Quando consultamos o dicionário, a palavra LIMITE é definida como “aquilo que determina os contornos de um domínio abstrato”. Definição é complexa, hein… assim como a aplicação, afinal limite é aquilo que nossos filhos vão desenvolver ao longo da vida para saber até onde eles podem ir, o que podem e que não podem fazer. E quem começa todo esse trabalho árduo somos nós, os pais. Mas aí vem aquela longa história de que a teoria é fácil, difícil mesmo é colocar isso em prática.
A criança vai testando, você percebe o confronto, sabe que tem de agir, mas não sabe muito bem como ou quando dar o primeiro passo. Parece mais um filme de faroeste americano em que ganha quem for mais ágil e firme. Não dá, né! Quem sabe dos limites dos nossos filhos somos nós. Cabo de guerra com a criança só na brincadeira, na maternidade não rola.
Além do mais, dizer “não” pro seu filho não é traumático, tampouco sua firmeza. Pelo contrário, faz bem. Afinal, a criança só vai saber até onde pode ir quando tem limites claros e estabelecidos. É assim que ela aprende a ajustar-se às regras e conhecer suas possibilidades. Uma criança com limites se sente mais segura para explorar, parte fundamental do desenvolvimento infantil. Ao pensar rapidamente, limite e autonomia podem parecer questões opostas. Mas, quando se trata de educação, esses conceitos se conectam e mostram que trabalham juntos.
Independentemente da linha de educação que uma família decide seguir é preciso criar limites para que o desenvolvimento do seu filho seja saudável, tanto do ponto de vista psíquico quanto físico. É importante que as regras sejam colocadas e na medida certa, sem muito autoritarismo e sem excessiva permissividade, o tão conhecido equilíbrio. E que o diálogo seja parte fundamental do relacionamento.
A criança pode (e deve!) participar das escolhas.
Assim, irá se sentir confortável para exprimir suas vontades. Em contrapartida, deve ficar claro para a criança que existem consequências para as decisões que tomamos, sejam boas ou ruins. E esses conceitos podem ser aplicados desde cedo. Se os pais resolvem todos os problemas da criança, o processo de desenvolvimento de autonomia e responsabilidade será doloroso mais tarde.
Muitas vezes os próprios pais acabam perdendo a linha por não achar o equilíbrio. Às vezes são permissivos, por convicção ou até mesmo cansaço, ou são extremamente rígidos com medo de perder o controle dos filhos. Mas alerta: geralmente, os mais autoritários enfrentam a revolta dos filhos, e os permissivos acabam tendo que lidar com sintomas sérios de ansiedade, porque, sem limites, a criança se sente perdida.
Para não cair nessas armadilhas de superproteção ou liberdade excessiva, é preciso ter segurança. As regras e valores que queremos transmitir aos nossos filhos devem estar claros para todos. Os limites devem estar relacionados com o que a criança pode ou não fazer, mas de forma alguma devem barrar as conquistas que as crianças estão fazendo ao longo da vida.
Colocando a teoria em prática
Para começar a pensar em educação, primeiro é preciso considerar que o seu filho vai viver em sociedade e que todos temos de seguir regras. E, pode acreditar, desde cedo ele já tem capacidade para começar a aprender, ainda que não responda totalmente aos estímulos. Os limites são alternáveis, eles devem mudar conforme a idade, mas o ponto crucial em qualquer fase é que o ‘sim’ deve significar ‘sim’ e o ‘não’ deve ser verdadeiramente um ‘não’, e que, às vezes, pode-se negociar.
Quando se trata de limites, alguns pontos importantes precisam ser considerados: primeiro, sempre explique o motivo de as regras existirem, mesmo que a criança ainda não entenda. Segundo, nunca minta, por mais que pareça uma mentira inocente, é preciso que se crie um elo de confiança. E, finalmente, respeite a criança como indivíduo e ensine que ela deve reparar seus erros.
Os limites começam a ser estabelecidos desde o nascimento, quando a mãe, ainda que intuitivamente, vai definindo a nova rotina. Vale dizer ao bebê que é noite, por isso é hora de dormir. A criança começa a entender seus limites a partir do momento em que a mãe transmite essa informação pelas suas atitudes estáveis e coerentes.
Para ajudar, use frases curtas e objetivas, mas sempre explicativas. É importante levar a conversa para o nível dos nossos filhos, com elementos presentes no dia a dia deles. Assim, tentamos sempre conversar e mostrar a consequência de seus atos.
O processo de dar à criança mais responsabilidades acontece aos poucos, de acordo com a percepção que elas vão ganhando com o tempo. Isso faz parte da construção de personalidade, autoestima e do desenvolvimento psicomotor. E tudo começa em casa, ao fazer pequenos testes constantemente, como escovar os dentes, guardar os brinquedos, lavar o cabelo sozinho e até saber atravessar a rua. O trabalho dos pais é reduzir o universo dos filhos até que estejam prontos para partir para um próximo estágio, como por exemplo ir para a escola e enfrentar novos desafios. Depois de aprenderem a respeitar os pais, a circular em casa e conhecer os limites desse ambiente, vão ter de aprender coisas novas com o próximo ambiente. Isso cria nos filhos uma noção forte de comunidade e do seu papel como indivíduo dentro da sociedade.
Denise Morelli
Psicóloga Jurídica na POLITEC, Coordenadora Nacional da Especialização em Criminologia e em Psicologia Jurídica e Inteligência Forense do INFOR, Professora de diversas Universidades em cursos de graduação em Direito e Psicologia, Especializações e Mestrados, Palestrante Nacional e Internacional, Tutora da Secretaria Nacional de Segurança Pública – SENASP.