Ser pecuarista na Amazônia não é uma das tarefas mais fáceis, principalmente agora que os governos o elegeram como “bola da vez”.
Há alguns dias um amigo, do Pará, que tem uma empresa de engenharia e também é pecuarista, queixando-se, me disse:
– Gil, não aguento mais tanta pressão. É o governo, o trânsito, os clientes, os operários e tudo mais. Acho que vou largar tudo e me mudar para a minha fazenda e me dedicar a cuidar dos bois!
Ao que respondi de imediato:
– Amigo, vá com calma. Verifique primeiro se a fazenda ainda é sua ou se algum dia já foi sua.
Esta é a triste realidade do Estado do Pará, onde vários movimentos, autodenominados de “sem-terra”, invadem quase que diariamente as propriedades rurais.
Fala-se muito em desenvolvimento sustentável, contudo às vezes é muito difícil passar das ideias às ações. Tomemos como exemplo o Estado do Pará. Durante quase duas décadas, o ITERPA (Instituto de Terras do Pará) deixou de emitir títulos de terra, não reconhecendo os títulos emitidos por cartórios antigos e ignorando a propriedade de terras, cuja posse, muitas vezes, ultrapassa 70 anos. A falta de títulos de propriedade emitidos por órgão competente enseja uma série de problemas, as terras ficam à mercê de invasores, grileiros e bandidos. Um programa sério de desenvolvimento sustentável passa, inevitavelmente, pelo processo de regularização fundiária.
Não bastasse esse fato, o pecuarista é obrigado a desenvolver as suas pastagens e a criar o seu rebanho em apenas 20% de sua propriedade, em função da legislação ambiental. Não vai aí nenhuma crítica à proteção ambiental, mas, sim, a forma que se quer proteger o meio ambiente.
Apesar de toda a perseguição, a pecuária do Pará se desenvolveu nos últimos anos e possui, hoje, o invejável plantel de mais de 18 milhões de cabeças. Entretanto, a despeito do competente trabalho da ADEPARÁ, que com a vacinação anual conseguiu erradicar a “aftosa”, a carne produzida no Estado continua sofrendo com as barreiras sanitárias de alguns países.
A alternativa encontrada pela cadeia produtiva foi exportar o “boi em pé”, ou seja, o boi vivo, para países como Líbano e Venezuela. Aí, surgiu um novo problema: foi construído um logradouro turístico que abriga diversos restaurantes em área do Porto de Belém (único porto destinado a cargas gerais). Em razão disso, o Ministério Público moveu ação pedindo a proibição do embarque do boi por causa do “mau cheiro”, e o juiz que analisou o caso concedeu a proibição.
O Pará se tornou o maior exportador de gado vivo do Brasil, responsável por aproximadamente 97% das exportações e a reação veio de imediato. O governo do Estado taxou a exportação do boi em R$ 22,00 reais por cabeça embarcada, além de já cobrar o ICMS no transporte dos animais destinados à exportação. Ambas são cobranças inconstitucionais.
Algumas organizações, não se sabe com que intenção, começaram a ocupar a mídia acusando a exportação do gado vivo como responsável pelo aumento do preço da carne, e o povo, que em sua maioria desconhece a economia rural, começa a acreditar na mentira.
O que é terrível, uma vez que qualquer pessoa que entenda um pouquinho de pecuária sabe que a exportação de boi vivo não está entre os motivos de aumento do preço da carne. Proporcionalmente ao abate, a exportação de boi não é significativa. 2007 foi o ano recorde em exportação de gado, e o Brasil exportou por volta de 1% do volume de abate.
Pesquisas demonstram que a distorção no preço da carne não ocorre nem com o pecuarista nem com os frigoríficos. Muito menos por causa da exportação do gado vivo, mas, sim, na distribuição. Alguns supermercados, de vários estados, chegam a aumentar o preço da carne fornecida pelos frigoríficos em índices que variam de 36,14% a 115,67%.
Notícias chegam que aquela organização internacional denominada “Greenpeace” estaria promovendo campanha contra os produtos amazônicos (que saudade da época em que os estrangeiros eram proibidos de interferir na soberania dos países; não se trata de xenofobia, mas de autodefesa). O mundo deveria estar preocupado com o volume de recursos dessa organização (pela atuação e badalação o seu orçamento anual deve ser maior do que o de muitos países do chamado Terceiro Mundo) e do poder que ela vem adquirindo, pretendendo se tornar a consciência ecológica universal.
