Pai bastante novo, em uma união iniciada logo ao fim da puberdade, jamais pude reparar em coisas mais verdadeiras e que são razão e real sentido de se viver. Nunca pude sequer me convencer, que dinheiro de defunto no mais das vezes, é a coisa mais incerta, sem dono e incoerente que possa existir. Vez por outra causam surpresas.
Posso me lembrar, entretanto, de que, num período de arranjos em minha casa em Manaus, onde residia, já solteiro novamente, arranchei-me na de minha filha Roberta. Tão discreto quanto silenciosamente, percebi naquele lar, relações humanas entre pais e filhos, para as quais eu não havia nem elaborado a possibilidade de conhecer no passado, que também era da própria Roberta.
Ainda estudante, minha filha, quando perguntada, não fazia nenhum rodeio, quanto ao que queria ser no futuro. Dizia ter convicção, que nascera para ser mãe e que essa seria sua carreira. Não foi bem como ela disse querer. Foi além! Fez também um curso superior de pedagogia se tornando grande mãezona, nos departamentos específicos que dirigiu em educandários.
Tem três filhos, hoje adultos. Desde bebes, manteve com eles, constante dialogo. Jamais arremedou voz de criança em tal comunicação. Mal ainda soubessem diferenciar sons, ou mesmo a conhecendo apenas pelo cheiro, já lhes falava como adultos. Os três andaram com menos de ano e em tempo quase igual, falaram. Educados na conivência social, ainda foram verdadeiros campeões nas escolas que frequentaram. Na verdade, antes que isso são os melhores diplomas de sucesso, que “Boba” pode apresentar, como a grande mãe que é. Talvez eu não tenha podido lhe ensinar muito, mas com ela aprendi coisas fundamentais para uso, na nova oportunidade em que Deus me concede para ser pai. Não estou mais nem aí, para o que possa parecer loucura, mas conversei à exaustão com Duda, desde seis anos, e no exagero, até com Marco Túlio, desde dez meses. Sequer mudo o português, apenas amacio a voz. Tanto um quanto outro aprenderam a levar minha paciência, aos limites e ultrapassá-los, o que nunca imaginei ser possível.
No tempo que corre, Natal, é o melhor assunto das crianças, que para os pais nem sempre é muito bom, principalmente quando não ficam baratos. E não adianta tentar mudar o papo, esse é o da vez. E Duda não é nada diferente da grande maioria da juventude. Adora falar das conseqüências do natal. O motivo de ser natal, ainda não a alcançou, mas os exemplos deixados por Baltazar, Belquior e Gaspar, para ela são uma delícia. Criada meio a adultos, alguns ex-solteirões então rabugentos, como tio Ângelo, por quem tem carinhosa queda, já se dispõe a fazer questionamentos, no mínimo bastante precoces. Lá se vão anos, quando quis saber, por que já se sabendo não existir Papai Noel, pais e adultos incentivaram esta história e teimam convencer aos filhos que ela é verdadeira.
Logo busquei na memória, as razões que Roberta traria para aquela situação, nova, em que me encontrava. Admitir que os adultos são costumeiros mentirosos, nem pensar, ela jamais faria isso. Mas, não foi tão difícil… Encontrei jeito e forma de dizer a minha filha, que Papai Noel existe sim, e que ele era um fabuloso espírito e presente bastante real, que Deus trouxera aos homens, pelo nascimento de seu filho Jesus. Que também ao longo de toda a história humana, sua figura tornou se grande responsável, por um período de criação até universal, do ambiente de possível bondade e serenidade, nas relações e nos difíceis comportamentos humanos. Nós pais e adultos, talvez tenhamos errado, tão somente na forma folclórica e até comercial, de o apresentar.
Creditamos as sabedorias Divinas, que este período aconteça em fim de ano, nos fazendo esquecer das amarguras decorrentes do que se viveu, criando coragem, e exercitando promessas de paciência para com o próximo, alimentando esperanças que as coisas sejam melhores, parecendo até, um diferente começar de novo.
Uma coisa, porém, é certa, Natal nos dá saudade de todo mundo, e saudade é guardar no peito com vontade de ver de novo. O que sempre tenho de Roberta e dos filhos (meus netos) que estão longe. É possível que também Duda e Marco Tulio tenham entendido, e que em pouco tempo, tenham encontrado sozinhos respostas, até melhores que as que tenha lhes dado. Principalmente, de que não fora o Natal, é possível, o mundo viesse a se perder afogado em intolerâncias…
E a eles, filhos citados, se ajuntem em felicidade a todos os outros: Rachel, Marcela, Jose Filho, Lucas e todos os netos e bisnetos que preencheriam muito espaço deste jornal.