A multicopiada frase POR QUEM OS SINOS DOBRAM inspirou inúmeros títulos no mundo, mas muitos não sabem o que significa e nem a sua autoria. Dada a beleza das origens, vou viajar no túnel do tempo para brindar meus leitores.
Na década de 1940, Ernest Hemingway publicou o livro homônimo For Whom the Bell Tolls (em português: por quem os sinos dobram), um romance sobre a guerra civil espanhola, aplaudido pela crítica como uma das suas melhores obras. Nela faz uma análise ácida condenando a atuação extremamente violenta das tropas de ambos os lados e o livro tem como pano de fundo acima de tudo a condição humana.
O texto descreve personagens em conflitos desempenhando os papéis bizarros em que se viram forçados a assumir durante a guerra, fraquejando ao ver nos inimigos seres humanos que poderiam estar de qualquer um dos lados da guerra.
O título do livro refere-se às meditações do pastor e escritor inglês John Donne e invoca o absurdo da guerra civil – travada entre irmãos – pois nas meditações deste poeta “quando morre um homem, morremos todos, pois somos parte da humanidade”.
Em 1943 o filme “Por Quem os Sinos Dobram” foi estrelado pelos maiores astros da época – Gary Cooper e Ingrid Bergman – com uma cena inesquecível do casal usando um mesmo saco de dormir. No roteiro, um americano vai à Espanha para lutar contra a ditadura. Mas quando se apaixona por uma militante espanhola, começa a questionar sua perigosa tarefa e seu lugar em uma guerra estrangeira.
Raul Seixas fez uma música (1979) chamada “Por Quem os Sinos Dobram”. Excelente música, porém é confuso seu significado porque Rauzito canta “nunca se vence uma guerra lutando sozinho” e incita a coragem.
A Banda Metallica gravou (1984) a canção “For Whom the Bell Tolls” falando dos horrores de uma guerra.
Em 1993, os Bee Gees também lançaram uma canção chamada “For Whom the Bell Tolls”, porém versada sobre uma desilusão amorosa.
Depois de tanto “plágio”, me senti à vontade para copiar essa frase como título desta crônica e pedir licença aos leitores para mergulhar na fantástica história que a fez surgir, em um momento de dor e tristeza de um homem devoto, que enfermo e à beira da morte, tirou do seu drama pessoal uma belíssima obra, como um lírio que retira do lodo suas alvas e belíssimas flores.
Essa linda história ocorreu no remoto ano de 1624, quando o reverendo e poeta inglês John Donne escreveu, na cama em que agonizava à espera da morte, um livro chamado “Devotions upon Emergent Occasions” (Devoções em Ocasiões Emergentes).
Ele ficou internado 23 dias e em cada dia escreveu um texto, formando uma coleção com 23 pequenas “devoções” ou meditações que falavam sobre sua condição mórbida, cura e outras questões humanas.
Na Devoção XVII John Donne criou essas frases consagradas na cultura popular que “nenhum homem é uma ilha” e “por quem os sinos dobram?”, replicadas nas músicas, filmes e livros contemporâneos mencionados, dentre outros. Veja a beleza da construção intelectual e poética:
“Nenhum homem é uma ilha, todo em si; todo homem é uma parte do continente, uma parte da terra; se um torrão de terra é levado pelo mar, a Europa é diminuída, tanto se fosse um promontório, como também se fosse uma casa de teus amigos ou a tua própria; a morte de todo homem me diminui, porque sou parte na humanidade; e então nunca pergunte por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”.
Ali da cama o moribundo escritor conseguia ouvir os sinos da igreja tocando, cujo significado era que alguém daquele vilarejo havia morrido. As pessoas perguntavam entre si: por quem os sinos dobram? Ou seja, em outras palavras, quem morreu?
E na solidão daquele quarto ficava o poeta questionando para o seu íntimo se as pessoas, assim como ele ao ouvir as badaladas lúgubres, não achavam que os sinos anunciavam a sua partida deste mundo.
E quase 400 anos depois a história se repetiu e tal como John Donne, aqui nos rincões da Hileia, um poeta contemporâneo se viu enfermo à beira da morte acometido pela Covid-19, num quarto isolado do mundo, diante da grave ameaça de contágio daquela sinistra doença mortal desconhecida. Mas sua esposa amada e lindas filhas ficaram ali ao seu lado.
Era o poeta Mauro Guilherme. O ano era 2021, um ano perdido que pareceu infindável demorando décadas para acabar.
O poeta ouvira inúmeras vezes bem longe o badalo do sino da Catedral da Sé quase inaudível. Seu coração se amarfanhava por imaginar a morte de mais um irmão, afinal “não somos uma ilha”.
O sino tem uma conotação religiosa, entretanto essa função litúrgica e utilitária dos sinos decaiu. Hoje os sinos são amplamente utilizados na música, porque nada mais é que um instrumento de percussão que produz som pela vibração de seu próprio corpo.
