A esquerda, como grupo crítico circunstancial do atual flerte da direita brasileira com o autoritarismo, sustenta que esses ensaios de práticas hediondas pretendem levar o Brasil para a barbárie e eliminar o exercício saudável da democracia, tão duramente conquistada. O medo é justificável porque já existe alguns militantes desse movimento usando a farda verde oliva. O problema é que a esquerda, de igual forma, já teve seus surtos de autoritarismo quando esteve no poder, também levantando bandeiras extremistas, como a de controle dos meios de comunicação e de apoio a grupos que praticavam a desobediência civil, como os famosos bonés vermelhos que tinham franco acesso ao Palácio da Alvorada. É o sujo falando do mal lavado.
Aqui mesmo em terras tucuju, tivemos governo de esquerda que achava desnecessária a existência do poder legislativo estadual, tido como abominável antro de corrupção. O judiciário também recebeu sério abalo com uma campanha dura de desmoralização desse poder. Quem não lembra a Assembleia Legislativa sendo depredada por militantes de esquerda, com invasão de suas dependências? Quem não lembra do Judiciário e do Tribunal de Contas sendo tachados de órgãos ligados ao narcotráfico? O Amapá chegou a ser agenda de uma CPI que veio investigar denúncias de que esses poderes poderiam estar ligados ao crime organizado.
Esses acontecimentos caseiros, de nítidos contornos autoritários, comprovam que o flerte com o poder absoluto não tem matiz partidária ou ideológica, vem da índole reprovável de exercentes do poder que não se contentam com a fatia deferida pelo poder constituinte, pilar da democracia. A história revela que líderes e seus adeptos que advogam práticas extremistas como fechamento do judiciário e de casas legislativas, historicamente não são singulares e que também são derrotados pela mão forte da democracia, contida na vontade popular.
Essas similitudes históricas orientam que é preciso estar atento aos líderes que pregam transformações revolucionárias e rápidas, mas que exigem para isso poder absoluto, com o sacrifício da democracia e de seus postulados. Esses tipos de liderança no exercício do poder são exemplos cruéis de governantes que abominam a liberdade, em sua mais ampla dimensão, como fundamento de uma vida social saudável e fraterna, e, normalmente, levam o povo ao sacrifício desnecessário e até a morte.
Vicente Cruz
Presidente do Conselho de Administração, advogado sênior e Estrategista Chefe do IDAM (Instituto de Direito e Advocacia da Amazônia)
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