Republicanos são democratas? Esta é a pergunta por trás das impressões que temos ao reagir ao noticiário, que informa que o prédio do Capitólio – o Congresso dos Estados Unidos – foi invadido por partidários e simpatizantes do derrotado candidato republicano à Presidência do país.
O ponto aqui sob exame não diz respeito ao resultado da eleição, às expectativas dos vários partidos e dos grupos apoiadores, às alegações de fraude ou o que seja, até pelo fato de que o curto espaço não permitiria análises mais pormenorizadas.
A grande questão é como chegou a tal ponto a Nação que tanto valorizou a sua democracia nos seus filmes hollywoodianos? Como o país que lutou contra ditaduras, sob a bandeira da democracia, permitiu que em seu solo ocorresse ato de intolerância como esse?
Como se autoflagelou o conjunto dos valores democráticos soprados aos quatro ventos, contra a intolerância dos déspotas e guerrilheiros e ditadores do mundo, como ocorrido, por exemplo, na 2ª Guerra contra o Eixo (Alemanha, Itália e Japão), na Guerra do Vietnã, no 11 de setembro, na Guerra do Iraque e na do Afeganistão?
Como erodiu a imagem da harmonia democrática, propagada por todo o Globo, em seus símbolos: nas imagens dos super-heróis, na mensagem da liga da justiça, nos mocinhos contra os bandidos, nos bons valores democráticos contra a maldade dos ditadores do mundo?
Como um regime autoritário aceitará que a democracia americana lhe dê lições de moral? Já se fala que a China assim se pronuncia e o exemplo deve ecoar… Oportunistas de plantão deturparão o ocorrido, vozes autoritárias pelo mundo desdobrar-se-ão em usar o fato – ainda que isolado – como exemplo de falência ou enfraquecimento da autopropagada perfeição da democracia.
Ou seja, o fato interno havido nos EUA repercute em todo o mundo, que assiste ao oscilar do pilar democrático dos EUA.
O ser humano vive de símbolos: os soldados lutam mais encorajados quando acreditam nos valores que defendem e os cidadãos se sentem mais seguros quando confiam no Sistema que os rege.
O abalo poderá ser casual e isolado ou repercutir com grave mancha nessa imagem da democracia eficaz, como o melhor sistema do mundo. Só o tempo nos dirá a verdade.
Só que o tempo começa hoje, quando estamos estupefatos com o ocorrido e com a sensação de que o ano de 2021 já começa com mau sinal, pois o ataque à democracia americana é uma má mensagem para um mundo conturbado, que enfrenta graves e delicados momentos na geopolítica e na macroeconomia, além da já conhecida Pandemia.
Num tempo em que foi vencida a Guerra Fria e que temos 3 grandes blocos econômicos e políticos, formados pelos Estados Unidos da América, a Europa e o novo bloco com 14 países, sob a liderança da China, como ficará adiante esse equilíbrio de forças?
Noutro foco, para agravar o quadro interno, empresários e políticos americanos já se unem para pedir que o Vice-Presidente Mike Pense invoque a 25ª Emenda à Constituição dos EUA, para remover Trump imediatamente do cargo, sob o argumento de que, tendo incentivado a invasão do Capitólio, não mais tem condições de o exercer.
É crível concluir que teria saído pela culatra o radicalismo republicano, pois só elevará o status político do eleito Binden, que tomará posse em 20 de janeiro e que poderá levantar em seu discurso de posse a necessidade de se tratar a democracia como valor acima das ideias e ideologias de todos os partidos americanos.
Esse discurso pela unidade poderá elevar o capital político de Binden se este, parafraseando Kennedy, mobilizasse os americanos a se perguntar o que poderiam fazer por seu país, para manter a sua democracia grande e, porque não, ainda maior.
Binden poderá também mobilizar a opinião pública americana, alvitrando reconstruir a imagem abalada da sua pureza democrática e, de modo empírico, colocar na prática o slogan de Campanha de Trump no ano de 2016: “Make American Great Again” (em português, “Torne a América Grande Novamente”). Grande ironia do destino!
Ademais, certamente o ocorrido atrairá mais a atenção do mundo, para a liderança de Binden. Todas as linhas político-ideológicas do Planeta se valerão de microscópica potente visão para analisar as bases fundamentais da democracia americana e o funcionamento das suas instituições político-democráticas, como o sistema eleitoral, o sistema de justiça, o sistema de comércio, os aspectos de autônoma imprensa e de livre acesso à informação etc
Estamos diante de um estrago sem tamanho na imagem de um valor extremo, que é a democracia.
2020 ainda não passou, pois reflete o seu legado em 2021, ano que começa já com suas próprias grandes surpresas e complexos desafios.
Que os melhores vençam! Não as pessoas, mas os verdadeiros e altaneiros valores, como ética, verdade, compromisso, empatia, justiça, trabalho, família, amor, democracia, ordem e progresso!
Rogerio Reis Devisate
Advogado. Defensor Público/RJ junto ao STF, STJ e TJ/RJ. Palestrante. Escritor.