No Natal, o sino é o símbolo que representa o anúncio do nascimento de Jesus. Isso porque, além de sinalizar as horas, o toque dos sinos avisa as pessoas para se reunir para um acontecimento. Os sinos também servem de decoração das árvores e das portas e são lembrados nas músicas natalinas.
Os sinos dobram, badalam ou repicam para evidenciar momentos importantes de um ritual, chamar os fiéis para o culto, dar a hora, anunciar um evento, um batizado, um luto. Nos mosteiros budistas e católicos o sino regula a vida cotidiana.
O triste ano de 2021 foi de sofrimento atroz porque marcado por seguidas perdas, muitas perdas, incontáveis perdas…
O poeta queria chorar às escâncaras quando ouvia as badaladas ao longe, sair gritando pelas ruas a cada partida de um amigo ou parente. E chorar por temer a sua morte anunciada. Mas homem chorando ainda é um tabu: “boys don’t cry”, não é mesmo?
Mas o que significa ouvir barulho de sinos? Segundo a mística, ouvir um sino em sonho é presságio infeliz, algum ente querido da família sofrerá com uma enfermidade. Se, em sonho, você ou outra pessoa tocava o sino é prenúncio de casamento para breve. Ou seja, é uma tragédia humana de qualquer jeito (kkkk)!
Portanto, é importante não somente dar ouvidos ao som do sino, mas ao que esse som significa e ao que ele quer te dizer.
Então o poeta comprou um sino e o colocou no meio do jardim do seu refúgio, de gramado verdejante, nas sombras das mangueiras, dos ipês amarelos e do cajueiro, decorado entre lindas mussaendas rosas, alamandas copo de ouro, plumérias brancas, rubras ixórias e multicoloridas bougainvíleas.
E ele ia discreto ao jardim às escondidas para martelar de forma lúgubre e compassada e retirar do bronze uma melancólica sinfonia … blém…. blém… blém, com o coral de sabiás, bem-te-vis, sanhaços, saí-azuis, guaxes e xexéus daquele “habitat” maravilhoso deste pedacinho da Amazônia.
Seus amigos e família olhavam para ele desconfiados. Cogitavam de internação psiquiátrica, queriam lhe mandar para aquele endereço famoso do bairro do Botafogo na Cidade Maravilhosa: o Instituto Philippe Pinel.
Ah! Mas não era loucura! Queria o seu próprio sino dobrando e anunciando a morte dos entes e amigos queridos que se foram em cortejo fúnebre solitário, sem direito a velório e vela, só choro, um a um: Ronaldo Maçaranduba, Evandro Machado, Aldo José, Ivo Rocha, Haroldo Pereira, Naná Varela, Eraldo Zampa, Luis da Bacarat, Wilson Conde, vovó Enir, Geni dos Santos e outros milhares de amigos conhecidos ou não. Afinal, “não somos uma ilha”.
Mas a herança genética do poeta não o deixava se dobrar por maior que fosse a dificuldade. Por isso foi na contramão do destino que se anunciava e resistia bravamente contra a força do vírus que lhe consumia os pulmões aos poucos. E nessa mesma contramão foi também sua imaginária amada July Bunny, uma paixão proibida pelas regras sociais, a quem um mal grave também devorava as entranhas por infecção generalizada, deixando-lhe sequelas irreversíveis.
Dizem que os poetas têm muitos amores, mas o nosso poeta era singular, seu coração a uma só pertencia, o único amor imortal da sua existência, como Vinicius de Moraes no Soneto da Fidelidade:
“Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.”
Por isso, “roubava” as desventuras sentimentais de um escriba parceiro do livro “A Balança e a Pena” nos seus colóquios românticos.
Mesmo o destino anunciando o seu ocaso, havia um sininho interior que o impelia a não desistir. Lutou bravamente!
Mas os sinos dobraram! Dobraram por nós, Mauro Guilherme. Afinal, “não somos uma ilha”.
Hoje quando se ouve no bairro Alvorada o som de um bronze tristonho, é a sua amada nos jardins ecoando a campana do poeta, num ritual diário orando aos céus pela sua alma, à espera de um milagre da volta impossível.
Impossível porque segundo Heráclito, ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando nele se entra novamente, não se encontra as mesmas águas e o próprio ser já se modificou.
O poeta não volverá, mas como na história de John Donne, seus lindos e eruditos versos ficarão para sempre:
“Hoje eu não verei o noticiário:
Quero ficar mais feliz!
Neste dia de poesia,
Quero ficar mais feliz!
Como aquele pássaro que cantou na minha janela fechada,
Lembrando-me que ainda há pássaros:
Por quanto tempo?…
E no fim do poema uma surpresa:
Começa a chover!
Ó Deus, como és bom!
A minha poesia não merecia este amanhecer,
Nem este homem os teus cuidados.
Canta, passarinho!
Cai, chuva!
Sonha, homem!….”
(M. Guilherme)