Ao voltar nosso olhar para o século passado, principalmente após os anos 1950, e estendê-lo até os dias atuais, perceberemos uma forte presença do fenômeno religioso influenciando na organização da sociedade pós-moderna. Andando pelas ruas dos centros urbanos, deparamo-nos com templos evangélicos, igrejas católicas, associações islâmicas, centros esotéricos, instituições espíritas e organizações das religiões africanas repletos de pessoas que buscam respostas para suas necessidades cotidianas.
Os veículos de comunicação tornaram-se alvos prediletos das lideranças religiosas. Não são raras as vezes em que, vendo um canal de televisão, abrindo um jornal, navegando na internet ou sintonizando uma determinada emissora de rádio, encontramos uma exaustiva e extensa programação religiosa com o objetivo de angariar mais fieis. Com promessas de curas, milagres, libertações e, sobretudo, ascensão financeira e social, as programações religiosas, principalmente as pentecostais, ocupam horários até então impensáveis para o telespectador.
No campo caritativo, existem inúmeras iniciativas filantrópicas que, em nome de um ethos religioso, praticam obras sociais. Podemos citar, como exemplo, o trabalho com dependentes químicos e/ou na recuperação de alcoólatras, a ajuda financeira a mendigos, famílias carentes e instituições sociais, os trabalhos voluntários desenvolvidos em hospitais, presídios, creches e escola, dentre outros.
O mercado editorial tem se surpreendido com o elevado número de vendagens de livros que fornecem conselhos e conforto espiritual para os problemas da humanidade, a exemplo de produções no campo da autoajuda ou, até mesmo, em publicações católicas (livros do Padre Jonas) e evangélicas (Edir Macedo). No campo fonográfico, grupos gospel e padres cantores fazem shows pelo mundo inteiro arrebanhando milhares de fãs. Dentre eles, estão: Padre Marcelo Rossi, Padre Fábio de Mello, Diante do Trono, Oficina G3 e Toque no Altar.
Enfim, a humanidade nunca presenciou tamanha oferta de práticas religiosas no cotidiano das pessoas, e isto tem despertado cada vez mais interesse de pesquisadores das diversas áreas das ciências humanas a se debruçarem sobre a temática, para entender como o fenômeno religioso tem afetado a organização das instituições sociais e a vida dos indivíduos.
Esta nova configuração das religiões na sociedade atual está relacionada com os processos históricos vivenciados pela humanidade em busca de uma sociedade secularizada, pluralista e racionalista. A relação da religião com a modernidade, muitos autores defenderam a idéia de que, com o processo de secularização e modernização da sociedade, as religiões tenderiam ao desaparecimento. Percebe-se que não houve desaparecimento, nem mesmo um refluxo do fenômeno religioso, mas sim, uma reorganização das Instituições Religiosas perante as novas circunstâncias vivenciadas pelo mundo. Em outras palavras, os movimentos religiosos adaptam dogmas, estratégias de marketing e discursos para continuarem sobrevivendo na sociedade pós-moderna, e consequentemente, continuarem influenciando na organização da esfera pública.
Algumas Igrejas vêm se destacando nesta nova fase da religiosidade brasileira. Como exemplo, podemos citar as Igrejas Evangélicas Pentecostais, que têm conseguido atrair milhões de pessoas através de seus eventos. De acordo com o Censo de 2000, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a Igreja Assembléia de Deus seria a maior denominação pentecostal do Brasil, com 8.418.140 milhões de membros, seguida pela Congregação Cristã, com 2.489.113 milhões de membros, e pela Igreja Universal do Reino de Deus, com 2.101.887 milhões de fiéis. O Censo 2000 ainda ressalta que a Igreja do Evangelho Quadrangular possui 1.318.805 adeptos, a Deus é Amor, 774.830, a Brasil Para Cristo, 175.618, e a Casa da Bênção, 128.676.
O catolicismo também sofreu várias transformações para sobreviver na sociedade brasileira. De acordo com Souza (2005), a Igreja Católica investiu milhões em marketing e publicidade em suas dioceses, o que resultou em novas estratégias de persuasão dos cidadãos. Houve uma revalorização das romarias, das missas de cura, da bênção de objetos, dos terços, das quermesses e dos shows. As missas ganharam mais dinâmica e padres cantores passaram a ter grande espaço nas atividades religiosas (a exemplo do Padre Marcelo Rossi, Padre Zezinho e Padre Antônio Maria). Todas essas ações são chamadas pelo autor de “renovação popularizadora católica”. Contudo, o maior investimento desta instituição foi a Renovação Carismática Católica (RCC) – movimento católico que nasceu nos Estados Unidos na década de 1960, veio para o Brasil no final da mesma década e se expandiu no início dos anos 1970. A RCC tem atraído milhões de pessoas através de seus eventos de massa, com a prática de muita música, dança, teatro, meios de comunicação, palestras e orações. Essa nova forma de vivenciar o catolicismo tem modificado a vida de milhões de fiéis.
A reorganização das religiões no período atual atingiu a política partidária. As relações entre política e religião têm se modificado com o decorrer da democratização dos países. Podemos ver isto por meio da inserção de atores políticos religiosos aos cargos do poder executivo e do poder legislativo com o intuito de defender os interesses de denominações religiosas. Essa estratégia também está relacionada com o declínio do monopólio do catolicismo na arena política. Dito de outra forma, essas novas instituições religiosas – a partir do recuo da influência do catolicismo na política brasileira e a partir do seu envolvimento com a política institucional – têm por meta a legitimação e o reconhecimento da identidade do seu grupo. Exemplo disto é a Igreja Universal do Reino de Deus e a Igreja Assembléia de Deus, que apóiam seus
Marcos Vinicius de Freitas Reis
Doutor em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos, professor da UNIFAP