Assim começa certo diálogo em Alice no País das Maravilhas, o clássico livro de Lewis Carroll.
Era uma conversa em torno do princípio da identidade. Sem saber quem somos, podemos seguir qualquer caminho, mas fica difícil encontrar o rumo adequado.
Do mesmo modo, sem que a Nação se autorreconheça em todo o seu esplendor e potencial, fica difícil progredir e alcançar os altos propósitos desejados. Decerto, todos almejam o melhor, cada um a seu modo, com suas influências e ideais.
Talvez seja preciso ressignificar algumas ideias, conceitos e pré-conceitos, arraigados em nossa dimensão histórico-geográfica.
Brasil. Um grande país e um país grande, tradicional parceiro de políticas pacifistas e integradoras, o primeiro a falar nas Assembleias Gerais da ONU.
Em pequenos capítulos da história nos envolvemos, com derramamento de sangue. Batalha do Jenipapo, dos Farrapos, Canudos, a 2ª Guerra, a Guerra do Paraguai… País onde guerra e uso de guilhotinas não ocorreram nem na transição da Monarquia para a República, onde pacíficas manifestações civis antecederam a derrubada de Jango e onde o fim dos governos militares se deu por tranquila passagem para o regime civil e a democracia. De modo geral, temos tradição não beligerante e atuação recente em missões de paz, como no Haiti.
Em contraponto, a história de outros países nos mostra exemplos de duradouras guerras fatricidas e imensas tragédias humanas, como a Guerra Civil americana (estimados 970 mil mortos), a Guerra Civil Espanhola (estimados 500 mil mortos), a Guerra da Criméia (estimados 25 mil britânicos, 100 mil franceses e 1 milhão de russos mortos), além da Revolução Francesa, das duas grandes guerras mundiais, a Revolução Russa, a Revolução Chinesa e tantas tragédias humanitárias na África e noutras regiões.
No entanto, parece que ficamos a cargo dos rumos traçados por Portugal em tempos remotos, o que era natural, já que dele éramos Colônia. Todavia, tivemos também rumos definidos pela Inglaterra em certos momentos, quando se beneficiava dos tratados feitos com Portugal.
Mais adiante, os Estados Unidos passaram a ter grande influência, notadamente após a Segunda Guerra Mundial, num alinhamento resultante da Guerra Fria e da formação e consolidação de blocos geopolíticos.
Apenas para nos prender aos mais notórios fatos da nossa história, quanto de ouro e diamantes foram daqui levados para a Europa? Enriqueceram-nos?
No Século XX, quanto de areia monazídica do Espírito Santo e Piauí foram levados para os EUA em função dos raros minerais que possuíam? Enriqueceram-nos? Quanto de ferro, do Quadrilátero Ferrífero de Belo Horizonte e de Carajás, foram levados? Aliás, vale lembrar que Carajás tem reserva de ferro estimada em 17 bilhões de toneladas e que, apenas no 1º semestre de 2020, se estima que 43 milhões de toneladas de ferro foram extraídas de Minas Gerais. Enriquecem-nos?
Salvo melhor juízo, vendemos o que temos e que não são recursos renováveis. E quando se acabarem?
A Bolívia tinha a maior mina de Prata do mundo por volta de 1.611 e Potosí era a cidade mais rica do Planeta e a 2ª maior em população (apenas atrás de Paris). Mas a prata foi toda levada para a Europa e Potosí decaiu e a Bolívia dela não se beneficiou.
Estamos num momento ímpar da nossa história.
Com uma nova Guerra Fria se forjando, com forças dominantes tradicionais como EUA, Europa e Rússia recebendo a fortalecida China na mesa de apostas, investimentos e negócios, a demanda por matéria prima (ferro, manganês, cobre etc) sobre influência não só por atrativos de preço de exportações/importações mas também por questões estratégicas e de geopolítica.
Por outro lado, mais do que esses ativos, fundamental para a humanidade será a demanda por comida – mormente saudável e por boas fontes de água pura.
Como falamos aqui há dias, há rios mortos por poluição, em outros países, como o Ganges (Índia), o Shonghua (China) e o Citarum (Indonésia). Nossas águas, ao contrário, estão em boas condições e as temos em sua maioria saudáveis, em profundos aquíferos como o Guarani e o Alter do Chão e imensos rios. Deles cuidamos e usufruímos com legislação rígida, que também abraça nossas matas e florestas e que são contraponto em dimensão e em sustentabilidade a países do Norte.
Se não tínhamos petróleo como no Oriente Médio, apenas de lá compramos, pois não nos deixaram explorá-lo. Muitos países fizeram guerras pelo domínio do gás e petróleo da região.
A população mundial cresce em demasia e a fome já bate à porta de muitos, infelizmente. Logo o mundo precisará mais e mais de água doce pura. De comida saudável ou, diria até, de qualquer coisa para comer.
Bom lembrar que, no Século XIX, a teoria de Tomas Malthus não se realizou, pois o mundo conseguiu mais produzir alimentos, no geral. Todavia, ao tempo não existia a poluição do ar e dos mares e rios, como hoje. Não havia energia nuclear ou outras fontes de contaminação dos solos e de fontes de água, como o uso danoso de agrotóxicos e o refugo de mega-indústrias químicas.
Produzir mais alimentos, apesar das modernas técnicas e maquinários e biopesquisas, depende de bom clima, boas terras e condições de transporte e, desafio do Século XXI, de água doce limpa.
Sem água, sem comida. Sem água, sem vida. Sem água pura para a humanidade, doenças ganhariam outro status e o caos imperaria, em indesejado futuro de distopia, onde se viveria em condições de extremo desespero e privação.
Hoje, países já falam em turismo para vacinados, prenunciando uma distinção entre os que tomarem ou não as vacinas diante da Pandemia. Na Europa, nesses dias, falou-se que vacinas que lá produzidas primeiro deverão atender aos europeus. O mundo assim vai se dividindo e se desumanizando…
E quando faltar água para tantos, para consumo, banho e produção de alimentos saudáveis? Como se dividirá o mundo? A par de qualquer ideologia ou ideário, convenhamos que podemos fornecer água por solidariedade ou vender, já que nos venderam sem dó nem piedade também produtos naturais que outros países detinham, como o gás da Bolívia e o Petróleo do Oriente Médio, sem nunca se preocupar com o custo disso para o nosso povo.
Será que no futuro, quando a água tiver – e terá – papel tão destacado no mundo, para consumo e produção de alimentos, poderemos usufruir disso (e também do ar produzido por nossas preservadas matas e florestas) em prol do Brasil, do nosso povo, dos nossos produtores rurais, da nossa economia? Nos chegará o futuro, como desejado? No 1º mundo estaremos ou seremos meros provedores para outros, como fomos ao longo da história?
Para isso, precisamos saber quem somos hoje, sob pena de nos perder no mundo imaginário, como a inocente Alice no País das Maravilhas.