Sem voltar ao tema ‘conflito no leste europeu’ e apenas usando o tema como exemplo de como a grande mídia tenta ‘obnubilar’ a mente de todos ‘santificando’ um dos lados e ‘demonizando’ o outro. O importante é que todos tomem consciência que nenhum dos partícipes do tal conflito merece a ‘canonização’ internacional senão vejamos:
A Rússia nunca foi santa e sim responsável por grandes atrocidades históricas em seu ‘entorno’, já alguns países que compõem a OTAN foram responsáveis por atrocidades em seu entorno e em grande parte do planeta, isto sem falar da ‘santa inquisição’, que nunca teve nada de santa, responsável por genocídios constantes ao longo da história, inclusive voltado contra judeus e mulheres. Nós da América do Sul sofremos muito com o genocídio europeu, vários povos que ocupavam parte do nosso território foram extintos pelo poder das armas europeias.
Chegamos assim ao líder e xerife do mundo, imbuído na pregação de Democracia e Direitos humanos – os EUA – Segundo estatísticas incompletas, entre o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, até 2001, entre os 248 conflitos armados em 153 regiões do mundo, 201 foram iniciados pelos Estados Unidos, o que representa 81% do total. Relembremos alguns: Coreia (1951), Porto Rico (1950), Vietnã (1961), Cuba (1961), Laos (1964), Camboja (1969), Granada (1983), Líbia (1986), Honduras (1988), Iraque (1991), Iraque (1993), Haiti (1994), Iraque (1998), Iugoslávia (1999), Afeganistão (2001), Iraque (2003), Líbia (2011) e Síria (2018). Nas guerras promovidas pelos Estados Unidos depois do 11/9, morreram 929.000 pessoas, dentre os quais 387.000 civis; 38 milhões de pessoas se tornaram refugiados.
Todos estes exemplos citei apenas para a reflexão de como a grande mídia de hoje é capaz de nos fazer esquecer o passado e distorcer fatos históricos. Mas, vamos ao que interessa ao Brasil e aos brasileiros – a soberania e a posse da Amazônia. Os mais ingênuos permanecem na crença de que a Amazônia é nossa e sempre será nossa independentemente da cobiça externa. Ledo engano, a posse e soberania da Amazônia não são fatos estáticos, é preciso realmente tomar posse da região ocupando-a integralmente, para os que duvidam vamos citar apenas um exemplo.
Paulo Bonavides, professor emérito da Universidade Federal do Ceará; doutor honoris causa da Universidade de Lisboa; membro do Comitê de Iniciativa que fundou a Associação Internacional de Direito Constitucional (Belgrado), publicou o artigo “A mexicanização da Amazônia e o assalto à soberania”, que transcrevo alguns trechos:
“Pobre México, tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos’! A frase, que eu não sei quem proferiu, mas que bem poderia ter sido de Ortega y Gasset, é perpassada de fina e amarga ironia, e põe o dedo do testemunho histórico na ferida da fatalidade geográfica de que foi vítima, no século passado, a república de Hidalgo e Juarez.
Com efeito, menos de vinte anos depois de emancipar-se do domínio espanhol, em 1821, o México perdia para os Estados Unidos a sua ‘Amazônia’ setentrional, sem florestas tropicais, mas de clima temperado e composta de vastas e fertilíssimas terras, onde jaziam o ouro da Califórnia, as pastagens do Texas e as riquezas adormecidas de imensos e gigantescos lençóis petrolíferos. A Califórnia era enaltecida e descrita como ‘a mais rica, a mais bela e a mais saudável região do mundo’.
Com inteira insuspeição, escrevem Confield, Wilder, Paxon, Coulter e Mead, na obra coletiva intitulada A Formação dos Estados Unidos: ‘Quando um governo mexicano despertou para o perigo e tomou medidas para deter a ulterior imigração era demasiado tarde’. Desmembrado o Texas, que se autoproclamou, em 1836, uma República provisória e de ficção, que durou apenas nove anos, o México, que era um país de 7 milhões de habitantes frente aos Estados Unidos de 20 milhões, logo a seguir, em 1848, viu consumada nas ruínas da guerra perdida a tragédia nacional.
‘O tratado de paz, assinado em Guadalupe – Hidalgo’, escreve Elson, ‘trasladou para os Estados Unidos o território que desde então se tornou os estados da Califórnia, Nevada e Utah, parte do Colorado e a maior parte do território do Novo México e do Arizona’. ‘A Guerra Mexicana não foi travada pelos Estados Unidos por causa de uma disputa fronteiriça, como o mundo fora induzido a crer, mas porque Ahab cobiçava a vinha de Nabor, e os proprietários de escravos punham suas vistas sobre o fértil sudoeste e dele desejavam se apoderar’, pondera Elson.
Todas essas reflexões e remissões ao passado não são descabidas. Urge refrescar a memória continental de nosso povo. A situação do Brasil tem certas analogias com a do México no século XIX, na medida em que desperta hoje a cobiça inconfessável de superpotências estrangeiras, que têm por ponta-de-lança algumas das chamadas organizações não-governamentais, cuja ação se espalha pelo mundo inteiro e cuja linguagem é precursora, introdutória e preparatória do assalto à soberania, não tendo obviamente a reserva, o comedimento e a dissimulação do discurso diplomático. Suas ameaças já são palpáveis e constituem a pré-agressão do futuro.
Não é de espantar, portanto, se amanhã os missionários estrangeiros da Amazônia, até mesmo com a cumplicidade das Nações Unidas, proclamarem na reserva indígena, que cresce de tamanho a cada ano e já tem a superfície de um país da extensão de Portugal, uma república ianomâmi, menos para proteger o índio que para preservar interesses das superpotências. Incalculáveis riquezas jazem na selva amazônica e a proteção da cultura indígena trouxe a presença ali de cavaleiros que se adestram para segurar as rédeas de um novo e estranho Cavalo de Tróia.
O que parece à primeira vista apreensão infundada ou mero pesadelo de Cassandras nacionalistas, bem cedo, se não atalharmos o mal pela raiz, mediante vivência efetiva nas fronteiras do Norte e Oeste, se tornará um fato consumado e uma tragédia, e como todas as tragédias, algo irremediável. A consciência da nacionalidade, picada de remorso, não saberia depois explicar às gerações futuras com honra e dignidade tanta omissão e descaso. O assalto à soberania está pois em curso. É hora de pensar no Brasil!”
Não se trata de nenhuma ‘teoria de conspiração’ a possibilidade de criação de uma república ianomâmi. O enclave foi criado ‘estrategicamente’ nas fronteiras do nosso país com apoio de autoridades nacionais que ao invés de apoiar a criação de tal ‘enclave’ deveriam estar preocupadas com a integridade do nosso território. Caso tivesse este poder recomendaria a implantação imediata de um forte contingente das três ‘forças’ que representam as nossas ‘Forças Armadas’ em diversos pontos do ‘enclave’ ianomâmi para evitar abusos que ensejem a criação de ‘argumentos’ para justificar qualquer tipo de intervenção, a tendência da nova geopolítica nos mostra que o tempo urge. ‘Cautela e caldo de galinha nunca fizeram mal’.
Creio que é absolutamente dispensável comentar o texto e repetir pela ‘enésima’ vez todas as advertências que venho fazendo ao longo dos anos. Confesso que como amazônida a cada dia me assusto mais com as ações das ONGs internacionais em nosso território. Mais um articulista comunga com as minhas opiniões. A nós restam apenas duas alternativas para a Amazônia – ou a perdemos ou a protegemos – a invasão já começou há muito. O precedente histórico está posto à mesa, nos acautelemos!