar pelo Brasil! É tempo de agirmos e usarmos nossas riquezas para o nosso presente e, talvez, possamos garantir um futuro para às próximas gerações da Amazônia.
Antônio Feijão
Msc. Geólogo e advogado