Os anjos desde a infância me fascinam. Uma menina, um menino, um pontilhão com tábuas quebradas, um anjo, solto no ar, com suas assas a tudo envolvia – o Anjo da Guarda minha mãe me dizia. E eu, menina, a meditar e mergulhar naquela travessia sobre o precipício em absoluta paz.
Cresci. Como diziam os avós, “o tempo voa”. Permaneci seduzida com a condição alquímica dos anjos. E a medida em que crescia novas indagações surgiam: seria a travessia sobre o pontilhão pênsil esburacado a metáfora das jornadas de nossas existências na Terra?
Amei assistir a filmes com anjos estratosféricos, entreguei-me ao encanto de um novo paradigma em Asas do Desejo, de Wim Wenders. Li poemas, ouvi músicas e cheguei até Paulo (o apóstolo) – um dos mais belos textos bíblicos, em Coríntios 1 – 13.
“Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine.” Assim começa, assim principia… “Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor”. Assim termina, assim o poema finda.
Até hoje me pergunto se alguém entendeu esse texto, principalmente os que se autoproclamam cristãos. Alguns, é provável, poucos muito poucos…
Não obstante, continuo a sonhar com anjos, a conviver com anjos. Humanos anjos para compensar o desatino dos anjos caídos e dos humanos perdidos.
Prolongo-me nessas veredas, agora já mãe e avó, inspiram-me uma prece ou uma estrofe de poesia: “Os anjos, às vezes em bando, fecham a cortina do dia para que a noite apareça e docemente adormeça o Anjo da Estrepolia.