• Queria de coração compartilhar com os leitores uma história bonita, como a da Regilene Gurgel; mas não posso me fazer de cego e surdo diante de um pedido de socorro. Quem sabe nós, vocês e eu, juntos, consigamos fazer esse grito de dor chegar a quem possa dar um basta às condições desumanas do atendimento à Saúde no Amapá.
• O dia está bonito, claro, em Brasília, mas toda essa beleza e luminosidade se esvai, fica tudo nublado, quando abro o celular e lá está a mensagem:
• “Marcos, a crise de falciforme hoje apertou
• Estou a três dias jogado no corredor do HCAL
• Eles não chamam Hematologista
• [Estou] Sem banhar
• Sem atendimento”
• Ouvir um relato assim, deixa a mim, e tenho certeza deixaria a você também, atônito, aflito, o que você quer é correr lá e regularizar a situação, resolver, socorrer. Mas isso nem sempre está em nossas mãos.
• Quando fui eleito deputado, até tentei mudar essa situação, dando início a um projeto de Hospitais modelos para o Amapá, com tudo que há de mais moderno e de qualidade no atendimento, mas meu mandato acabou e com ele as obras ficaram abandonadas ou sucateadas. Mas essa história vocês já conhecem. O foco agora é socorrer quem está pedindo socorro.
• Perguntei ao meu amigo Mario, como poderia lhe ajudar. Pediu-me que divulgasse, denunciasse, pois já havia feito o que a Lei orienta, fez uma queixa à Promotoria de Saúde. Mas até aquele momento…nenhuma resposta.
• Enfim, está largado no meio do caos, onde não há atendimento nem há condições para tratamento, como relatou e mandou fotos, ele está ali no corredor onde estão pessoas com HIV positivo e tuberculose ativa, entre outros males, pessoas estas também sofrendo por falta do mínimo atendimento necessário.
• Mas isso começou hoje? Não, já dura alguns dias. Trata-se de uma via crucis, que demonstra o estado de abandono e calamidade do atendimento à saúde no Amapá. Se o que ele relata não me indignasse, seria sinal de que já não sou mais humano.
• O Mario é portador de anemia falciforme. Esta doença lhe provoca áreas de dor antes das crises. No entanto, desta vez o processo ocorreu de forma diferente, após uma semana de infecção na garganta, ele estava trabalhando para cumprir uma obra e chegou em casa na sexta, dia 21.01.2022, mas já na madrugada, às 4hs da manhã, momento em que a crise falcêmica tomou conta de seu corpo.
• A dor era terrível no joelho direito e virilha direita… Era muita dor! Então, ele começou logo com o tratamento de analgésicos e hidratação oral. Mas, o quadro evoluiu para dor na perna esquerda – joelho e virilha -, querendo subir para a coluna vertebral.
• Nessa altura da crise, sem aguentar mais de dor, ele chamou o SAMU, já que a remoção por carro próprio era impossível. Foi levado para a tenda do Hospital de Emergência de Santana, onde foi recebido e medicado com morfina e um antibiótico. Após a medicação foi encaminhado para a observação…
• Poderíamos pensar que estava tudo bem. Mas pense no local em que ele ficou para observação… Inacreditável em pleno século XXI, mas é fato, o local que ele foi colocado era uma Enfermaria quente e cheia de mosquitos, onde ele ficou sem remédios até às 3h da manhã, quando assumiu um outro médico, que começou o tratamento que é preconizado pelo Ministério da Saúde e foi então que ele conseguiu dormir das 3h da manhã às 6h.
• Mas era bom demais para ser verdade, se continuasse o tratamento ele teria saído da crise, pois tinha amenizado bastante a dor na perna direita. Mas o que aconteceu? Assumiu um médico cubano que foi omisso com o quadro clínico de Mário. E assim transcorreu mais um dia, somente às 19h, quando foi oficialmente internado e falou com o Dr. Leonardo, explicou o tratamento, passou o histórico clínico com exames e laudos antigos, mostrou o que preconiza o Ministério da Saúde para o tratamento álgica de dor da anemia falciforme, foi que houve a estabilização do paciente com três aplicações de medicamentos endovenosos. O que deveria ter sido feito desde o início.
• Essa parte da via dolorosa de meu amigo ocorreu no HE de Santana, mas como não tem hematologista no HE de Santana, essa doença deve ser tratada por hematologista, o paciente foi transferido para o HE de Macapá.
• Ao chegar no HE de Macapá, como é de praxe, não havia leito para ele, foi colocado em um corredor com uma maca sem colchão e sem remédios (aquelas típicas macas de centro cirúrgico), ocorre que em um ambiente de corredor não há como surtir efeito a medicação para o tratamento falciforme, pois o ambiente não pode ser frio nem quente, este último provoca desidratação, e provocou. Também ocorreu atraso nos remédios.
• As condições de higiene no HE de Macapá são terríveis: fezes no chão do corredor, doentes pelos corredores sem a menor infraestrutura, o prédio está repleto de infiltrações, está sujo e com ferro das colunas e pilares amostra, os remédios não chegam no horário devido a burocracia, não conseguem manter a hidratação, baratas passeiam pelos corredores e paredes… uma tristeza para a população amapaense que assiste tudo perplexa sem saber de seus direitos. Enfim, o caos instaurado, conforme fotos.
• Felizmente chamaram o hematologista, Dr. Jacy Amanajás (um grande hematologista), que ajustou a medicação, mas disse que não havia condições de tratar no corredor do HE e pediu a transferência do paciente para o HCAL.
• Neste, por mais que os médicos e enfermeiros demonstrem boa vontade, o quadro de infraestrutura não muda muito, como as fotos revelam, o paciente ainda está no corredor onde convive com doente terminal de HIV e um com tuberculose ativa gritando!
• Devemos esclarecer que o falcêmico, no Amapá, é tratado como um viciado em opioíde devido à falta de conhecimento da área, somente os hematologistas sabem realmente tratar, mas mesmo com a prescrição não são aplicadas seja pela falta de conhecimento, seja pela estrutura hospitalar que não funciona.
• A sociedade precisa ser ouvida! Mário está sofrendo, outros estão sofrendo a dor da doença duplicada ou triplicada pela falta de condições de atendimento, oriunda do sucateamento e abandono da Saúde Pública pelos gestores públicos. Contudo, a esperança reside na compreensão de que a governança está nas mãos de eleitos, que podem ser mudados através do processo de escolha popular a cada 4 ou 8 anos (senadores). A decisão é do sofrido povo do Amapá e do Brasil, pois, a escolha está em suas mãos, ou melhor, em seus dedos: digitar o número do que comprou seu voto ou do que pode melhorar seu futuro e de sua família. Em outubro de 2022 saberemos se tudo fica como está ou se a esperança renasce. Tudo depende do eleitor.