Medimos os gestos pelo tamanho ou pela grandeza?
O gesto do pai, no caso acima narrado, pode parecer pequeno, embora seja crível que produza importante impacto no caráter em formação dos filhos, inclusive pelo acrescido no final do diálogo mencionado.
A vida é assim. Não são os grandes e teatrais gestos que sempre revelam os maiores valores. Pequenas palavras podem impactar muito mais. Um olhar sincero, um abraço apertado, um agradecimento verdadeiro, uma ligação inesperada e sem interesse oculto, a verdade nos diálogos, a reciprocidade nos relacionamentos, a lisura no trabalho e na vida pública.
Queiramos ou não, somos exemplo para as gerações que nos sucedem no mundo e a respeito Renato Russo escreveu sobre os pais: “são crianças como você, o que você vai ser, quando você crescer”.
Ora, não é o isolado fato de se usar cueca para guardar dinheiro que causou tanto impacto nas redes sociais e nos meios de comunicação.
Como no conto mencionado, há gestos ou coisas que transbordam do universo aceitável e geram indignação geral. Geram ou deveriam gerar.
Se alguns questionam o gesto, outros questionam a origem do dinheiro, outros fazem piada e outros são indiferentes a tudo isso, por já estarem imunes à reação mais indignada e por descrença em mudanças e melhorias.
Ao longo do tempo, promessas tantas foram feitas para não ser cumpridas. Valeram o que?
De que vale se dizer algo bonito se o ato a seguir o nega?
Assim é o que temos visto. Não é o ato isolado que acaba tendo tanta relevância, mas o fato de ser “mais um” estranho e questionável ato dentre tantos que e que, lamentavelmente, vem embotando o ânimo e as reações.
Para alguns, até parecia notícia requentada, pois há alguns anos foi noticiado fato semelhante.
Notemos que há mudanças em curso em vários seguimentos: os canais de TV e o monopólio que tinham sobre notícias e telenovelas ganhou a concorrência de canais fechados e de séries e filmes de várias diversas fontes, as bancas de jornais e revistas sentem a concorrência do formato digital, a compra de produtos em lojas físicas agora pode ser executada por meio de aplicativos, o mesmo ocorrendo com o uso do cheque (isso ainda existe!), sendo realidade hoje até a execução de tarefas em regime de home office, algo há pouco tempo inaceitável.
São mudanças “de meio” e não da essência.
No que diz respeito à notícia sobre guarda de dinheiro em cueca, parece que tantas coisas mudaram no mundo globalizado, para que nada mude.
Mudanças “de meio”, não de essência. Isso assusta.
Os fatos serão julgados nas instâncias próprias e não é o foco deste artigo tecer quaisquer considerações a respeito. O propósito aqui é considerar o mandato público e a representatividade da vontade do eleitor. Quanto o eleitor se importa com fatos assim?
Se os motivos são determinantes para a prática do ato e para a compreensão dos fatos, o que assusta é a incapacidade de se compreender fatos em si injustificáveis e sem qualquer conexão com o bom senso que deve reinar nas recíprocas e equilibradas relações sociais.
Freud bem aborda os comportamentos de um indivíduo diante das condutas de outros e, dentre outros trabalhos primorosos, Psicologia das Massas e Análise do Eu é livro que contém um manancial de ensinamentos sobre o comportamento humano.
É incompreensível se misturar a vida privada com a vida pública e agir na vida pública como se não existisse um motivo maior para se estar ali.
A responsabilidade coletiva passa pelo elevado senso moral de cada um e da postura e educação perante si e os demais, não sendo compreensível ou coerente que se exija dos outros aquilo que não somos capazes de fazer. A empatia, o respeito pelo próximo e a educação social de certo modo caminham juntos.
Será a indignação um elemento propulsor do voto do eleitor nas próximas eleições? Quem sabe? De toda forma, que no futuro próximo tenhamos menos notícias assim e que o prometido caminhe junto com a realidade. A utopia não nos provê ou alimenta.
Rogerio Reis Devisate.
Advogado. Defensor Público/RJ junto ao STF, STJ e TJ/RJ. Palestrante. Escritor.