Para completar, o Ministério de Meio Ambiente inventou a figura do “boi pirata”. O assunto, se não fosse tão trágico e perigoso para a propriedade privada, seria cômico. O que deve achar o cidadão que de cadeia produtiva da pecuária só entende de comer o seu churrasco? Que se trata de um boi de perna de pau, de muletas, tapa-olho e um papagaio no ombro ou boi falsificado?
Mas, deixemos de lado um pouco o pecuarista da Amazônia e falemos desse tão sofrido povo, o amazônida, até para seguir o roteiro estabelecido pelo título deste artigo.
São 25.000.000 de brasileiros tentando sobreviver e desbravar uma das regiões mais difíceis e perigosas do mundo, a maior parte deles veio para cá atendendo ao apelo do governo federal: “Integrar para não entregar”, alguém lembra disso?
Fala-se muito em desmatamento, o que é inegável. Todavia, vamos as razões do fato:
– Onde o Brasil e o mundo acham que vivem os amazônidas? Nas capitais da Amazônia? Ledo engano, boa parte dos 25 milhões de habitantes da região vive no meio rural (o meio rural da Amazônia é a floresta), produzindo para o seu sustento e de sua família e, ainda, para alimentar o Brasil e o mundo.
Existem bandidos e irresponsáveis na Amazônia? Claro que sim, eles existem por igual no País inteiro.
Entretanto, os empresários e o povo da Amazônia são sérios, decentes e empreendedores, dotados de uma consciência de cidadania que desafia a de algumas regiões.
Fala-se muito em desmatamento, o que é inegável. Entretanto, é preciso que se diga que a Amazônia não é um território de loucos e desvairados que querem destruir as suas próprias terras. Aliás, se for observado com bastante cuidado o mapa do desmatamento, verificar-se-á que o aumento e o descontrole ocorreram com o advento dos tais “sem-terra”, que invadem as propriedades, destruindo-as e devastando as reservas florestais exigidas por lei.
O amazônida vive acuado e perseguido por milhares de ONGs internacionais, por um Parlamento e um governo federal, ambos muito imaginativos, intervencionistas, cheios de “boas intenções” e sem qualquer noção do que é viver e sobreviver na Amazônia e, ainda, sob a exploração de um “imperialismo brasileiro”, que só vê na região riquezas a ser exploradas.
Existem conflitos agrários com morte? Claro que existem, como também existem conflitos com morte por cachaça, por mulher, por honra e tudo mais. Aqui é área de colonização, para cá vieram pessoas boas e pessoas más.
O governo federal tem intervindo na Amazônia a seu bel prazer como se a região fosse o quintal da casa dos governantes da hora, tem criado reservas de todos os títulos e aí se configura a reforma agrária como um mito. O amazônida que deseja ter a sua terrinha aguarda, até hoje, que Brasília um dia pense em uma reserva para efeito de reforma agrária e assentamento dos (que fique bem claro) amazônidas.
Quando falo de amazônida falo também dos povos indígenas da Amazônia contra os quais o governo vem, cruelmente, praticando “política de exclusão social” sob a capa de “reservas indígenas”. Muito bonita a desculpa de preservação cultural, deixando o índio em condições sub-humanas de vida. A memória das pessoas é muito curta e o conhecimento da história do Brasil é inexistente. O brasileiro é o produto da miscigenação de europeus, índios e negros. Aí está o belíssimo povo que surgiu, nem por isso deixamos esquecidas as nossas raízes culturais.
O Amazônida é o campeão mundial da preservação florestal, pasmem os senhores.
Há 60 anos, o Brasil era detentor de apenas 7% de toda a floresta nativa do planeta terra, hoje possuímos 28%.
Depois de conversar com vários segmentos da sociedade Amazônica cheguei à conclusão de que o amazônida está disposto a encabeçar um grande movimento e constituir um “fundo” para iniciar um grande programa de reflorestamento dirigido à Grã-Bretanha, aos Estados Unidos, à França, à Itália e outros países que, ao longo dos anos, devastaram as suas florestas.
Alguns colegas de imprensa têm badalado muito sobre a Amazônia e fica no ar a impressão de que o amazônida é perigoso devastador, desmatador, que é o inimigo. Vamos parar com isso, o amazônida é um brasileiro como outro qualquer, apenas com coragem suficiente para viver aqui e desenvolver a Amazônia.
Os amazônidas pedem àquelas pessoas que habitam o nosso lindo planeta que se abstenham de falar ou emitir juízo de valor sobre a região Amazônica e seu povo sem antes conhecê-los.
Falar de alguém ou de alguma coisa sem conhecimento de causa é pura “fofoca”.