Sempre que podia e cabia, seguia com a gente, o João Martins Bastos, que dizia que só ia nos fazer companhia, porque nada tinha para fazer. Nós lá pelos vinte e poucos anos e ele pelos quarenta e tantos. Eu sempre soube que aquele companheiro oferecido, haveria de amealhar grande fortuna. Bastava observar seu procedimento e sua perspicácia comercial, com tudo revestido e empacotado numa tremenda humildade. Por isso a mim nunca surpreendeu.
Uma ocasião fomos para o sul da Bahia apertados numa caminhonete Chevrolet C-10. A fazenda era do Waldemar Holanda, homem rico e coronel do lugar. Eu e Galileu havíamos contratado com ele, comprar dois milhares de novilhas. O João, ali com a gente. Quieto, calado, só abria a boca para dizer que só tinha ido ali para conhecer a região. Se estávamos na varanda, ele simplório, sentava na escada dizendo que estava sujo e que não queria manchar os móveis do ricaço, que por sinal o tratava com educada distancia.
Cedo, enquanto apartávamos as novilhotas no curral, notei que o velho João entretinha o Waldemar noutra divisão vendo uma excepcional vacada que segundo nos dissera o proprietário, quando perguntamos, não era de negócio. Não mais prestamos atenção em vacas, João ou Waldemar, até que a noite, o último disse: – “Resolvi ajudar um pouco o acompanhante de vocês, coitado. Vendi quinhentas daquelas vacas para ele. Fiz um bom preço e dei seis meses de prazo para ele pagar. O titulo vocês avalizam, não é?”
Na hora me senti passado “pra traz”. O Galileu mais que isto. Quebrando a cerimonia, foi dizendo para o fazendeiro: “– Cê besta, sô. Este coitado que cê tá falando, compra tudo que está no curral, eu, o Zé aqui e desse jeito, em mais um tempinho, ocê também. Toda vez é assim, ele vem na garupa e volta de mão na rédea…coitados somos nós!!!
A verdade é que o João, ainda se aproveitou dos condutores que trouxeram as novilhas e fez vir juntas, as suas vacas…
Ele já me dissera uma vez, que ficara rico porque tendo fome, pedira e ganhara duas dúzias de ovos. Como dono deles, preferiu encher a barriga chupando tutano de osso e por os ovos para chocar. Assim, segundo ele, começou seu patrimônio. Mas, naquela viagem vi que não havia nenhuma galinha envolvida em seu passado econômico, e sim uma aliança perfeita de inteligência e humildade.
Pouquíssimo como parceiro, mas muito interessado no amigo, acompanhei de longe a vida do “véi” João. Tinha certeza de que faria ricos os seus filhos, embora volta e meia, ele e eles, sempre metidos em politica.
Há poucos anos atrás, candidatou-se a vice prefeito em Governador Valadares. Muitas críticas. Algumas duras… “estrelismo de gente atrasada”, “rico bobo”, “não sabe o lugar”; falavam o capeta a quatro malhando o velho.
Vindo do Norte, fui lá até ele perguntar: – E então amigo, o que fazes na politica?
–“Oh Zé Altino, ocê dos olhos vivos e espertos, parecendo inteligente, devia de saber. Se a gente não participa, só ficam os do outro lado, ou então, os “veiacos”. Assim as coisas nunca serão como nós, que produzimos, precisamos. A gente perde até as fazendas, ora! A ausência desses que criticam e que se dizem bons, estraga mais o Brasil que os políticos ruins que estão lá dentro, no lugar de quem, acredito, deveria estar”.
Pronto, aconteceu de novo, lembrei-me da viagem à Bahia, mas agora com prazer, por ele também, como eu, ainda estar vivo para ver como havia e há razão no que dizia.
É mesmo muito estúpido e prejudicial à sociedade, alguns “inteligentes”, dizerem que não gostam de politica. Tão diferentes do João, que enxerga muito além das porteiras de suas fazendas, sabendo que, em tudo, quem manda e bem ou mal organiza, é sempre ela…a POLÍTICA!!!
Coitados de nós, outra vez… e muitos anos já se foram.
José Altino
Jornalista diário, escritor, aviador, ex-fundador da União Sindical dos Garimpeiros da Amazônia Legal, ex-membro do Conselho Superior de Minas.