Apresentava-se “entanguida” como se diz o caboclo amazônida, isto é, com visível comprometimento pondoestatural e já com repercussão psicocomotora. Dava pena de vê-la sofrida com falta de ar, algo que ocorria por pura ignorância e rigor religioso imoral dos pais, ao mesmo tempo perguntar-lhes “por que deixaram chegar a esse ponto?”
A quem pedir ajuda se os próprios pais se apoiavam em conceitos religiosos equivocados, em nome de Deus, arriscando a vida de uma inocente?
Após me assegurar do diagnóstico, tratamento e prognóstico, disse aos pais que o caso era de correção cirúrgica e definitiva. Iria ficar curada.
Aconselhei o casal a viajar para um grande centro. O pai, bancário, que era pastor de igreja evangélica, por questão de credo religioso, argumentou que o caso de seu filho estaria “nas mãos de DEUS”. A conversa travou. De um lado, eu, jovem idealista e pragmático e de outro, um casal semi-ignorante e dogmático.
A cada vez que a criança voltava, mesmo recebendo meus honorários médicos, com as mãos amarradas, me sentia inútil e incomodado, até o ponto, quando tomado por um sentimento misto de profunda dor e raiva, me recusei a atender a criança já em fase terminal, porém por dever de ofício, eu a encaminhei ao pronto atendimento, onde horas depois veio a falecer, após muito sofrimento físico.
Ainda no mesmo dia, voltaram a me procurar para que eu assinasse o “atestado de óbito”. Pensando retrospectivamente, quisera poder tê-los denunciado ao conselho tutelar por “maus tratos” e “abandono de incapaz”, mas esses conceitos e instituição não existiam à época.
Por desgosto, não os recebi e naquele momento, tive que assinar o papel. Disse minha secretária que o casal estaria ali para me agradecer e que a mãe chorava copiosamente. Remorso, devia ser. Li e pensei duas vezes em escrever no atestado de óbito da criança: “causa mortis: ASSASSINATO!”.
Paulo Rebelo, o médico poeta.
NOTA: De fato, tive dúvidas ao dar título ao texto. Ao colocar a “A MÁ FÉ”, no sentido bíblico, é um enorme contrassenso ou ainda “QUANDO NÃO HÁ FÉ”, creio que seria o mais indicado. Todavia, optei por utilizar a tradução livre do latim “fidelidade” que, nesse caso, não teria relação com DEUS. Foi o que ocorreu nesse fato; a crença do casal não era tinha absolutamente nada de divino.